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5 de novembro de 2003
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CIDADE

Barbárie no Ibirapuera

Morte de estudante no lago reacende
polêmica sobre a realização de
megaeventos no parque

Marcella Centofanti


Jorge Araujo/Folha Imagem
Após oito horas de concentração em frente ao Monumento às Bandeiras, uma multidão invadiu o parque e se jogou nas águas poluídas do lago: 370 policiais, guardas-civis e seguranças escalados pela prefeitura para conter os ânimos dos jovens não conseguiram evitar as cenas de vandalismo


No último domingo, o estudante Gutemberg Clarindo Oliveira, 16 anos, saiu de sua casa em Itaquera, na Zona Leste, às 11 horas, para participar de uma rave em frente ao Parque do Ibirapuera. Acompanhado de doze colegas, ele assistiu à performance dos 130 DJs que se revezavam sobre dezesseis trios elétricos na Parada AME São Paulo. A festança, com oito horas de duração, foi organizada pela prefeitura em parceria com a Associação Amigos da Música Eletrônica e reuniu 170.000 pessoas. Após seu encerramento, por volta das 20h30, os rapazes de Itaquera entraram no parque e pularam nas águas poluídas do lago, junto com dezenas de adolescentes. Gutemberg, que não sabia nadar, permaneceu próximo à margem. Dez minutos depois, desapareceu. Os bombeiros localizaram o corpo do garoto na madrugada de segunda-feira, a cerca de 2 metros de profundidade.

Para cuidar da segurança dos participantes nas ruas, a prefeitura afirma ter escalado 130 policiais militares e 100 seguranças particulares. Dentro do parque, os quarenta guardas-civis que normalmente trabalham ali ganharam o reforço de outros 100. Foi pouco. "É um lugar inadequado para um evento desses", declarou o tenente-coronel Pércio Cordeiro, responsável pela área. Além da invasão do lago, foram registrados casos de embriaguez e brigas. Vândalos subiram no Monumento às Bandeiras e deixaram um rastro de sujeira pelos gramados. "Todas as ocorrências foram resolvidas e a festa acabou de maneira apoteótica", diz a diretora de comunicação da AME, Claudia Assef. "Fizemos tudo o que estava a nosso alcance. O acidente foi uma fatalidade", afirma o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Adriano Diogo.

O Ibirapuera sedia shows desde a década de 80. Alguns são compatíveis com sua estrutura, outros não. Em apresentações de orquestras, por exemplo, o público médio é de 10.000 espectadores. Os problemas aparecem em espetáculos grandes, que atraem mais de 100.000 pessoas. Camelôs espalham-se pelas alamedas e o lixo produzido pela multidão chega a 20 toneladas, cinco vezes mais que num fim de semana normal. "O Central Park, em Nova York, promove concertos e peças há mais de um século. Por aqui, as pessoas não aprenderam a utilizar o patrimônio sem danificá-lo", afirma o arquiteto Paulo Ricardo Giaquinto, chefe do Departamento de Planejamento e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie. Ele defende a imposição de um limite de público. Em 2001, o Ministério Público tentou impedir a realização de eventos para mais de 20.000 pessoas no parque. "Nosso relatório já previa, inclusive, o risco de afogamento no lago", diz Carlos Alberto de Salles, promotor do Meio Ambiente. O processo ainda tramita na Justiça.

         
     
 
 
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