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CRÔNICA
Janelas e varandas Ivan Angelo Em
um prédio de apartamentos no fim da Avenida Paulista há um terraço
estreito de onde parece acenar um São Jorge enorme, de tamanho natural
humano. Viverá ali um corintiano fanático ou um devoto ostensivo
do santo? Um umbandista? É uma exibição intencional ou a
imagem foi encostada ali por não haver lugar adequado para ela dentro da
casa? Varandas e janelas podem ser um campo interessante
para observação nas metrópoles. Contribuições
pessoais de moradores para a decoração da cidade. Cenários
particulares. Espaços de expressão. Vitrines individuais.
Repare em um terraço todo pichado na altura do 10º andar de um prédio
de apartamentos na Barra Funda, visível do Minhocão. É habitado,
percebe-se a luz da televisão. Será que foi o próprio morador
quem pichou? O filho? Uma visita? Um vizinho, arriscando a vida? Alguém
que entrou lá antes da ocupação? É
da sacada que o morador da metrópole confere a paisagem, o tempo e a vida
lá fora. Janelas separam o íntimo e o público. A porta-balcão
é a sua verdadeira porta da rua, a fronteira entre o que ele guarda e o
que mostra. Mas algumas pessoas não se importam de botar no espaço
público um pouco do que é do íntimo.
Rede estendida já vi mais de uma vez, em exíguas varandas, uma até
com um homem em descuidada sesta. Nostalgias de algum Nordeste? De algum terreiro
de sítio? Numa minivaranda da Bela Vista, moça sentada de toalha
nos ombros nus sob um secador de cabelos daqueles de pé e capacete, lendo
revista. Casa dela ou salão improvisado? Na bandeira de uma janela que
dá para o Minhocão, uma gaiola com passarinho. Ave presidiária,
condenada à feiúra e ao barulho humanos. Será que canta?
Esses lances isolados quebram a uniformidade dos
terraços populares. Os dos ricos diferenciam-se principalmente por plantas
ornamentais, alguns com verdadeiras florestas. O povão ousa mais no pessoal.
Como se fosse um quintal, lá ele põe rede, casa de cachorro, fogão
quebrado, poleiro de papagaio, latão com planta, bandeira do time de futebol,
monta churrasqueira, pendura bicicleta, costureiras e manicures exibem placas
oferecendo seus serviços, quem não tem área interna estende
roupas em cordinhas... Em certas ocasiões, como Natal, eleições
e Copa do Mundo, ricos e pobres igualam-se e botam guirlandas de luzes piscantes,
abrem estandartes e bandeiras. Por que presto atenção
a essas coisas? Deformação de escritor, por certo. Minha mais antiga
lembrança de bisbilhotice foi espreitar o vão gradeado de um porão,
que era habitado e eu não sabia, ia para a escola primária, deveria
ter uns 7 anos, e de lá de dentro voou um sapato certeiro que bateu na
grade com estrondo e me fez correr sem olhar para trás até minha
casa. Já rapazinho me lembro de espiar janelas depois das aulas do colégio
noturno, na esperança de algum lance. Logo as atrações palpáveis
fizeram estas esmaecerem. Não sumiram de todo, porém, pois deve
ser da mesma substância a curiosidade que se manifesta em visita turística
a palácios e mansões onde figuras históricas moraram. Aposentos
de reis, nobres, rainhas, a mesa em que Camilo Castelo Branco escrevia, o consultório
na casa de Freud em Viena... Ah, deixa para lá.
Voltemos às janelas e varandas da cidade, coisa bem mais amena. Estas de
que falo revelam um pouco do espírito dos moradores. É o que basta
para pensarmos neles com uma distante camaradagem, supor que o que mostram pode
até significar um aceno oi, oi, estou aqui, eu sou um ser humano,
cuido de um passarinho , busca de um fugaz contato, que seja um passeante
olhar. e-mail: ivan@abril.com.br
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