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5 de outubro de 2005
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Janelas e varandas

Ivan Angelo

Em um prédio de apartamentos no fim da Avenida Paulista há um terraço estreito de onde parece acenar um São Jorge enorme, de tamanho natural humano. Viverá ali um corintiano fanático ou um devoto ostensivo do santo? Um umbandista? É uma exibição intencional ou a imagem foi encostada ali por não haver lugar adequado para ela dentro da casa?

Varandas e janelas podem ser um campo interessante para observação nas metrópoles. Contribuições pessoais de moradores para a decoração da cidade. Cenários particulares. Espaços de expressão. Vitrines individuais.

Repare em um terraço todo pichado na altura do 10º andar de um prédio de apartamentos na Barra Funda, visível do Minhocão. É habitado, percebe-se a luz da televisão. Será que foi o próprio morador quem pichou? O filho? Uma visita? Um vizinho, arriscando a vida? Alguém que entrou lá antes da ocupação?

É da sacada que o morador da metrópole confere a paisagem, o tempo e a vida lá fora. Janelas separam o íntimo e o público. A porta-balcão é a sua verdadeira porta da rua, a fronteira entre o que ele guarda e o que mostra. Mas algumas pessoas não se importam de botar no espaço público um pouco do que é do íntimo.

Rede estendida já vi mais de uma vez, em exíguas varandas, uma até com um homem em descuidada sesta. Nostalgias de algum Nordeste? De algum terreiro de sítio? Numa minivaranda da Bela Vista, moça sentada de toalha nos ombros nus sob um secador de cabelos daqueles de pé e capacete, lendo revista. Casa dela ou salão improvisado? Na bandeira de uma janela que dá para o Minhocão, uma gaiola com passarinho. Ave presidiária, condenada à feiúra e ao barulho humanos. Será que canta?

Esses lances isolados quebram a uniformidade dos terraços populares. Os dos ricos diferenciam-se principalmente por plantas ornamentais, alguns com verdadeiras florestas. O povão ousa mais no pessoal. Como se fosse um quintal, lá ele põe rede, casa de cachorro, fogão quebrado, poleiro de papagaio, latão com planta, bandeira do time de futebol, monta churrasqueira, pendura bicicleta, costureiras e manicures exibem placas oferecendo seus serviços, quem não tem área interna estende roupas em cordinhas... Em certas ocasiões, como Natal, eleições e Copa do Mundo, ricos e pobres igualam-se e botam guirlandas de luzes piscantes, abrem estandartes e bandeiras.

Por que presto atenção a essas coisas? Deformação de escritor, por certo. Minha mais antiga lembrança de bisbilhotice foi espreitar o vão gradeado de um porão, que era habitado e eu não sabia, ia para a escola primária, deveria ter uns 7 anos, e de lá de dentro voou um sapato certeiro que bateu na grade com estrondo e me fez correr sem olhar para trás até minha casa. Já rapazinho me lembro de espiar janelas depois das aulas do colégio noturno, na esperança de algum lance. Logo as atrações palpáveis fizeram estas esmaecerem. Não sumiram de todo, porém, pois deve ser da mesma substância a curiosidade que se manifesta em visita turística a palácios e mansões onde figuras históricas moraram. Aposentos de reis, nobres, rainhas, a mesa em que Camilo Castelo Branco escrevia, o consultório na casa de Freud em Viena...

Ah, deixa para lá. Voltemos às janelas e varandas da cidade, coisa bem mais amena. Estas de que falo revelam um pouco do espírito dos moradores. É o que basta para pensarmos neles com uma distante camaradagem, supor que o que mostram pode até significar um aceno – oi, oi, estou aqui, eu sou um ser humano, cuido de um passarinho –, busca de um fugaz contato, que seja um passeante olhar.

e-mail: ivan@abril.com.br

     
   
 
 
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