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PERFIL
O
rei do
espeto
Como
um ex-garçom se tornou dono
da
maior rede de churrascarias da cidade
Lúcia
Monteiro e Silvana Azevedo
Fotos Renato Chaui

Ari
Nedeff, entre as picanhas e a fraldinha: fundador da rede Novilho
de Prata |
São
Paulo é a cidade do mundo com maior número de churrascarias.
São 140, de acordo com a Associação das Churrascarias
do Estado. A maioria delas funciona no sistema de rodízio,
um paraíso para quem não consegue se decidir entre
picanhas, fraldinhas e contrafilés. Dentro desse universo
carnívoro, uma figura se destaca. Trata-se do gaúcho
Ari Nedeff, dono da maior rede da cidade. Ele possui nove casas
por aqui, mais três instaladas em Campinas, Goiânia
e Rio de Janeiro. Sócio majoritário da Novilho de
Prata, da Montana Grill e das populares Pampeana e Boi Brasil, tem,
ainda, participação nos nove quiosques Montana Express
em shoppings. Sua trajetória se confunde com a história
dos rodízios. Quando abriu o primeiro restaurante, em 1986,
contavam-se nos dedos de uma mão os lugares em que, com uma
espécie de ingresso, se comia carne até dizer chega.
Ari Nedeff veio do norte do Rio Grande do Sul. Trabalhou em restaurantes
de beira de estrada onde o chamado "espeto corrido" surgiu e, hoje,
é um rico homem de negócios.
Nedeff
que só se veste com roupas feitas sob medida pelo
estilista Ricardo Almeida e construiu, em Alphaville, uma mansão
de cinco quartos, com pisos e paredes de mármore negro da
Grécia e branco da Itália estudou até
o 2º ano do ginásio, o equivalente à 6ª
série do ensino médio. Começou a trabalhar
aos 13 anos, no frigorífico em que o pai era responsável
pela balança. "Meu sonho era ser dono de churrascaria", conta.
Aos 21, saiu de casa para ser copeiro em uma churrascaria às
margens da Via Dutra, perto de Itatiaia, no Rio de Janeiro. Seu
patrão na época, o primo Moacir Lahude, logo identificou
o talento de Nedeff. "Ele é inteligente e quer ganhar cada
vez mais", afirma. O rapaz passou por Vitória e Brasília
antes de chegar a São Paulo, como gerente de um restaurante
dentro do Carrefour da Vila Maria. Mês a mês, economizava
metade do salário. Depois que abriu sua primeira churrascaria,
em Guarulhos, não parou mais.
Não
espere encontrar em seus restaurantes o mesmo requinte do Baby Beef
Rubaiyat ou do Esplanada Grill. Até existem adegas climatizadas
com capacidade para 200 garrafas de vinho e 51 rótulos diferentes
em todos os endereços da Novilho de Prata e da Montana Grill,
mas a principal atração é mesmo o preço
acessível. Por valores que variam de 13,90 a 21,90 reais,
estão à disposição cerca de vinte cortes
de carne. Dê o sinal verde e prepare-se para o passa-passa
dos espetos de picanha, maminha, baby beef e paleta de cordeiro
uruguaia... São servidas fatias finas, bem do jeito que os
críticos gastronômicos detestam. "É o antichurrasco",
sentencia J.A. Dias Lopes, do jornal O Estado de S. Paulo.
"A carne é aquecida e reaquecida várias vezes. Nunca
se consegue uma no ponto." É difícil, no entanto,
ver alguém sair dali com cara de quem comeu e não
gostou. Os clientes se esbaldam e chegam a ficar horas sentados.
Nas casas mais populares de Nedeff, o rodízio custa de 7,90
a 13,90 reais. Nesses casos, a variedade de saladas cai pela metade,
há menos opções de pratos quentes e os cortes
nobres raramente chegam à mesa. A qualidade da carne é
sempre a mesma.

Com a brigada de Alphaville: maioria de gaúchos, catarinenses
e paranaenses |
O segredo
do sucesso não está no tempero (as carnes só
levam sal) nem em ingredientes exclusivos, mas na habilidade de
Nedeff em negociar. Com esse dom, foi incorporando dezenas de sócios,
que investem em suas casas e lhe permitem crescer constantemente.
Há dois meses, adquiriu um restaurante em Boca Raton, na
Flórida. Entre os parceiros está a dupla sertaneja
Chitãozinho e Xororó, que divide com Nedeff a Montana
Grill e a Montana Express. "É um casamento perfeito", conta
Chitãozinho. "Ari queria publicidade e nós precisávamos
de boa administração."

Playground
na unidade da Avenida do Estado: bichinhos e videogames |
Gerentes
e maîtres de destaque são transformados em sócios.
Atraídos pelo sonho de também ser donos do negócio
e, no futuro, tornar-se novos "reis do espeto", jovens de 18 a 24
anos deixam o Sul para aprender com Nedeff. São 1 000 funcionários,
contratados geralmente sem experiência. O paranaense Guilherme
Mazer, 21 anos, começou como copeiro em 1998 e hoje é
gerente. "Meu próximo objetivo é ter uma cota no grupo",
afirma. A moradia em alojamentos no próprio restaurante é
outro benefício. Nos quartos, há apenas o necessário:
beliches, armários e televisão. "Aqui é seguro,
pago um aluguel de 30 reais e não gasto com transporte nem
com comida", diz a saladeira Rosmari Baggio, que divide o espaço
com duas colegas. Só precisam descer um lance de escadas
para estar de camisa branca e coletinho preto no salão.
Divulgação

Chitãozinho
e Xororó: sociedade há três anos |
As instalações amplas e bem iluminadas, com piso de
granito e corrimãos dourados, atraem grupos de executivos
e famílias inteiras. Diferentemente do que acontece em restaurantes
moderninhos, as crianças recebem atenção especial.
Além dos cadeirões, a unidade da Avenida do Estado
tem um espaço equipado com brinquedos, jogos eletrônicos
e piscina de bolinhas. A vontade de agradar a gregos e troianos
é tamanha que, não raro, se encontra uma noiva comemorando
o casamento no meio de espetos. A combinação pode
parecer esquisita. Mas faz sucesso. Pelo menos uma vez por semana
há reuniões para até 500 pessoas. Os enfeites
da festa só completam o espetáculo visual que é
a variedade e a fartura dos rodízios. Um cenário para
Pantagruel nenhum botar defeito.
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A
virada do rodízio
Tímido
e rural há quarenta anos, o "espeto corrido" conquistou
o mundo
Armando Coelho Borges
Fotos Renato Chaui
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| Instalações
sofisticadas, bufês repletos de frios e carnes em fatias
finas: legião de admiradores |
O
Brasil não criou o churrasco, mas inventou o rodízio.
Ao surgir, a idéia não parecia ter força.
Começou em torno de 1960 nas regiões de colonização
italiana e alemã do Rio Grande do Sul, em restaurantes
de estrada. Motoristas apressados recebiam rápido o
"espeto corrido". Eram três ou quatro, deixados na mesa
e logo substituídos por outros. Esse início
rural foi ofuscado pelas cidades. Com São Paulo à
frente, o rodízio recebeu formatação
e tornou-se uma operação tão planejada
quanto corrida de Fórmula 1. A clientela apreciou a
variedade e o serviço veloz.
O grande feito foi conseguir tornar a venda de proteína
nobre um comércio que enfrenta pizzarias e fast foods.
As instalações se sofisticaram. Surgiram imensos
bufês com toda sorte de frios e pratos quentes. A concorrência
entre as casas impôs vigilância dos custos. Há,
porém, pouca carne marmorizada, aquela de gordura entremeada
às fibras, que tem mais sabor. Daí as fatias
finíssimas, amenizando inconvenientes de textura e
gosto. Provando mais grossas, sente-se diferença. Mas
existem rodízios e rodízios. E muitos melhoram
as ofertas. Os puristas, contudo, resistem. Pois não
se comparam rodízios com churrascarias que trabalhem
à la carte cortes primorosos. O trato individual e
no ponto certo faz a diferença. Mesmo que não
haja variedade. A legião de admiradores não
está nem aí e segue lotando os rodízios.
Outros países importam e se encantam. Hoje, eles estão
na Europa, na Ásia, na América do Norte.
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