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5 de junho de 2002
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Acordes e cifrões

Sinfônica do Estado enfrenta
ameaça de cortes
no orçamento
e ganha apoio de empresários

 
Rogério Montenegro

Ensaio da orquestra: número de assinaturas recorde neste ano



Veja também
Escute músicas do novo CD da Osesp (todas são de autoria de de Camargo Guarnieri)
 

Symphony Nº 2, ‘Uirapuru’ (1945)

 

Abertura Concertante (1942)

 

Symphony Nº 3 (1952)

No início do ano, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) comemorou o recorde de 5.088 assinaturas vendidas. Aumentou em 50% a quantidade de gente que pagou antecipadamente para garantir lugar nos espetáculos desta temporada. Seu CD com obras do compositor paulista Camargo Guarnieri, que chegou às lojas em 9 de maio, já é considerado sucesso. Na semana que vem, começam as gravações das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos. Como o primeiro, será lançado pelo selo sueco Bis. O grande feito da orquestra em 2002, no entanto, acontecerá no segundo semestre. Os 91 músicos embarcam em outubro para sua primeira turnê pelos Estados Unidos, com apresentações em teatros de dezoito cidades, incluindo o Avery Fisher Hall, no Lincoln Center, onde costuma tocar a Filarmônica de Nova York. "Este é um ótimo momento, alcançado graças a uma evolução constante", acredita o maestro John Neschling, diretor artístico da Osesp. "Finalmente temos uma orquestra com padrão internacional", comemora o economista Persio Arida, que não perde um concerto.


Renato Chaui

Neschling: "Qualidade sem recursos é impossível"


Manter esse som de qualidade tem um custo alto: 12,9 milhões de reais só neste ano, ou 13% de todo o orçamento da Secretaria de Estado da Cultura. Isso leva a orquestra a ser constantemente criticada por pesar demais nos cofres do governo. "Sofremos inúmeras pressões para usar esse dinheiro em outros projetos", diz o secretário Marcos Mendonça. Nos corredores da Sala São Paulo, sede da Osesp, teme-se que essas pressões tenham atingido um nível quase insuperável. O governador Geraldo Alckmin, que não é um grande apreciador de música erudita nem costuma ser visto em concertos, teria cogitado fechar a orquestra. Não deve chegar a tanto, mas a intenção da secretaria é financiar no futuro metade dos custos e deixar o restante para a sociedade civil. "A mudança de política é sempre uma ameaça a todas as orquestras brasileiras e à maioria das internacionais", afirma Neschling. "O certo é que não temos como manter o atual nível artístico com um orçamento menor."

Todas as grandes orquestras do mundo dependem de pesados investimentos. Na Europa, os recursos vêm do Estado. Nos Estados Unidos, de doações da comunidade. A tendência é que a gestão da Osesp se aproxime do modelo americano. Há um mês, um grupo de empresários se juntou com a intenção de apoiá-la. A Sociedade Amigos da Osesp reúne personalidades como o banqueiro Pedro Moreira Salles, o economista Persio Arida, o empresário José Ermírio de Moraes Neto e o juiz Thales Estanislau do Amaral Sobrinho. "Do mesmo jeito que algumas pessoas lutam pela construção de creches, vamos cuidar da música clássica", afirma o presidente da entidade, o advogado Ary Oswaldo Mattos Filho.


Rogério Montenegro

Lojinha na Sala São Paulo: voluntários vendem camisetas, relógios e canecas


A reestruturação da Osesp começou em 1997, quando Neschling foi contratado. Antes, os instrumentistas ganhavam mal e não possuíam sede própria. Hoje, ensaiam e se apresentam na belíssima Sala São Paulo e têm salários compatíveis com os do mercado internacional. "Músicos de primeiro time só tocam se forem bem remunerados", afirma Carlos Haag, crítico musical do jornal Valor Econômico. Nestes cinco anos, a Osesp conquistou uma platéia cativa, que lota todas as suas apresentações. Daí surgiu o grupo de 200 voluntários que, desde 2000, ajudam a orquestra. Servem de guias para os solistas estrangeiros ou de médicos de plantão durante os concertos e vendem camisetas, canecas, relógios e canetas com o logotipo da Osesp antes dos espetáculos. Arrecadam fundos para a compra de instrumentos, viagens e pagamento de cachês. "Assim a orquestra cria raízes na sociedade", afirma o coordenador dos voluntários, o advogado Glênio Vergara. Iniciativas como essas são o maior patrimônio da Osesp. Uma riqueza que só a qualidade da música é capaz de manter.

         
     
 
 
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