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5 de junho de 2002
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CRÔNICA

Grandes negócios

Cascavéis, codornas, chinchilas,
avestruzes e o sonho de ficar rico

Walcyr Carrasco


Todo mundo sonha ficar rico. De vez em quando me dá a louca e começo a fazer planos. Minha amiga Lalá é especialista em me assessorar.

– Soube que veneno de cascavel é exportado por fortunas!

Procuramos informações. Aparentemente, laboratórios de medicamentos compram o veneno. A peso de ouro. Melhor dizendo, de urânio! A criação parecia ser fácil. Bastava encher uma cova de cascavéis e ir para a caixa registradora.

– Podemos criar cascavéis – refleti. – Só há um problema. Quem tira o veneno?

Houve um instante de silêncio. O trabalho de arrancar veneno de cascavéis pode ser lucrativo. Mas é pouquíssimo atraente. Chegamos à conclusão de que contrataríamos um veterinário. Compraríamos luvas. Eu estava negociando um terreno lindíssimo. Catorze mil metros quadrados de Mata Atlântica na beira de um lago. Resolvi encher com as cascavéis.

– Aqui faço uma casa de campo – disse. – Ali, boto as cascavéis.

A futura vizinha me olhou horrorizada.

– E se elas fugirem?

– Não fogem não – garanti seriamente.

De noite, fiquei pensando. Já imaginou acordar pisando nas cobras espalhadas pelo chão? Mesmo assim, comprei o terreno. Tratei de procurar os filhotes. Surpresa!

– Terreno na beira de um lago? Cascavel só vive em deserto!

O negócio foi por água abaixo. Suspirei. Bem, agora eu tinha o terreno.

– Posso fazer a casa de campo e criar codornas.

– E o cheiro? – lembrou a vizinha.

Verifiquei chinchilas. Seria preciso construir galpões. Fiquei imaginando o varal cheio de peles de chinchila para secar. Que horror! Tenho o espírito ecológico demais para isso. Um amigo veio com nova idéia.

– O negócio do momento são os avestruzes. Deles se aproveita tudo. A carne para comer e as plumas para fantasias de Carnaval.

Imaginei uma ala inteira da Rosas de Ouro enfeitada com meus avestruzes. O problema é que são uns bichos grandões. Os casais custam uma boa quantia. É preciso esperar os filhotes crescerem. Puxa, seria divertido fazer um jantar oferecendo uma gigantesca omelete de ovo de avestruz. Caí em mim:

– Nem comecei a criar e já estou gastando os ovos!

Desisti. Outra amiga, Clô, gostava de fazer bolos. Sonhamos com uma grande empresa de bolos de aniversário e casamento. Já me vi enfurnado em um escritório com cheiro de pão-de-ló, bacias de glacê, barris de baba-de-moça e chocolate. Que paraíso para um guloso! Resolvemos fazer uma demonstração, para atrair clientes. Doamos um bolo para o aniversário de uma amiga. Veio magnífico. Colocaram na mesa. Duas velas em cima. As velas começaram a escorregar. Desciam bem devagar. O bolo estava inclinado.

– Sopre depressa, senão vai pôr fogo na mesa! – gritou o marido da aniversariante.

Foi um deus-nos-acuda. Era o defeito. Clô faz ótimos bolos. Todos inclinados. Suspirei:

– Bem, pelo menos ela não é engenheira civil... Se fosse uma ponte, seria bem pior!

Fomos à falêncuma ponte, seria bem pior!

Fomos à falência antes de começar. Recentemente, fui visitar um amigo. A fazenda do sogro estava coalhada de gansos. Pretendia criá-los para produzir foie gras. Criaram amor pelos gansos. Jamais vendeu um fígado. Preferiram deixar as aves morrer de velhas. Não conseguem dormir com tantos grasnidos. Outro tentou criar rãs. Enfiou os batráquios em um buraco. A maioria fugiu. Houve uma época em que vários pais de amigos encheram os quintais com caixotinhos para criar caramujos – que seriam vendidos sob o pomposo nome de escargots. Passavam o dia pacientemente dando alface aos ditos-cujos e observando a futura fonte de lucros rastejar na madeira. A maioria desistiu ao descobrir que os lucros eram mais lentos que o passeio dos caramujos. Recentemente, ouvi falar de cogumelos shiitake.

– Dá para produzir na chácara. O lucro é fantástico! – garantiu um futuro sócio.

Fomos verificar. As promessas eram muitas. Era preciso fazer um curso. Verifiquei o preço do curso, das matrizes, do adubo especial. Proporcionalmente, o lucro por cogumelo era gigantesco. Seria preciso produzir 1 tonelada. Muito acima das modestas condições de minha chácara. Concluí:

– Sem dúvida, dá um bom dinheiro. Mas para quem inventou o curso!

         
     
 
 
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