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5 de junho de 2002
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Luxo sem grife

Entre camelôs e muita bugiganga,
a Rua 25 de Março
esconde produtos
de primeira, que atraem decoradores
famosos, donos de lojas em shoppings
e estrelas da gastronomia

Valéria França

Fotos Leo Feltran
Mais de 400 000 pessoas passam diariamente pela 25: ofertas para todo tipo de comprador


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Roteiro esperto

Fazer compras nas redondezas da Rua 25 de Março é uma aventura. A região é barulhenta, tem trânsito caótico e as calçadas, estreitas demais, abrigam cerca de 1.500 camelôs. Diariamente, passam por lá 400.000 pessoas, o suficiente para lotar cinco estádios do Morumbi. Mas, por incrível que pareça, vale a pena encarar a turba. E quem dá essa garantia são alguns dos mais badalados e caros profissionais da decoração, da moda e dos enfeites, que enfrentam regularmente os percalços do lugar para comprar – barato – artigos originais para suas produções. Ali há muito mais que confusão e bugigangas. Entre as 3.000 lojas, não são poucos os achados que fazem a festa desses consumidores mais exigentes. À procura de preço baixo e mercadoria boa, o decorador João Armentano, a empresária Traudi Guida, da rede de moda feminina Le Lis Blanc, e a jovem doceira Isabella Suplicy costumam usar a 25 como grande fonte de matéria-prima. "O lugar é perfeito quando o cliente não quer gastar muito", explica Sig Bergamin, outro medalhão do mundo da decoração. No ano passado, ele chegou a montar uma pousada em Trancoso só com produtos comprados nessa área. Não existe outra parte da cidade com um comércio tão rico em variedade. Há desde grandes armarinhos até importadores de cristais. "Toda metrópole precisa de um grande mercado", diz o estilista Reinaldo Lourenço. "São Paulo tem a 25, que é um luxo!"


João Armentano,
arquiteto e decorador
"Aqui não há o conforto nem o glamour dos Jardins, mas sim uma variedade de mercadorias que estimula a criatividade. Um plástico, por exemplo, pode virar uma cortina que ninguém tem igual"

A região começou a se desenvolver como área comercial com a chegada dos primeiros imigrantes árabes à Rua Florêncio de Abreu, no início do século passado. Chamada de Rua de Baixo ou Baixa de São Bento, a 25 separava a cidade alta da várzea. Seu traçado original margeava o Rio Tamanduateí, pelo qual eram trazidas as mercadorias. Não foi por outro motivo que uma de suas vias de acesso recebeu o nome de Ladeira Porto Geral. No fim da Revolução de 1930, estabeleceu-se como um grande centro de atacado de tecidos, vestuário e armarinhos. Com o passar dos anos, os negócios foram se diversificando até chegarem os produtos chineses, coreanos e paraguaios. Em 2001, com a moda oriental em alta, surgiram casas especializadas em artigos indianos e tailandeses. "Recebemos os lançamentos de todas as partes do mundo", diz Mariana Laskani, presidente da União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências, a Univinco.


Sig Bergamin,
arquiteto e decorador
"É preciso ter olho afiado, porque ninguém dá assessoria. Você tem de se virar. O preço e a qualidade compensam. Ao economizar no tecido, sobra mais para investir nos móveis "

Os clientes sentem-se como se estivessem num labirinto. As lojas ficam espremidas pelas barracas dos marreteiros e encobertas por placas e cartazes. É difícil ter a exata noção do endereço em que se está entrando. Para aumentar a confusão, a decoração das casas é muito parecida. As paredes são brancas, o chão é de ladrilho e a iluminação, fria como a dos escritórios. Exposta em prateleiras, a mercadoria está sempre à mão do consumidor. O cliente pega o que quer e paga direto no caixa. As lojas se multiplicam também na vertical. No número 641 da 25 de Março, por exemplo, um prédio de dez andares abriga mais de sessenta negócios: do 1º ao 5º andar, bijuterias; do 6º ao 9º, artesanato peruano; e, no 10º, prata. "Mesmo conhecendo os pontos certos, não deixo de garimpar novas oportunidades", diz Traudi Guida, da Le Lis Blanc, que compra passamanarias e botões para as roupas de sua grife. "Já levei tecidos de algodão da loja Cassia Nahas para fazer almofadas em casa."


Tania Bulhões,
dona de loja de decoração
"A maioria das minhas peças são exclusivas. Procuro sempre materiais diferentes. Compro castanhas de cristal geralmente usadas em lustres para aplicar em almofadas como pingentes"

Entrar em cada porta, enveredar por corredores e vasculhar prateleiras é a melhor forma de comprar. "Para isso, é importante saber o que se procura", alerta o designer Marcelo Martinez, da Acessórios Modernos, que está sempre de olho nas novidades em pedrarias, strass e o que mais pode ser usado na montagem de uma bijuteria. É seu sócio, Francisco Franco, no entanto, quem se encarrega das compras. "Andar por lá não é exatamente como passear em um shopping, onde há até mapa de localização", diz Martinez. Um dos fornecedores preferidos da dupla é a Laskani Importadora Ltda. Entre seus 11.000 itens, destacam-se miçangas, vidrilhos, canutilhos, strass e pedras de cristais checos e austríacos. "Agora, a roupa é cheia de bordados e aplicações", observa o gerente João Perricce. "Hoje vendemos muito às grandes confecções." Outro que costuma comprar ali é o estilista de noivas Ronaldo Esper. Na mesma linha de produtos, a Janello é uma fonte de novidades. "Tem uma gama de cores irresistíveis, que já impressiona logo na entrada", afirma a designer Serpui Marie, dona da marca de acessórios que leva seu nome. "Boa parte de meu material de base eu compro lá." Suas bolsas de couro, palha ou mesmo de tecido são trabalhadas com fitas e strass.


Isabella Suplicy,
doceira
"Não sou de ficar batendo perna. Vou sempre aos mesmos lugares. Como os vendedores me conhecem, às vezes encomendo por telefone fitas e tecidos para bandejas e forminhas"

O grande volume de vendas e a dificuldade de ampliar as instalações (é praticamente impossível topar com um imóvel vizinho vago) fazem com que esses pequenos empresários possuam vários endereços na mesma rua. Assim, também evitam a instalação de mais concorrentes. A Armarinhos Fernando, uma espécie de babilônia comercial com 90.000 produtos, tem três, o maior com 2.800 metros quadrados de área. Doces, brinquedos, roupas e artigos para casa em geral ficam dispostos em gôndolas. Na entrada, 23 caixas registradoras fecham a conta dos 4.000 compradores diários. O decorador João Armentano é um deles. Apesar do nome famoso, recebe tratamento seco, assim como as sacoleiras que vêm do interior. "Não faço questão do ar condicionado nem dos agrados dos vendedores dos Jardins", diz o decorador. O português Fernando dos Santos Esquerdo, dono da Armarinhos Fernando, personifica o sucesso da 25 de Março. Esquerdo chegou ao Brasil em 1954, aos 14 anos, e começou a trabalhar como faxineiro em um armarinho da 25. Depois de 22 anos, abriu a própria loja. Em 1996, já com suas cinco filiais, o ex-faxineiro – mesmo sem ser nenhuma Parmalat – virou patrocinador da equipe de futebol da Portuguesa e estampou o nome de sua empresa na camisa oficial do time.


Traudi Guida,
sócia da rede Le Lis Blanc de moda feminina
"É preciso ter paciência para achar pérolas no meio das tranqueiras. Sempre encontro passamanarias e botões maravilhosos"

A estrutura de supermercado repete-se nas concorrentes, como Matsumoto e Koraicho. As duas lojas vendem de tudo um pouco, mas são as fitas decoradas que fazem mais sucesso. Elas costumam enfeitar as bandejas e as lembrancinhas feitas por uma das doceiras mais requisitadas da sociedade paulistana, Isabella Suplicy. "Como eles já me conhecem, faço as encomendas por telefone", diz ela, que também compra tecidos para fazer forminhas de doce que imitam flores. A poucos metros da Koraicho, na Rua da Cantareira, há várias casas de materiais para festa. Guardanapos coloridos, papel para balas de coco, bandejas e forminhas são comercializados em formatos e cores variados.


Serpui Marie,
dona de loja de acessórios
"Meu forte são as bolsas e as bijuterias que desenho. O material de base para montá-las vem da 25. Há muita oferta de fitas, paetês coloridos e strass"

Algumas marcas com unidades em bairros e shoppings também estão presentes na 25. Na Casa Fortaleza, por exemplo, tecidos e tapetes são oferecidos em promoções melhores que as de outros endereços. O metro do voile estava sendo vendido na semana passada a 4,90 reais. Nas outras filiais, custava quase o dobro do preço. A Camicado, ali, trabalha com outra linha de produtos. Em vez dos presentes de casamento, oferece utilidades domésticas, artigos de papelaria e até armarinhos. A maioria dos comerciantes dessa parte do centro velho vende por atacado. Isso significa preços até 10% mais baixos para quem gasta acima de 300 reais. Boa parte também parcela o pagamento. "A vantagem é ainda maior quando se acha um lugar com materiais diferentes do que se vê por aí", afirma Armentano. "Aqui consigo montar peças exclusivas." A decoradora e arquiteta Tania Bulhões, dona de uma loja na Gabriel Monteiro da Silva, tem a mesma preocupação. Tanto que acabou inventando moda. No lugar de pingentes, as almofadas que faz ganham castanhas de cristal, geralmente usadas em lustres, compradas na Mariana Laskani. "É um cristal lindo", diz Tania. "Além disso, está em alta e dá energias positivas."


Marcelo Martinez,
sócio da Acessórios Modernos
"É importante ir para lá sabendo o que se quer. Vou direto às lojas de cristais para pesquisar os últimos lançamentos. Vejo o material e imagino a bijuteria"
         
     
 
 
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