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CONSUMO
Luxo
sem grife
Entre
camelôs e muita bugiganga,
a Rua 25 de Março esconde
produtos
de primeira, que atraem decoradores
famosos, donos de lojas em shoppings
e estrelas da gastronomia
Valéria
França
Fotos Leo Feltran
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de 400 000 pessoas passam diariamente pela 25: ofertas para
todo tipo de comprador |
Fazer
compras nas redondezas da Rua 25 de Março é uma aventura.
A região é barulhenta, tem trânsito caótico
e as calçadas, estreitas demais, abrigam cerca de 1.500
camelôs. Diariamente, passam por lá 400.000
pessoas, o suficiente para lotar cinco estádios do Morumbi.
Mas, por incrível que pareça, vale a pena encarar
a turba. E quem dá essa garantia são alguns dos mais
badalados e caros profissionais da decoração, da moda
e dos enfeites, que enfrentam regularmente os percalços do
lugar para comprar barato artigos originais para suas
produções. Ali há muito mais que confusão
e bugigangas. Entre as 3.000 lojas, não
são poucos os achados que fazem a festa desses consumidores
mais exigentes. À procura de preço baixo e mercadoria
boa, o decorador João Armentano, a empresária Traudi
Guida, da rede de moda feminina Le Lis Blanc, e a jovem doceira
Isabella Suplicy costumam usar a 25 como grande fonte de matéria-prima.
"O lugar é perfeito quando o cliente não quer gastar
muito", explica Sig Bergamin, outro medalhão do mundo da
decoração. No ano passado, ele chegou a montar uma
pousada em Trancoso só com produtos comprados nessa área.
Não existe outra parte da cidade com um comércio tão
rico em variedade. Há desde grandes armarinhos até
importadores de cristais. "Toda metrópole precisa de um grande
mercado", diz o estilista Reinaldo Lourenço. "São
Paulo tem a 25, que é um luxo!"
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João
Armentano,
arquiteto e decorador
"Aqui não há o conforto nem o glamour dos
Jardins, mas sim uma variedade de mercadorias que estimula a
criatividade. Um plástico, por exemplo, pode virar uma
cortina que ninguém tem igual" |
A região
começou a se desenvolver como área comercial com a
chegada dos primeiros imigrantes árabes à Rua Florêncio
de Abreu, no início do século passado. Chamada de
Rua de Baixo ou Baixa de São Bento, a 25 separava a cidade
alta da várzea. Seu traçado original margeava o Rio
Tamanduateí, pelo qual eram trazidas as mercadorias. Não
foi por outro motivo que uma de suas vias de acesso recebeu o nome
de Ladeira Porto Geral. No fim da Revolução de 1930,
estabeleceu-se como um grande centro de atacado de tecidos, vestuário
e armarinhos. Com o passar dos anos, os negócios foram se
diversificando até chegarem os produtos chineses, coreanos
e paraguaios. Em 2001, com a moda oriental em alta, surgiram casas
especializadas em artigos indianos e tailandeses. "Recebemos os
lançamentos de todas as partes do mundo", diz Mariana Laskani,
presidente da União dos Lojistas da Rua 25 de Março
e Adjacências, a Univinco.
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Sig
Bergamin,
arquiteto e decorador
"É preciso ter olho afiado, porque ninguém
dá assessoria. Você tem de se virar. O preço
e a qualidade compensam. Ao economizar no tecido, sobra mais
para investir nos móveis " |
Os
clientes sentem-se como se estivessem num labirinto. As lojas ficam
espremidas pelas barracas dos marreteiros e encobertas por placas
e cartazes. É difícil ter a exata noção
do endereço em que se está entrando. Para aumentar
a confusão, a decoração das casas é
muito parecida. As paredes são brancas, o chão é
de ladrilho e a iluminação, fria como a dos escritórios.
Exposta em prateleiras, a mercadoria está sempre à
mão do consumidor. O cliente pega o que quer e paga direto
no caixa. As lojas se multiplicam também na vertical. No
número 641 da 25 de Março, por exemplo, um prédio
de dez andares abriga mais de sessenta negócios: do 1º
ao 5º andar, bijuterias; do 6º ao 9º, artesanato
peruano; e, no 10º, prata. "Mesmo conhecendo os pontos certos,
não deixo de garimpar novas oportunidades", diz Traudi Guida,
da Le Lis Blanc, que compra passamanarias e botões para as
roupas de sua grife. "Já levei tecidos de algodão
da loja Cassia Nahas para fazer almofadas em casa."
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Tania
Bulhões,
dona de loja de decoração
"A maioria das minhas peças são exclusivas.
Procuro sempre materiais diferentes. Compro castanhas de cristal
geralmente usadas em lustres para aplicar em almofadas como
pingentes"
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Entrar
em cada porta, enveredar por corredores e vasculhar prateleiras
é a melhor forma de comprar. "Para isso, é importante
saber o que se procura", alerta o designer Marcelo Martinez, da
Acessórios Modernos, que está sempre de olho nas novidades
em pedrarias, strass e o que mais pode ser usado na montagem de
uma bijuteria. É seu sócio, Francisco Franco, no entanto,
quem se encarrega das compras. "Andar por lá não é
exatamente como passear em um shopping, onde há até
mapa de localização", diz Martinez. Um dos fornecedores
preferidos da dupla é a Laskani Importadora Ltda. Entre seus
11.000 itens, destacam-se miçangas,
vidrilhos, canutilhos, strass e pedras de cristais checos e austríacos.
"Agora, a roupa é cheia de bordados e aplicações",
observa o gerente João Perricce. "Hoje vendemos muito às
grandes confecções." Outro que costuma comprar ali
é o estilista de noivas Ronaldo Esper. Na mesma linha de
produtos, a Janello é uma fonte de novidades. "Tem uma gama
de cores irresistíveis, que já impressiona logo na
entrada", afirma a designer Serpui Marie, dona da marca de acessórios
que leva seu nome. "Boa parte de meu material de base eu compro
lá." Suas bolsas de couro, palha ou mesmo de tecido são
trabalhadas com fitas e strass.
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Isabella
Suplicy,
doceira
"Não sou de ficar batendo perna. Vou sempre aos
mesmos lugares. Como os vendedores me conhecem, às vezes
encomendo por telefone fitas e tecidos para bandejas e forminhas"
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O grande
volume de vendas e a dificuldade de ampliar as instalações
(é praticamente impossível topar com um imóvel
vizinho vago) fazem com que esses pequenos empresários possuam
vários endereços na mesma rua. Assim, também
evitam a instalação de mais concorrentes. A Armarinhos
Fernando, uma espécie de babilônia comercial com 90.000
produtos, tem três, o maior com 2.800
metros quadrados de área. Doces, brinquedos, roupas e artigos
para casa em geral ficam dispostos em gôndolas. Na entrada,
23 caixas registradoras fecham a conta dos 4.000
compradores diários. O decorador João Armentano é
um deles. Apesar do nome famoso, recebe tratamento seco, assim como
as sacoleiras que vêm do interior. "Não faço
questão do ar condicionado nem dos agrados dos vendedores
dos Jardins", diz o decorador. O português Fernando dos Santos
Esquerdo, dono da Armarinhos Fernando, personifica o sucesso da
25 de Março. Esquerdo chegou ao Brasil em 1954, aos 14 anos,
e começou a trabalhar como faxineiro em um armarinho da 25.
Depois de 22 anos, abriu a própria loja. Em 1996, já
com suas cinco filiais, o ex-faxineiro mesmo sem ser nenhuma
Parmalat virou patrocinador da equipe de futebol da Portuguesa
e estampou o nome de sua empresa na camisa oficial do time.
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Traudi
Guida,
sócia da rede Le Lis Blanc de moda feminina
"É preciso ter paciência para achar pérolas
no meio das tranqueiras. Sempre encontro passamanarias e botões
maravilhosos" |
A estrutura
de supermercado repete-se nas concorrentes, como Matsumoto e Koraicho.
As duas lojas vendem de tudo um pouco, mas são as fitas decoradas
que fazem mais sucesso. Elas costumam enfeitar as bandejas e as
lembrancinhas feitas por uma das doceiras mais requisitadas da sociedade
paulistana, Isabella Suplicy. "Como eles já me conhecem,
faço as encomendas por telefone", diz ela, que também
compra tecidos para fazer forminhas de doce que imitam flores. A
poucos metros da Koraicho, na Rua da Cantareira, há várias
casas de materiais para festa. Guardanapos coloridos, papel para
balas de coco, bandejas e forminhas são comercializados em
formatos e cores variados.
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Serpui
Marie,
dona de loja de acessórios
"Meu forte são as bolsas e as bijuterias que desenho.
O material de base para montá-las vem da 25. Há
muita oferta de fitas, paetês coloridos e strass"
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Algumas
marcas com unidades em bairros e shoppings também estão
presentes na 25. Na Casa Fortaleza, por exemplo, tecidos e tapetes
são oferecidos em promoções melhores que as
de outros endereços. O metro do voile estava sendo
vendido na semana passada a 4,90 reais. Nas outras filiais, custava
quase o dobro do preço. A Camicado, ali, trabalha com outra
linha de produtos. Em vez dos presentes de casamento, oferece utilidades
domésticas, artigos de papelaria e até armarinhos.
A maioria dos comerciantes dessa parte do centro velho vende por
atacado. Isso significa preços até 10% mais baixos
para quem gasta acima de 300 reais. Boa parte também parcela
o pagamento. "A vantagem é ainda maior quando se acha um
lugar com materiais diferentes do que se vê por aí",
afirma Armentano. "Aqui consigo montar peças exclusivas."
A decoradora e arquiteta Tania Bulhões, dona de uma loja
na Gabriel Monteiro da Silva, tem a mesma preocupação.
Tanto que acabou inventando moda. No lugar de pingentes, as almofadas
que faz ganham castanhas de cristal, geralmente usadas em lustres,
compradas na Mariana Laskani. "É um cristal lindo", diz Tania.
"Além disso, está em alta e dá energias positivas."
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Marcelo
Martinez,
sócio da Acessórios Modernos
"É importante ir para lá sabendo o que
se quer. Vou direto às lojas de cristais para pesquisar
os últimos lançamentos. Vejo o material e imagino
a bijuteria"
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