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5 de março de 2003
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COMPORTAMENTO

Uma galera que vai à luta

Eles reciclam o lixo, abominam carne,
boicotam os tênis de grife e, mesmo
sob sol forte, são capazes de passar
horas manifestando-se a favor da paz

Erika Sallum

Fotos Heudes Regis
"Decidi ser uma pessoa mais consciente. Sou um no meio de 6 bilhões e tenho de fazer minha parte. Em casa, separamos o lixo. Reciclar é fundamental para o futuro do planeta."
Ariel Szlejf,
estudante, 23 anos
(ao lado da mãe, Haydée, e da irmã Andrea)


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Há duas semanas, numa ensolarada tarde de sábado, a estudante Bruna Angotti, de 21 anos, não foi à praia, ao shopping, ao cinema nem ao barzinho curtir o verão com os amigos. Preferiu percorrer as ruas da cidade com um cartaz pedindo paz no mundo, ao lado de outras 8.000 pessoas que se reuniram numa manifestação no Parque do Ibirapuera contra a guerra do Iraque. Nas férias de janeiro, passou seis dias acampada em Porto Alegre para participar do Fórum Social Mundial. Além do calor infernal dentro da barraca, onde era impossível dormir depois das 6 da manhã, Bruna enfrentou bem-humorada filas quilométricas para comer e usar os poucos banheiros que havia por lá. O que seria um programa micadíssimo para a imensa maioria dos jovens foi encarado por Bruna como um dos melhores momentos de sua vida. "Amei. Pude conhecer pessoas de vários tipos", diz ela, que gritou por justiça social ao lado dos defensores da língua esperanto e das idosas lésbicas do Alabama.

Dona de belos olhos verdes e personalidade forte, Bruna faz parte de um grupo muito especial de paulistanos. Ainda que composta dos chamados ecochatos, malas e extremistas, essa galera engajada vai à luta e batalha pelo que acredita – seja em favor do meio ambiente, dos direitos dos animais ou contra a fome no planeta. "Quem costuma me rotular são os preconceituosos e ultrapassados. Se eu salvar uma única vaca durante minha vida toda, já estou feliz", garante Bruna. "Esses jovens têm uma visão mais apurada da vida", afirma o psiquiatra Içami Tiba, especialista em adolescentes. "Normalmente vêm da classe média, com pais que lhe deram condições financeiras para lutar por suas idéias, e acreditam de verdade que podem mudar o mundo."

Heudes Regis
"Não bebo, não fumo, não uso drogas e não como bicho morto. Sigo o princípio da não-agressividade. Isso não quer dizer que eu seja passiva. Pelo contrário: sou um ser pacífico."
Fernanda Britto,
instrutora de ioga, 29 anos

A fisioterapeuta Fanny de Oliveira, de 23 anos, decidiu abolir qualquer tipo de carne de sua dieta quando ainda era adolescente. "Fui a uma granja e vi uma placa que dizia 'frango matado na hora'", lembra. "Achei aquilo um absurdo. Podemos muito bem sobreviver sem assassinar bois e galinhas." Além de mudar o cardápio, ela parou de usar produtos que fazem testes em animais e deixou de ir a zoológicos, circos ou eventos que tenham participação de bichos. Com essa ideologia toda, acabou se aproximando do straight edge, um movimento que existe na capital desde a década de 80 (reúne punks vegetarianos que não comem nenhum tipo de derivado de animal, os chamados vegans – pronuncia-se vígans). Na companhia deles, Fanny freqüentava shows de bandas hardcore e verduradas, que em geral terminam com um jantar não exatamente gastronômico, à base de receitas de soja e grãos, acompanhadas de sucos.

Heudes Regis
"Não entro no McDonald's há quase dez anos. Além de vender carne, é uma multinacional que não contribui em nada para o crescimento do Brasil. Também não compro tênis da Nike, que paga uma miséria a seus funcionários. Prefiro usar sandálias."
Fanny de Oliveira,
fisioterapeuta, 23 anos

Hoje Fanny não é mais straight edge, mas continua seguindo várias doutrinas do grupo, que celebra o Dia Mundial Anti-McDonald's em 16 de outubro. "Quase tudo o que essa rede produz leva gordura animal", queixa-se. "O boicote é a melhor maneira de lutar." Por motivos mais ou menos semelhantes, ela não calça tênis Nike e é contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). "Não concordo com nenhuma forma de exploração. Deixo de usar uma marca de batom se souber que ela utiliza coelhos nos laboratórios."

Nem sempre defender tais coisas é tarefa fácil. Toda vez que vai ao supermercado, a bióloga Renata Sanches, de 28 anos, discute com os seguranças para que não lacrem sua sacola de pano, que carrega nas compras para evitar desperdícios com saquinhos plásticos. "As pessoas não entendem, acham que sou louca", diz. Renata é daquele tipo que não come palmito para não destruir a Mata Atlântica e, numa loja de roupa, pede para a vendedora usar a menor quantidade possível de embalagens. "Quando vamos a uma lanchonete, Renata chega a recusar o canudinho de plástico que vem no suco", conta o amigo e músico Ricardo Filgueiras. "Ela põe as idéias em prática, enquanto a maioria das pessoas fica só na teoria."

Heudes Regis
"As pessoas vivem me dizendo que não adianta nada ser vegetariana. Se eu conseguir salvar uma única vaca durante toda a minha vida, já estou feliz."
Bruna Angotti,
estudante, 21 anos

Mais radicais, os amigos e membros do Greenpeace Letícia de Camargo, 22 anos, Eduardo Santaela, 21, e Fabio Schunck Pires, 24, assumem riscos para defender suas bandeiras. Recentemente, invadiram o centro de distribuição de uma fábrica de salsichas e penduraram nos caminhões placas de "Cuidado! Pode conter transgênicos". Para impedir que uma carga de lixo nuclear fosse transportada irregularmente, o biólogo Fabio acorrentou-se a um portão. Em janeiro, Letícia foi à porta da petroquímica Dow Química exigir tratamento para as vítimas de um vazamento de gás da Union Carbide, nos anos 80. "A Dow incorporou a Union Carbide, que deixou na mão muitos dos indianos prejudicados pelo acidente", diz ela, aluna de ciências sociais na PUC. Filiado ao Greenpeace há sete meses, Eduardo, estudante de publicidade, acredita que mesmo nas pequenas tarefas do dia-a-dia é preciso ser engajado: "Significa fechar a torneira, andar menos de carro, consumir pouco. Enfim, abrir mão de certo conforto em nome da natureza".

Heudes Regis
"Não posso ver um bichinho abandonado na rua que levo para casa. Tenho furão, chinchila, hamster e até sagüi. Meus vizinhos reclamam, mas não tem jeito. Faço tudo para ajudar um animal."
Ana Carolina Ribeiro,
professora,
19 anos (ao lado do namorado, Regis)

Disposto a ser mais consciente, o estudante Ariel Szlejf, de 23 anos, surpreendeu a família ao comunicar que decidira praticar ioga, virar vegetariano e parar de beber. Habituado a chegar em casa de madrugada, depois de tomar alguns drinques, ele não come carne nem toma nada com álcool faz três meses. "A ioga transformou minha vida", afirma. "Com ela, aprendi a ter mais noção do meu corpo e do mundo." Entre suas novas resoluções, está a de reciclar o lixo que produz. Convenceu a mãe e a irmã a comprar recipientes coloridos e etiquetou-os com as palavras plástico, vidro, papel e metal. "Os recursos naturais estão acabando", diz ele. "Se cada um não fizer sua parte, a situação ficará insustentável." Sua mãe, Haydée, adorou as mudanças. "Quem não gostaria de saber que o filho parou de beber?", comemora.

As famílias do casal de professores de inglês Ana Carolina Ribeiro e Regis Abud Filho não encararam tão bem as transformações dos filhos. Há dois anos, eles tornaram-se vegetarianos, abstêmios e praticantes de ioga. "Fiquei muito preocupada com sua saúde, achando que ela iria ficar fraca", explica a assistente social Maria Diva da Veiga, mãe de Carol. "Tive de reaprender a cozinhar e mudar meus hábitos alimentares para ajudá-la." Hoje, Maria Diva, que também está começando a se tornar vegetariana, coleciona mais de 150 receitas sem carne. Quando pode, prepara almoços com muito arroz integral para os amigos da filha. Os pais de Regis, no entanto, até agora não aprovaram muito suas opções, entre elas a de pegar bichinhos abandonados nas ruas, uma mania do casal que ganhou força depois que eles mudaram de vida. "As pessoas largam seus animais de estimação como se fossem objetos", revolta-se Regis, de 20 anos. "É uma monstruosidade, tanto quanto deixar uma criança na rua." Em seu apartamento de dois quartos no bairro da Pompéia, eles criam dois cachorros, três gatos, três furões, dois hamsters, um sagüi e uma chinchila – alguns deles pegos na rua ou doados por pessoas que não os queriam mais.

Heudes Regis
"Pode me chamar de ecochata, não tô nem aí. Implico mesmo se vejo alguém usando canudinho de plástico. As pessoas podem muito bem beber direto do copo e ajudar a preservar a natureza."
Renata Sanches,
bióloga, 28 anos

Carol e Regis são alunos de Fernanda Britto, uma bonita paulistana de 29 anos que largou a carreira de assistente de direção no cinema para se dedicar inteiramente à ioga. Dona de duas unidades da Universidade de Yôga, do Mestre DeRose, Fernanda afirma que há quatro anos parou de se intoxicar. "Não beber, não me drogar e não comer carne fez com que eu me sentisse mais poderosa e com necessidade de ajudar os outros." Ela está criando uma ONG para levar a comunidades carentes da cidade palestras sobre os benefícios da ioga e do vegetarianismo. No último dia 15, reuniu um grupo de alunos no Parque do Ibirapuera para protestar contra Bush e a guerra no Iraque. "Minha filosofia de vida é cultivar a paz interior e exterior", orgulha-se. "Não mato, não agrido, não como bicho morto. Isso é ser pacífico, não passivo."

         
     
 
 
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