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COMPORTAMENTO
Uma
galera que vai à luta
Eles
reciclam o lixo, abominam carne,
boicotam os tênis de grife e, mesmo
sob sol forte, são capazes de passar
horas manifestando-se a favor da paz
Erika
Sallum
Fotos Heudes Regis
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"Decidi
ser uma pessoa mais consciente. Sou um no meio de 6 bilhões
e tenho de fazer minha parte. Em casa, separamos o lixo. Reciclar
é fundamental para o futuro do planeta."
Ariel Szlejf, estudante, 23 anos
(ao lado da mãe, Haydée, e da irmã Andrea)
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Há
duas semanas, numa ensolarada tarde de sábado, a estudante
Bruna Angotti, de 21 anos, não foi à praia, ao shopping,
ao cinema nem ao barzinho curtir o verão com os amigos. Preferiu
percorrer as ruas da cidade com um cartaz pedindo paz no mundo,
ao lado de outras 8.000 pessoas que se
reuniram numa manifestação no Parque do Ibirapuera
contra a guerra do Iraque. Nas férias de janeiro, passou
seis dias acampada em Porto Alegre para participar do Fórum
Social Mundial. Além do calor infernal dentro da barraca,
onde era impossível dormir depois das 6 da manhã,
Bruna enfrentou bem-humorada filas quilométricas para comer
e usar os poucos banheiros que havia por lá. O que seria
um programa micadíssimo para a imensa maioria dos jovens
foi encarado por Bruna como um dos melhores momentos de sua vida.
"Amei.
Pude conhecer pessoas de vários tipos", diz ela, que gritou
por justiça social ao lado dos defensores da língua
esperanto e das idosas lésbicas do Alabama.
Dona
de belos olhos verdes e personalidade forte, Bruna faz parte de
um grupo muito especial de paulistanos. Ainda que composta dos chamados
ecochatos, malas e extremistas, essa galera engajada vai à
luta e batalha pelo que acredita seja em favor do meio ambiente,
dos direitos dos animais ou contra a fome no planeta. "Quem costuma
me rotular são os preconceituosos e ultrapassados. Se eu
salvar uma única vaca durante minha vida toda, já
estou feliz", garante Bruna. "Esses jovens têm uma visão
mais apurada da vida", afirma o psiquiatra Içami Tiba, especialista
em adolescentes. "Normalmente vêm da classe média,
com pais que lhe deram condições financeiras para
lutar por suas idéias, e acreditam de verdade que podem mudar
o mundo."
Heudes Regis
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"Não
bebo, não fumo, não uso drogas e não como bicho morto. Sigo
o princípio da não-agressividade. Isso não quer dizer que eu
seja passiva. Pelo contrário: sou um ser pacífico."
Fernanda Britto, instrutora de ioga, 29 anos |
A fisioterapeuta
Fanny de Oliveira, de 23 anos, decidiu abolir qualquer tipo de carne
de sua dieta quando ainda era adolescente. "Fui a uma granja e vi
uma placa que dizia 'frango matado na hora'", lembra. "Achei aquilo
um absurdo. Podemos muito bem sobreviver sem assassinar bois e galinhas."
Além de mudar o cardápio, ela parou de usar produtos
que fazem testes em animais e deixou de ir a zoológicos,
circos ou eventos que tenham participação de bichos.
Com essa ideologia toda, acabou se aproximando do straight edge,
um movimento que existe na capital desde a década de 80 (reúne
punks vegetarianos que não comem nenhum tipo de derivado
de animal, os chamados vegans pronuncia-se vígans). Na
companhia deles, Fanny freqüentava shows de bandas hardcore
e verduradas, que em geral terminam com um jantar não exatamente
gastronômico, à base de receitas de soja e grãos,
acompanhadas de sucos.
Heudes Regis
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"Não
entro no McDonald's há quase dez anos. Além de vender carne,
é uma multinacional que não contribui em nada para o crescimento
do Brasil. Também não compro tênis da Nike, que paga uma miséria
a seus funcionários. Prefiro usar sandálias."
Fanny de Oliveira, fisioterapeuta, 23 anos |
Hoje
Fanny não é mais straight edge, mas continua seguindo
várias doutrinas do grupo, que celebra o Dia Mundial Anti-McDonald's
em 16 de outubro. "Quase tudo o que essa rede produz leva gordura
animal", queixa-se. "O boicote é a melhor maneira de lutar."
Por motivos mais ou menos semelhantes, ela não calça
tênis Nike e é contra a Área de Livre Comércio
das Américas (Alca). "Não concordo com nenhuma forma
de exploração. Deixo de usar uma marca de batom se
souber que ela utiliza coelhos nos laboratórios."
Nem
sempre defender tais coisas é tarefa fácil. Toda vez
que vai ao supermercado, a bióloga Renata Sanches, de 28
anos, discute com os seguranças para que não lacrem
sua sacola de pano, que carrega nas compras para evitar desperdícios
com saquinhos plásticos. "As pessoas não entendem,
acham que sou louca", diz. Renata é daquele tipo que não
come palmito para não destruir a Mata Atlântica e,
numa loja de roupa, pede para a vendedora usar a menor quantidade
possível de embalagens. "Quando vamos a uma lanchonete, Renata
chega a recusar o canudinho de plástico que vem no suco",
conta o amigo e músico Ricardo Filgueiras. "Ela põe
as idéias em prática, enquanto a maioria das pessoas
fica só na teoria."
Heudes Regis
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"As
pessoas vivem me dizendo que não adianta nada ser vegetariana.
Se eu conseguir salvar uma única vaca durante toda a minha vida,
já estou feliz."
Bruna Angotti, estudante, 21 anos |
Mais
radicais, os amigos e membros do Greenpeace Letícia de Camargo,
22 anos, Eduardo Santaela, 21, e Fabio Schunck Pires, 24, assumem
riscos para defender suas bandeiras. Recentemente, invadiram o centro
de distribuição de uma fábrica de salsichas
e penduraram nos caminhões placas de "Cuidado! Pode conter
transgênicos". Para impedir que uma carga de lixo nuclear
fosse transportada irregularmente, o biólogo Fabio acorrentou-se
a um portão. Em janeiro, Letícia foi à porta
da petroquímica Dow Química exigir tratamento para
as vítimas de um vazamento de gás da Union Carbide,
nos anos 80. "A Dow incorporou a Union Carbide, que deixou na mão
muitos dos indianos prejudicados pelo acidente", diz ela, aluna
de ciências sociais na PUC. Filiado ao Greenpeace há
sete meses, Eduardo, estudante de publicidade, acredita que mesmo
nas pequenas tarefas do dia-a-dia é preciso ser engajado:
"Significa fechar a torneira, andar menos de carro, consumir pouco.
Enfim, abrir mão de certo conforto em nome da natureza".
Heudes Regis
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"Não
posso ver um bichinho abandonado na rua que levo para casa.
Tenho furão, chinchila, hamster e até sagüi.
Meus vizinhos reclamam, mas não tem jeito. Faço
tudo para ajudar um animal."
Ana Carolina Ribeiro, professora,
19 anos (ao lado do namorado, Regis) |
Disposto
a ser mais consciente, o estudante Ariel Szlejf, de 23 anos, surpreendeu
a família ao comunicar que decidira praticar ioga, virar
vegetariano e parar de beber. Habituado a chegar em casa de madrugada,
depois de tomar alguns drinques, ele não come carne nem toma
nada com álcool faz três meses. "A ioga transformou
minha vida", afirma. "Com ela, aprendi a ter mais noção
do meu corpo e do mundo." Entre suas novas resoluções,
está a de reciclar o lixo que produz. Convenceu a mãe
e a irmã a comprar recipientes coloridos e etiquetou-os com
as palavras plástico, vidro, papel e metal. "Os recursos
naturais estão acabando", diz ele. "Se cada um não
fizer sua parte, a situação ficará insustentável."
Sua mãe, Haydée, adorou as mudanças. "Quem
não gostaria de saber que o filho parou de beber?", comemora.
As
famílias do casal de professores de inglês Ana Carolina
Ribeiro e Regis Abud Filho não encararam tão bem as
transformações dos filhos. Há dois anos, eles
tornaram-se vegetarianos, abstêmios e praticantes de ioga.
"Fiquei muito preocupada com sua saúde, achando que ela iria
ficar fraca", explica a assistente social Maria Diva da Veiga, mãe
de Carol. "Tive de reaprender a cozinhar e mudar meus hábitos
alimentares para ajudá-la." Hoje, Maria Diva, que também
está começando a se tornar vegetariana, coleciona
mais de 150 receitas sem carne. Quando pode, prepara almoços
com muito arroz integral para os amigos da filha. Os pais de Regis,
no entanto, até agora não aprovaram muito suas opções,
entre elas a de pegar bichinhos abandonados nas ruas, uma mania
do casal que ganhou força depois que eles mudaram de vida.
"As pessoas largam seus animais de estimação como
se fossem objetos", revolta-se Regis, de 20 anos. "É uma
monstruosidade, tanto quanto deixar uma criança na rua."
Em seu apartamento de dois quartos no bairro da Pompéia,
eles criam dois cachorros, três gatos, três furões,
dois hamsters, um sagüi e uma chinchila alguns deles pegos
na rua ou doados por pessoas que não os queriam mais.
Heudes Regis
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"Pode
me chamar de ecochata, não tô nem aí. Implico mesmo se vejo
alguém usando canudinho de plástico. As pessoas podem muito
bem beber direto do copo e ajudar a preservar a natureza."
Renata Sanches, bióloga, 28 anos |
Carol
e Regis são alunos de Fernanda Britto, uma bonita paulistana
de 29 anos que largou a carreira de assistente de direção
no cinema para se dedicar inteiramente à ioga. Dona de duas
unidades da Universidade de Yôga, do Mestre DeRose, Fernanda
afirma que há quatro anos parou de se intoxicar. "Não
beber, não me drogar e não comer carne fez com que
eu me sentisse mais poderosa e com necessidade de ajudar os outros."
Ela está criando uma ONG para levar a comunidades carentes
da cidade palestras sobre os benefícios da ioga e do vegetarianismo.
No último dia 15, reuniu um grupo de alunos no Parque do
Ibirapuera para protestar contra Bush e a guerra no Iraque. "Minha
filosofia de vida é cultivar a paz interior e exterior",
orgulha-se. "Não mato, não agrido, não como
bicho morto. Isso é ser pacífico, não passivo."
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