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5 de março de 2003
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AS BOAS COMPRAS
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

BICHOS

Os restaurantes
se rendem aos lulus

Depois de conquistar espaço nos
shoppings, cães
já são aceitos em
74 estabelecimentos da cidade

Marcella Centofanti e Taciana Azevedo

Mario Rodrigues
A modelo Michelly Machri com Fidel, no Porto Luna: para não infringir a lei nem incomodar os clientes, a presença do golden retriever é permitida nas mesas que ficam na calçada



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Restaurantes e bares que aceitam cachorros

"Fidel" fica ouriçado quando sai para passear com a modelo Michelly Machri. "É só eu calçar o tênis que ele já se anima", conta a ex-garota da Sukita. Quase não há fronteiras para o golden retriever, que vai com a dona a hotéis, pousadas, parques, pet shops e mais recentemente... a restaurantes. Uma vez por mês, os dois podem ser vistos no Porto Luna, no Itaim, sempre no horário do almoço. Sentam-se a uma das mesas da calçada, onde a permanência de Fidel é permitida. "Ele deita no meu pé e não dá trabalho", assegura a modelo. Tarcísio Mello, proprietário da casa, aprova a presença do animal. "O ambiente ganha um ar de praça e os clientes ficam mais à vontade." Mello não é o único a consentir que lulus entrem em seu estabelecimento. Dos 470 restaurantes publicados em sistema de rodízio no Roteiro da Semana de Veja São Paulo, 74 aceitam cachorros. Ou seja, um em cada seis. Entre os bares, a proporção é maior: um quinto lhes dá salvo-conduto (48 dos 250). É uma demonstração e tanto do poder da população canina na cidade, estimada em 1,5 milhão de animais. Eles já reinam absolutos em alguns shoppings, como o Higienópolis e o Iguatemi, e agora ganharam uma padaria especializada no Cambuci.

Para não infringir as leis estadual e municipal que proíbem a entrada de bichos em bares e restaurantes, a maior parte das casas tolera a presença deles apenas na calçada ou em ambientes abertos. No Villa Tavola, no Bixiga, os cães ganharam em janeiro um espaço personalizado na área anexa ao restaurante. Ela dispõe de entrada separada, três casinhas, potes com água e ração de primeira. A promotora de eventos Claudia Desimone Fernandes aprovou. Desde que o lugar foi inaugurado, suas pastoras belgas "Kali" e "Laila" foram incluídas nas caminhadas que ela e seu marido fazem nas manhãs de domingo. "Antes não podíamos trazê-las porque não tínhamos onde deixá-las na hora do almoço", afirma. Um dos proprietários do Villa Tavola, Wilson Luiz Pinto – dono de um casal de weimaraner, que ele não leva a restaurantes – acredita estar investindo num promissor nicho de mercado. "Recebemos pelo menos seis animais por semana", calcula. "É uma maneira de as pessoas não deixarem de sair por pena do animal." No restaurante Farfalla, no Jardim Paulista, os cães são bem-vindos mesmo dentro do salão. "Se for pequeno e ficar no colo, não tem problema", diz a proprietária Alice Maria Dutra. "Recebo muitos cachorros, e até agora só houve uma reclamação."

Mario Rodrigues
No Villa Tavola, os cachorros ganharam um espaço próprio, com casinha, água e ração: "É uma maneira de as pessoas não deixarem de sair por pena do animal", diz o proprietário Wilson Pinto

Mas há, evidentemente, um problema. Para muitos paulistanos, principalmente os que não gostam ou têm medo de cachorro, almoçar ou jantar ao lado de um bicho é uma situação constrangedora. "A presença do cão expõe outras pessoas ao stress", aponta a consultora de etiqueta Célia Leão. "Definitivamente, comida não combina com pêlos." Essa saia justa pode crescer no ano que vem, quando deve entrar em vigor uma nova lei municipal. A Vigilância Sanitária discute a possibilidade de autorizar em restaurantes apenas cães que servem de guias para cegos. "Qualquer decisão deveria caber exclusivamente aos comerciantes", acredita a ambientalista Nina Rosa Jacob. "E os donos se responsabilizariam pelo comportamento de seus animais." Antes de levar o bicho de estimação ao restaurante, no entanto, é bom informar-se se ele realmente poderá ir junto. "Há três anos, um cliente trouxe um filhote escondido numa sacola e soltou-o no jardim, ignorando a norma da casa", lembra Carlos Frank, proprietário do Meio Quilo, em Santa Cecília. O resultado foi triste: o cachorro morreu intoxicado pelo veneno espalhado no canteiro das plantas.

 

Polêmica animal

O que dizem as leis municipal e estadual:
é proibida a entrada ou permanência de animais em locais ou estabelecimentos onde se manipulem, beneficiem, preparem, vendam ou fabriquem produtos alimentícios

O que diz a consultora de etiqueta Célia Leão:
"É deselegante, porque nem todo mundo gosta de animais. A presença do cão expõe outras pessoas ao stress. E, definitivamente, comida não combina com pêlos. Melhor deixar o animal em casa"

O que diz a ambientalista Nina Rosa Jacob:
"Proibir é um exagero. A decisão deveria caber aos proprietários de bares e restaurantes, que julgariam se seu estabelecimento tem espaço e ambiente adequados para receber animais. O dono do cachorro, por sua vez, é quem deve julgar se seu animal é calmo o suficiente para circular em público"

O que diz o zootecnista Alexandre Rossi, especialista em comportamento animal:
"Não é dos lugares mais agradáveis para um animal, mas ele estará mais feliz ali, ao lado do dono, do que em casa, sozinho"

 

         
     
 
 
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