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4 de dezembro de 2002
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CIDADE

Zunzunzum no ar

São Paulo ganha seu maior heliporto
privado, enquanto aumentam reclamações
do crescente barulho das aeronaves

Valéria França

 
Fotos Heudes Regis

A pista e o hangar de manutenção do novo Helipark: capacidade para 140 aeronaves

Inventado no início do século passado por um russo naturalizado americano chamado Igor Sikorsky, que se baseou em desenhos do gênio renascentista Leonardo da Vinci, o helicóptero é hoje uma fonte de bons negócios em São Paulo. A qualquer hora do dia, em qualquer lugar, basta erguer os olhos para ver uma dessas geringonças de hélices cruzando os céus. Segundo o Departamento de Aviação Civil, há 424 máquinas circulando na cidade. Cinco anos atrás, eram 250. É a terceira maior frota do mundo, depois da de Nova York e da de Tóquio. O trânsito aéreo cresceu tanto que, no próximo dia 12, será inaugurado o terceiro e maior heliporto particular da metrópole. Trata-se do Helipark, que deve desafogar um pouco os aeroportos de Congonhas, Cumbica e Campo de Marte, nos quais ocorrem 345 operações diárias de helicópteros. Em Congonhas, nas horas de pico, os chamados besouros voadores fazem fila no ar até conseguir permissão para aterrissar, atrapalhando os aviões.

 
Heudes Regis
Regina Velloso, na sala de embarque de seu empreendimento: projeto de decoração de João Armentano

Localizado em Carapicuíba, próximo ao trecho oeste do Rodoanel Mário Covas, o novo empreendimento está em um terreno de 116.000 metros quadrados, o equivalente a catorze campos de futebol. A pista tem nove pontos de estacionamento e uma área de manobra de 11.500 metros quadrados. Em anexo, dois hangares com capacidade para 140 helicópteros receberam isolamento térmico e acústico. "Os proprietários das aeronaves poderão monitorá-las 24 horas a partir de um sistema de câmeras de vídeo", diz a ex-decoradora Regina Velloso, diretora e sócia do Helipark. Sua estrutura lembra muito a de um aeroporto, com um conforto semelhante ao das salas vip. O projeto de decoração é do arquiteto João Armentano, responsável por alguns endereços badalados da cidade. Na sala de embarque, por exemplo, no lugar das tradicionais cadeiras de plástico foram colocados sofás estofados de chenile e couro branco e arranjos de orquídeas. Os passageiros podem aguardar a decolagem no bar, atendidos por garçons uniformizados.

 
Renato Chauí
Rômulo Fialtini
O Helicidade, no Jaguaré: ponto estratégic O pioneiro Helicentro: aberto em 1994

O Helipark pretende disputar aeronaves com o Helicidade, aberto em maio no Jaguaré. Em uma área de 18.000 metros quadrados, o Helicidade fica numa localização privilegiada: perto da confluência das marginais dos rios Tietê e Pinheiros. Há outro heliporto em funcionamento, o Helicentro, construído em 1994 ao lado do Estádio do Morumbi. Considerado um meio de transporte para milionários, o helicóptero atrai cada vez mais interessados. "Começam a surgir consórcios formados por grupos de empresários que rateiam o custo e o uso da mesma aeronave", explica o comandante Ronaldo Jenkins, do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias. Hoje, o Fusquinha dos helicópteros, um Robson 22 usado, pode sair por 80.000 dólares.

 
Mario Rodrigues
Heliponto na Avenida Faria Lima: ruído muito acima do permitido

"São Paulo ainda está se preparando para esse tipo de transporte, que cresce a cada ano", afirma o comandante Jenkins. A explosão no número de helicópteros que cruzam a capital tem causado alguns problemas. Para quem vive ou trabalha perto de um dos 175 helipontos oficiais (estima-se que existam pelo menos outros 100 clandestinos), o barulho é um incômodo. "Os moradores queixaram-se tanto que resolvemos medir o nível de ruído", diz o arquiteto Roberto Saruê, diretor da Sociedade de Amigos dos Jardins Europa e Paulistano (Sajep). O ponto escolhido foi a esquina da Alameda Gabriel Monteiro da Silva com a Avenida Faria Lima, onde está o Edifício San Paolo, que tem um dos helipontos mais concorridos da região. No dia 1º de novembro, às 16 horas, a aterrissagem de um helicóptero provocou um ruído de 84,5 decibéis – 24,5 pontos acima do permitido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente. Segundo a medição, foi um barulho 30% maior que o produzido por um Airbus 320, da TAM, que sobrevoou o prédio poucos minutos depois.

 

Um giro pelo céu paulistano

 
Fotos Rogério Albuquerque
Patrícia, Alvarez e as crianças cegas: dez minutos de emoção

Quem nunca voou de helicóptero, mas sempre morreu de vontade, pode aproveitar uma oportunidade um pouco mais em conta para cruzar o céu paulistano. Há agora, todos os fins de semana, vôos panorâmicos que custam 82 reais por pessoa mais 1 quilo de alimento não perecível, que será doado a uma instituição de caridade. O pequeno tour é rápido. Dura apenas dez minutos, suficientes para que se veja muita coisa de São Paulo. O vôo, que começa e termina no Campo de Marte, passa pelas regiões norte, oeste e central da cidade. A uma altitude de 150 metros, identificam-se sem dificuldade alguns marcos paulistanos, como a Catedral da Sé, o Estádio do Pacaembu e o Masp. "Não imaginava que minha adrenalina subiria tanto", conta o vendedor José Alvarez. Dias atrás, ele e sua filha Patrícia experimentaram a novidade. Não desgrudaram os olhos da paisagem nem por um instante.

Mais do que pura diversão, o passeio de helicóptero, que vem se realizando há um mês, tem um objetivo social. O Voa Brasil ( 0800-7708710) foi criado pelo empresário Mauro Baccan com o objetivo de proporcionar gratuitamente uma emoção diferente a crianças carentes. Um grupo de jovens cegos do Instituto Padre Chico, no Ipiranga, foi um dos primeiros a participar do projeto. Antes de entrar no aparelho, eles receberam instruções sobre o vôo e puderam tatear miniaturas para entender melhor o que aconteceria lá em cima. "Estamos atrás de patrocínios para atender ainda mais gente", diz Baccan.

         
     
 
 
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