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4 de setembro de 2002
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NEGÓCIOS

Tudo por um hóspede

A abertura de três hotéis de luxo na
cidade acirra a disputa por clientes
paulistanos e turistas

Marcella Centofanti


Fotos Heudes Regis
Regis
O Grand Hyatt, na Marginal Pinheiros, um investimento de 100 milhões de dólares, é o primeiro hotel no Brasil da rede americana, presente em 39 países. Seus 470 quartos são cuidados por 430 funcionários. O número 1 é o irlandês Myles McGourty (à esq.), na foto com o chef alemão Achim Lenders, a carioca Cristiana Castro, diretora de hospedagem, e mais cinco diretores

No último dia 19, a cidade ganhou seu maior hotel cinco-estrelas. Trata-se do Grand Hyatt São Paulo, o primeiro lançamento da cadeia americana no Brasil. Ele ocupa um imponente prédio de 22 andares na Marginal Pinheiros, entre o edifício do BankBoston e a sede da TV Globo. Tem 470 quartos. Nesta segunda-feira (2), o Unique inicia suas operações, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. No dia 1º de outubro será aberto o novo Hilton, também na Marginal Pinheiros, vizinho ao complexo World Trade Center. Com quinze quartos a mais que o Hyatt, o Hilton passará a ser o número 1 em tamanho. Os três empreendimentos de luxo, lançados no período de um mês e meio, vão competir com outros dez já existentes na mesma categoria (veja quadro). A coisa não pára por aí. Há mais dois super-hotéis a caminho. Um é o Fasano, de propriedade das famílias Fasano e Diniz, que deve ficar pronto em janeiro de 2003, no Jardim Paulista. O segundo é o estabelecimento da rede alemã Kempinski, previsto para 2004, na esquina da avenida Faria Lima com a Juscelino Kubitschek.


Heudes Regis
Inter-Continental: malhação completa com privacidade


Os empreendimentos foram atraídos pelo imenso número de eventos realizados na cidade. São cerca de 74.000 por ano, entre congressos, convenções e seminários, ou 76% das feiras de negócios que acontecem no país. Desde 1999, porém, a quantidade de hotéis e, principalmente, de flats cresceu mais que o número de hóspedes. Atualmente, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih), existem 25.000 quartos disponíveis na cidade, 9.000 deles em flats. Até 2004, esses números devem dobrar. É muita oferta para os 9 milhões de visitantes que passam por aqui anualmente. Quando os novíssimos hotéis começaram a sair do papel, cerca de cinco anos atrás, a taxa de ocupação dos quartos era de 70%. Hoje, gira em torno de 45%. A crise no setor foi agravada pela má situação da economia mundial e pelos ecos dos atentados de 11 de setembro. O que vem por aí é uma guerra, ainda mais acirrada, por menores preços e melhores serviços. "As tarifas já são em média 50% mais baixas do que um ano e meio atrás", diz Nelson Baeta Neves, presidente da Abih em São Paulo. Nessa disputa ganha não somente o hóspede, mas também o paulistano, um dos principais trunfos para driblar a crise. "É fundamental trazer a população para dentro do hotel", afirma Rahul Vir, diretor de operações do Renaissance. "Além de constituir uma nova fonte de renda, o movimento de pessoas da cidade quebra aquela imagem de frieza e torna o ambiente mais aconchegante para o hóspede."



Leo Feltran
Heudes Regis
A peça Intimidade Indecente, no Renaissance: sucesso de público O spa do Hyatt: tratamento de beleza e relaxamento

Alguns estabelecimentos conseguem a proeza de se incorporar à vida da metrópole. Nos anos 20 e 30, o Esplanada, cujo prédio agora abriga a sede do grupo Votorantim, localizado atrás do Teatro Municipal, foi um marco da belle époque paulistana. Na década de 50, o Lord, no Largo do Arouche, onde hoje funciona o San Raphael, ficou famoso por sua casa de shows, que recebeu estrelas como a diva francesa Edith Piaf. Depois, brilharam o Othon, na Praça do Patriarca, que hospedou desde o jazzista Louis Armstrong até o astronauta Yuri Gagarin, e o Jaraguá, na Rua Major Quedinho, ponto de encontro de políticos como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda. Inaugurado em 1953, o Ca'd'Oro, na Rua Augusta, tornou-se um marco gastronômico. Por vários anos, seu restaurante foi o favorito dos gourmets de São Paulo. Na década de 70, veio a primeira rede internacional, o Hilton, cujo prédio, de formato cilíndrico, virou cartão-postal. Nos anos 80, o Maksoud tornou-se sinônimo de glamour. Seu lobby de teto altíssimo (uma antiga marca do Hyatt) é um referencial arquitetônico de São Paulo. Atualmente, o Renaissance desempenha parte desse papel, com seu belo teatro e seu saguão sempre movimentado.


Fotos Heudes Regis
egis
O Unique (à esq.), de Jonas Siaulys (ao centro), ladeado por suas grifes: o decorador Armentano, o chef Bassoleil, o arquiteto Ohtake e o paisagista Elkis

O Hyatt, cuja construção representa um investimento de 100 milhões de dólares, pretende tomar esse lugar. Montar um hotel com sua estrutura exige um trabalho monstruoso. Durante dez anos, o gerente-geral da unidade brasileira, o irlandês Myles McGourty, fez visitas periódicas a São Paulo para estudar o mercado e buscar a localização perfeita para o edifício. McGourty, que tem vinte anos de experiência na rede, mudou-se para cá no começo de 2000, quando a obra foi iniciada. Desde então se vem adaptando à vida paulistana. Ao lado de outros diretores (são sete, entre eles cinco estrangeiros), freqüenta restaurantes como o Gero e o Cantaloup. Aos sábados, eles vão comer feijoada no A Figueira Rubaiyat. McGourty comanda 430 funcionários e, há três semanas, acumula a função de vice-presidente regional para a América do Sul. Uma de suas apostas para conquistar o paulistano é a gastronomia. Começaram a funcionar no Hyatt três ambiciosos restaurantes. Um deles, o Kinu, tem como chef o japonês Yassuo Asai, que já fez várias visitas à Ceagesp para conhecer os peixes brasileiros. Saiu fotografando tudo com sua câmera digital e se encantou com o pintado. Agora, quer saber como incorporar as iguarias nacionais a sua culinária. Responsável pela cozinha do Eau, o francês Pascal Valero – que trabalhou no badalado Hotel Costes e no Taillevent, ambos em Paris – recentemente descobriu a danceteria Disco, na Vila Olímpia. Há ainda um restaurante italiano, que, no almoço, atende em sistema de bufê. As cozinhas são supervisionadas pelo alemão Achim Lenders, que durante catorze anos atuou em hotéis da rede na China, no Japão, na Coréia do Sul, nas Filipinas, na Inglaterra e na Alemanha.


Fotos Heudes Regis

O novo Hilton, na Marginal Pinheiros, que deve ser inaugurado no dia 1º de outubro: com 485 quartos (acima, um deles), será o maior hotel de São Paulo
egis

Das janelas do Hyatt avista-se a silhueta de seu próximo concorrente, o Hilton. O subsolo do Hilton é interligado ao de outro cinco-estrelas, o Gran Meliá. Investiram-se ali 90 milhões de dólares. No topo do edifício de 27 andares foram montados um spa e uma academia. As janelas proporcionam vista panorâmica de 360 graus da Zona Sul da cidade. O futuro do Hilton da Avenida Ipiranga ainda é incerto. Por contrato, ele permanecerá por lá até 2006. "O centro, hoje, é a região da Berrini", acredita o gerente-geral do Hilton, o argentino Tom Potter. O Unique resolveu fixar-se numa área diferente, a esquina da Avenida Brigadeiro Luís Antônio com a Rua Henrique Martins, no Jardim Paulista. "Estar ao lado do Parque do Ibirapuera e próximo à Paulista é um privilégio", declara Jonas Siaulys, 31 anos, que ganhou o hotel de seu pai, Victor Siaulys, um dos proprietários do laboratório farmacêutico Aché. Nesta semana, o Unique entra em sistema de soft opening (abertura parcial). Como o Emiliano e o Fasano, que devem brigar pelo mesmo público, ele não faz parte de nenhuma cadeia internacional. Tem 95 quartos e pretende oferecer atendimento no estilo dos hotéis-butiques, como o L'Hotel. Para desenvolver o projeto, foram contratados nomes de grife. A decoração é assinada por João Armentano, Gilberto Elkis cuida do paisagismo e o chef Emmanuel Bassoleil, de toda a cozinha. A arquitetura, um tanto chocante, é de Ruy Ohtake. Ele criou corredores escuros e paredes sinuosas. O elevador foi pintado de preto. A piscina é vermelha e tem som subaquático. Não há recepção. O check-in é registrado em um palmtop enquanto o hóspede se dirige ao quarto. "Fizemos tudo diferente mesmo, de propósito", afirma Jonas Siaulys. "Só assim conseguiremos nos destacar em meio a tanta concorrência."

         
     
 
 
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