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CRÔNICA
Um
bom banho
Soluções
de um quitandeiro
para os problemas da cidade
Ivan
Angelo
Ele
ama a cidade. Sabe que atualmente está difícil, mas
diz que quando fez sua opção foi um casamento: na
alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até
que a morte os separe.
Agora
que o horário político gratuito põe na televisão
um desfile de caras pétreas recitando uma ladainha de números
e frases, ele me conta que já passou por isso, tentou ser
vereador, e não deu. O sonho dele é consertar algumas
coisas da cidade.
Chama-se...
O nome não sei, atende por "Japi". Seu Japi é quitandeiro
no bairro da Barra Funda. Veio, rapazinho ainda, de Jundiaí,
fugindo de uma surra. Namorou, noivou e casou-se com a cidade. Achava
que um dia poderia, "como se faz com a mulher" (diz, bem brasileiro,
ajudando a idéia com as mãos), corrigir umas coisas
aqui e ali, "botar ela mais no jeito".
O homem molda a seu gosto as coisas e as pessoas para querer bem
por mais tempo acrescenta, com alguma razão.
Tentou
a política. Não se tornou vereador, virou prefeito
imaginário. Entre pepinos e repolhos, ele fantasia, planeja,
administra.
Garante
que foi dele a idéia de fazer piscinões contra as
enchentes. Não sabe como a coisa foi parar nos gabinetes
da prefeitura. No interior abriam valos que recolhiam água
o ano inteiro para as hortaliças, e a idéia veio-lhe
assim, num estalo: se na cidade a chuva não tinha para onde
ra as hortaliças, e a idéia veio-lhe
assim, num estalo: se na cidade a chuva não tinha para onde
escorrer, deviam recolhê-la num buraco, "para ela procurar
seu caminho com mais tempo".
Tem trinta anos que eu falo em derrubar esse Minhocão
diz, e aponta o vizinho incômodo. Agora o assunto está
no jornal. Para que foram fazer isso aqui, cortando a alma da cidade?
Desde o começo que eu falo: tinha de fazer por cima da linha
do trem, aqui do lado. Não precisava nem parar os trens,
fazia tudo à noite. Tem de implodir e fazer o certo.
Seu Japi, o senhor tem idéias mas não tem o cargo.
E tem gente que tem o cargo mas não tem idéias.
Seus
projetos para o trânsito são radicais.
Se você sai da Berrini às 4 e meia, chega aqui às
5. Se sair às 5 e meia, chega às 7. Uma hora de diferença!
Alguma coisa está errada.
Radicaliza,
na base do "se fosse eu": reescalaria horários de trabalho;
escolas diurnas, só das 7 e meia às 4 e meia, "não
tem choro"; barcos de carga nos rios Tietê e Pinheiros; tráfego
de caminhões só tarde da noite, entre 23 e 6 horas.
Eles nem são da cidade, por que é que vêm nos
perturbar aqui? Ameaçam automóveis de moradores, poluem
o ar, amarram o trânsito. Proibição total! Zero!
A cidade é dos paulistanos, não deles! Tem tanta profissão
noturna, essa fica sendo mais uma.
Ultimamente,
vendo as promessas no horário político, bolou uma
solução para o desemprego e a feiúra da cidade.
Seu Japi é meio machão, diz que belezura é
coisa de mulher.
Tem de ser lei, na marra, com prazo e multa: todo mundo tem de arrumar
e pintar a fachada de seu imóvel até 1º de dezembro.
Três meses. Sem sacrifício: tinta é barata,
cal é baratíssima. Bairros antigos são os mais
abandonados. Migrante não cuida, acha que está aqui
de passagem, só até ganhar um dinheiro. Prefeitos
não limpam os viadutos. Em Los Angeles eles dão banho
em viaduto, igual se dá em prédio já
viu lavar prédio? Se os síndicos lavam prédios,
por que a prefeitura não lava viaduto? Olha, meu amigo, vai
dar tanto trabalho limpar e pintar esta cidade que não vai
sobrar um só desempregado. E a produção, que
cresce atrás?
Seu
Japi quebra a dureza com um sorriso:
Nada como um bom banho para a gente se sentir novo, bem-disposto,
alegre, não é? São Paulo precisa é de
um banho, só isso.
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