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4 de setembro de 2002
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CRÔNICA

Um bom banho

Soluções de um quitandeiro
para os problemas da cidade

Ivan Angelo


Ele ama a cidade. Sabe que atualmente está difícil, mas diz que quando fez sua opção foi um casamento: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe.

Agora que o horário político gratuito põe na televisão um desfile de caras pétreas recitando uma ladainha de números e frases, ele me conta que já passou por isso, tentou ser vereador, e não deu. O sonho dele é consertar algumas coisas da cidade.

Chama-se... O nome não sei, atende por "Japi". Seu Japi é quitandeiro no bairro da Barra Funda. Veio, rapazinho ainda, de Jundiaí, fugindo de uma surra. Namorou, noivou e casou-se com a cidade. Achava que um dia poderia, "como se faz com a mulher" (diz, bem brasileiro, ajudando a idéia com as mãos), corrigir umas coisas aqui e ali, "botar ela mais no jeito".

– O homem molda a seu gosto as coisas e as pessoas para querer bem por mais tempo – acrescenta, com alguma razão.

Tentou a política. Não se tornou vereador, virou prefeito imaginário. Entre pepinos e repolhos, ele fantasia, planeja, administra.

Garante que foi dele a idéia de fazer piscinões contra as enchentes. Não sabe como a coisa foi parar nos gabinetes da prefeitura. No interior abriam valos que recolhiam água o ano inteiro para as hortaliças, e a idéia veio-lhe assim, num estalo: se na cidade a chuva não tinha para onde ra as hortaliças, e a idéia veio-lhe assim, num estalo: se na cidade a chuva não tinha para onde escorrer, deviam recolhê-la num buraco, "para ela procurar seu caminho com mais tempo".

– Tem trinta anos que eu falo em derrubar esse Minhocão – diz, e aponta o vizinho incômodo. – Agora o assunto está no jornal. Para que foram fazer isso aqui, cortando a alma da cidade? Desde o começo que eu falo: tinha de fazer por cima da linha do trem, aqui do lado. Não precisava nem parar os trens, fazia tudo à noite. Tem de implodir e fazer o certo.

– Seu Japi, o senhor tem idéias mas não tem o cargo.

– E tem gente que tem o cargo mas não tem idéias.

Seus projetos para o trânsito são radicais.

– Se você sai da Berrini às 4 e meia, chega aqui às 5. Se sair às 5 e meia, chega às 7. Uma hora de diferença! Alguma coisa está errada.

Radicaliza, na base do "se fosse eu": reescalaria horários de trabalho; escolas diurnas, só das 7 e meia às 4 e meia, "não tem choro"; barcos de carga nos rios Tietê e Pinheiros; tráfego de caminhões só tarde da noite, entre 23 e 6 horas.

– Eles nem são da cidade, por que é que vêm nos perturbar aqui? Ameaçam automóveis de moradores, poluem o ar, amarram o trânsito. Proibição total! Zero! A cidade é dos paulistanos, não deles! Tem tanta profissão noturna, essa fica sendo mais uma.

Ultimamente, vendo as promessas no horário político, bolou uma solução para o desemprego e a feiúra da cidade. Seu Japi é meio machão, diz que belezura é coisa de mulher.

– Tem de ser lei, na marra, com prazo e multa: todo mundo tem de arrumar e pintar a fachada de seu imóvel até 1º de dezembro. Três meses. Sem sacrifício: tinta é barata, cal é baratíssima. Bairros antigos são os mais abandonados. Migrante não cuida, acha que está aqui de passagem, só até ganhar um dinheiro. Prefeitos não limpam os viadutos. Em Los Angeles eles dão banho em viaduto, igual se dá em prédio – já viu lavar prédio? Se os síndicos lavam prédios, por que a prefeitura não lava viaduto? Olha, meu amigo, vai dar tanto trabalho limpar e pintar esta cidade que não vai sobrar um só desempregado. E a produção, que cresce atrás?

Seu Japi quebra a dureza com um sorriso:

– Nada como um bom banho para a gente se sentir novo, bem-disposto, alegre, não é? São Paulo precisa é de um banho, só isso.

         
     
 
 
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