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4 de setembro de 2002
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CRIME

Tragédia nos Jardins

Mulher se suicida depois
de assassinar o marido

Carlos Eduardo Palhano


Fotos álbum de família
mília
Mordco Prist com o rabino Sobel e no dia de seu 80º aniversário: comemoração com duas raríssimas garrafas dos vinhos Château Margaux e Château La Tour Blanche

Uma tragédia chocou a cidade na semana passada e marcou profundamente a comunidade judaica de São Paulo. Com três tiros no peito do marido, o empresário Mordco Azril Prist, e um na própria cabeça, a dona-de-casa Neusa Schiochet Prist pôs fim a uma união de trinta anos. Ele tinha 81 anos. Ela, 64. O crime aconteceu na terça-feira pela manhã na sala de estar com vista para a piscina da cobertura dúplex onde eles moravam, nos Jardins. A arma usada, um revólver de calibre 38, pertencia ao filho do casal, que a mantinha guardada em um dos armários de sua suíte.

O crime deixou estupefatos não só os parentes e amigos do casal, entre eles Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista. "É a primeira vez que um episódio dessa natureza acontece em nossa comunidade", afirma Sobel, que celebrou o casamento de Neusa e Mordco. "Eu o conheci logo que cheguei ao Brasil, em 1970. Era um homem muito bondoso e dedicado. Recebeu meus pais quando eles estiveram aqui pela primeira vez", emociona-se ao falar de Maurício, nome pelo qual Mordco também era conhecido.

Paulo Libert/EA
A cobertura dúplex onde o casal vivia com o filho, nos Jardins: palco do drama que abalou a comunidade judaica de São Paulo


Saber quais foram as razões do crime ainda depende de investigações. Entre as hipóteses, uma das mais prováveis é a de que Neusa tenha sofrido um surto psicótico, conforme o próprio filho declarou à polícia. "De vez em quando, eles brigavam por coisas tolas. Nunca demos importância àquelas discussões. Ela tinha problemas psíquicos e, dizem, parou de tomar os remédios", comenta um irmão da vítima. Neusa converteu-se ao judaísmo quando se casou. Por decisão de sua família, foi enterrada no cemitério católico do Morumbi, junto ao túmulo da mãe, enquanto Mordco foi sepultado no Cemitério Israelita do Butantã. Segundo as leis judaicas, o suicídio é motivo de vergonha. Aqueles que o cometem devem ser enterrados numa ala à parte. "Neusa não estava de posse de suas faculdades mentais, o que a livraria de um sepultamento separado. A decisão de enterrá-la no Morumbi coube à própria família", diz Sobel.

Ex-presidente da Sociedade dos Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém e ex-vice-presidente do clube A Hebraica, Mordco teve uma trajetória de vida fascinante. Nascido em 1921 na Bessarábia, então parte da Romênia e hoje território da Moldávia e da Ucrânia, chegou ao Brasil em 1925. Sétimo filho de uma família de oito irmãos, começou a trabalhar cedo, na função de "braço fixo", como eram chamados na época aqueles que vendiam, de porta em porta, gravatas penduradas no braço esticado. "Meu pai tinha muito orgulho de suas origens", lembra a mais velha das duas filhas de seu primeiro casamento, que, como outros parentes, deu declarações a Veja São Paulo com a condição de que seu nome não fosse publicado. "Era um homem do povo, sua história lembra a de Silvio Santos." Mordco, que gostava de desafios, fez fortuna. Transformou um comércio de fundo de quintal no Brás na próspera indústria têxtil Prist. Sua confecção foi a primeira a trazer para o Brasil as grifes Pierre Cardin e Lacoste. Há cerca de dez anos se desfez da empresa. "Uma das razões foi a falta de sucessor. Os filhos não se interessavam pelo ramo, e ele soube respeitar a vocação de cada um", diz um irmão. Outro motivo que o levou à aposentadoria foi um melanoma. "Os médicos lhe deram seis meses de vida e praticamente nenhuma esperança", conta a filha. "Ele se agarrou ao que pôde e venceu mais um desafio."

A disposição para a luta era uma das características de sua personalidade, marcada pela diversidade de interesses. Mordco andava muito de táxi, sentava no banco da frente e gostava de conversar com o motorista. Quando ia a restaurantes, fazia questão de cumprimentar o cozinheiro. Corintiano fanático, não perdia os jogos do time disputados no Pacaembu. Ia a pé, de bermuda e tênis. Apreciava botânica, arte e vinhos. No ano passado, para comemorar seu 80º aniversário, abriu duas garrafas raríssimas – um Château Margaux e um Château La Tour Blanche. Eram da safra de 1921, ano de seu nascimento.

         
     
 
 
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