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CRIME
Tragédia
nos Jardins
Mulher
se suicida depois
de assassinar o marido
Carlos
Eduardo Palhano
Fotos álbum de família
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mília
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| Mordco
Prist com o rabino Sobel e no dia de seu 80º aniversário:
comemoração com duas raríssimas garrafas
dos vinhos Château Margaux e Château La Tour Blanche
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Uma
tragédia chocou a cidade na semana passada e marcou profundamente
a comunidade judaica de São Paulo. Com três tiros no
peito do marido, o empresário Mordco Azril Prist, e um na
própria cabeça, a dona-de-casa Neusa Schiochet Prist
pôs fim a uma união de trinta anos. Ele tinha 81 anos.
Ela, 64. O crime aconteceu na terça-feira pela manhã
na sala de estar com vista para a piscina da cobertura dúplex
onde eles moravam, nos Jardins. A arma usada, um revólver
de calibre 38, pertencia ao filho do casal, que a mantinha guardada
em um dos armários de sua suíte.
O
crime deixou estupefatos não só os parentes e amigos
do casal, entre eles Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação
Israelita Paulista. "É a primeira vez que um episódio
dessa natureza acontece em nossa comunidade", afirma Sobel, que
celebrou o casamento de Neusa e Mordco. "Eu o conheci logo que cheguei
ao Brasil, em 1970. Era um homem muito bondoso e dedicado. Recebeu
meus pais quando eles estiveram aqui pela primeira vez", emociona-se
ao falar de Maurício, nome pelo qual Mordco também
era conhecido.
Paulo Libert/EA
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| A
cobertura dúplex onde o casal vivia com o filho, nos Jardins:
palco do drama que abalou a comunidade judaica de São Paulo
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Saber quais foram as razões do crime ainda depende de investigações.
Entre as hipóteses, uma das mais prováveis é
a de que Neusa tenha sofrido um surto psicótico, conforme
o próprio filho declarou à polícia. "De vez
em quando, eles brigavam por coisas tolas. Nunca demos importância
àquelas discussões. Ela tinha problemas psíquicos
e, dizem, parou de tomar os remédios", comenta um irmão
da vítima. Neusa converteu-se ao judaísmo quando se
casou. Por decisão de sua família, foi enterrada no
cemitério católico do Morumbi, junto ao túmulo
da mãe, enquanto Mordco foi sepultado no Cemitério
Israelita do Butantã. Segundo as leis judaicas, o suicídio
é motivo de vergonha. Aqueles que o cometem devem ser enterrados
numa ala à parte. "Neusa não estava de posse de suas
faculdades mentais, o que a livraria de um sepultamento separado.
A decisão de enterrá-la no Morumbi coube à
própria família", diz Sobel.
Ex-presidente
da Sociedade dos Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém
e ex-vice-presidente do clube A Hebraica, Mordco teve uma trajetória
de vida fascinante. Nascido em 1921 na Bessarábia, então
parte da Romênia e hoje território da Moldávia
e da Ucrânia, chegou ao Brasil em 1925. Sétimo filho
de uma família de oito irmãos, começou a trabalhar
cedo, na função de "braço fixo", como eram
chamados na época aqueles que vendiam, de porta em porta,
gravatas penduradas no braço esticado. "Meu pai tinha muito
orgulho de suas origens", lembra a mais velha das duas filhas de
seu primeiro casamento, que, como outros parentes, deu declarações
a Veja São Paulo com a condição de que
seu nome não fosse publicado. "Era um homem do povo, sua
história lembra a de Silvio Santos." Mordco, que gostava
de desafios, fez fortuna. Transformou um comércio de fundo
de quintal no Brás na próspera indústria têxtil
Prist. Sua confecção foi a primeira a trazer para
o Brasil as grifes Pierre Cardin e Lacoste. Há cerca de dez
anos se desfez da empresa. "Uma das razões foi a falta de
sucessor. Os filhos não se interessavam pelo ramo, e ele
soube respeitar a vocação de cada um", diz um irmão.
Outro motivo que o levou à aposentadoria foi um melanoma.
"Os médicos lhe deram seis meses de vida e praticamente nenhuma
esperança", conta a filha. "Ele se agarrou ao que pôde
e venceu mais um desafio."
A
disposição para a luta era uma das características
de sua personalidade, marcada pela diversidade de interesses. Mordco
andava muito de táxi, sentava no banco da frente e gostava
de conversar com o motorista. Quando ia a restaurantes, fazia questão
de cumprimentar o cozinheiro. Corintiano fanático, não
perdia os jogos do time disputados no Pacaembu. Ia a pé,
de bermuda e tênis. Apreciava botânica, arte e vinhos.
No ano passado, para comemorar seu 80º aniversário,
abriu duas garrafas raríssimas um Château Margaux
e um Château La Tour Blanche. Eram da safra de 1921, ano de
seu nascimento.
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