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4 de maio de 2005
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CRÔNICA

Ponto de almoço

Ivan Angelo

Eu me lembro de um almoço. Há pessoas com uma memória fantástica para comidas. Não é o meu caso, mas esse marcou.

Foi um almoço de estrada. Viajava-se de automóvel com muito menos conforto naqueles anos, porém se comia melhor.

Esqueçam esses verdadeiros mercadões de comidas das paradas de ônibus, onde se amontoam sanduíches de incerta carne com uma folha de alface que já desistiu, coxinhas que se amassam e se deformam, cansadas de tanta espera; esqueçam aquele bifezinho no pão que se recusa a sair lá de dentro aos pedaços, ou sai inteiro ou não sai; esqueçam aquelas murchas saladas de vitrine, a correria de carnes esturricadas em rodízio, a mistura descombinada nos pratos de comida a quilo, a pressa uniformizada das casas de fast-food. Esqueçam, que vou falar do meu almoço numa estrada do interior.

Um lugar como esse de que vou falar era chamado de ponto de almoço. Alguém, com esperteza, calculava o local exato onde seria maior a fome que podia acometer o viajante entre duas cidades distantes e aí plantava o seu ponto de almoço. Estávamos indo para Pirapora, um lugar de Minas, estrada de terra.

Descemos do carro empoeirados e esperançosos. Vínhamos recomendados: "A melhor comida é a do seu Einaldo" – mas não podíamos prever.

O que seu Einaldo queria não era a fama de melhor cozinha, acho que ele queria era ver a cara das pessoas comendo a comida dele. Tanto que ficava ali, encostado, olhando, favorecendo cachacinha e cerveja, como que desafiando a gente a pôr algum defeito. Não sei, não sei mesmo, se foi desafio ou indecisão que o fez colocar em nossa mesa de quatro pessoas 26 iguarias que ele mesmo trazia com um comentário: "Eu mesmo matei esse franguinho", "Essa couve foi apanhada agorinha na horta", "O tempero é de umas ervas aí do mato".

Feijão, por exemplo. Seu Einaldo não se contentava com um feijãozinho. Nada disso. Tinha do marrom e do preto, em tutu, tropeiro, inteiro no caldo ou socado em caldo grosso. O tropeiro brilhando, salpicado de cheiro-verde e de pequenos dourados torresmos.

Seu Einaldo não era homem para uma couvezinha só: tinha da rasgada, da fininha e de farofa. Ovo? Frito, cozido e de farofa. Refogados de almeirão, repolho, chuchu, mamão verde, quiabo, jiló. Por que tanto, seu Einaldo? "Porque pode ser, não é? Não sei, tem gosto e desgosto, não é?" Era como se a gente fosse convidado e ele tivesse medo de passar vergonha.

E foram chegando travessinhas. Lingüiças da grossa e da fina, de brilho encorajador; frango frito e ensopado – neste, a carne soltando-se dos ossos a um toque do garfo, caldo grosso e generoso, de boas cores; um bife irrecusável – "Passo ele é pondo um pedacinho da gordura do boi mesmo na chapa, porque outra gordura carne de boi não aceita", acode seu Einaldo com explicações –, arroz branco, arroz com pequi, arroz com tomate, macarrão, salada de tomate, costelinha e, coroando, um lombo de porco entre o perfeito e o incrível: por fora, aquela cor de ferrugem; por dentro, brancura úmida desfazendo-se em fibras delicadas.

Fui condenado a comer esse almoço pela vida afora, na memória.

     
   
 
 
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