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CRÔNICA Ponto
de almoço Ivan Angelo Eu
me lembro de um almoço. Há pessoas com uma memória fantástica
para comidas. Não é o meu caso, mas esse marcou.
Foi um almoço de estrada. Viajava-se de automóvel com muito menos
conforto naqueles anos, porém se comia melhor.
Esqueçam esses verdadeiros mercadões de comidas das paradas de ônibus,
onde se amontoam sanduíches de incerta carne com uma folha de alface que
já desistiu, coxinhas que se amassam e se deformam, cansadas de tanta espera;
esqueçam aquele bifezinho no pão que se recusa a sair lá
de dentro aos pedaços, ou sai inteiro ou não sai; esqueçam
aquelas murchas saladas de vitrine, a correria de carnes esturricadas em rodízio,
a mistura descombinada nos pratos de comida a quilo, a pressa uniformizada das
casas de fast-food. Esqueçam, que vou falar do meu almoço numa estrada
do interior. Um lugar como esse de que vou falar
era chamado de ponto de almoço. Alguém, com esperteza, calculava
o local exato onde seria maior a fome que podia acometer o viajante entre duas
cidades distantes e aí plantava o seu ponto de almoço. Estávamos
indo para Pirapora, um lugar de Minas, estrada de terra.
Descemos do carro empoeirados e esperançosos. Vínhamos recomendados:
"A melhor comida é a do seu Einaldo" mas não podíamos
prever. O que seu Einaldo queria não era
a fama de melhor cozinha, acho que ele queria era ver a cara das pessoas comendo
a comida dele. Tanto que ficava ali, encostado, olhando, favorecendo cachacinha
e cerveja, como que desafiando a gente a pôr algum defeito. Não sei,
não sei mesmo, se foi desafio ou indecisão que o fez colocar em
nossa mesa de quatro pessoas 26 iguarias que ele mesmo trazia com um comentário:
"Eu mesmo matei esse franguinho", "Essa couve foi apanhada agorinha na horta",
"O tempero é de umas ervas aí do mato".
Feijão, por exemplo. Seu Einaldo não se contentava com um feijãozinho.
Nada disso. Tinha do marrom e do preto, em tutu, tropeiro, inteiro no caldo ou
socado em caldo grosso. O tropeiro brilhando, salpicado de cheiro-verde e de pequenos
dourados torresmos. Seu Einaldo não era
homem para uma couvezinha só: tinha da rasgada, da fininha e de farofa.
Ovo? Frito, cozido e de farofa. Refogados de almeirão, repolho, chuchu,
mamão verde, quiabo, jiló. Por que tanto, seu Einaldo? "Porque pode
ser, não é? Não sei, tem gosto e desgosto, não é?"
Era como se a gente fosse convidado e ele tivesse medo de passar vergonha.
E foram chegando travessinhas. Lingüiças da grossa e da fina, de brilho
encorajador; frango frito e ensopado neste, a carne soltando-se dos ossos
a um toque do garfo, caldo grosso e generoso, de boas cores; um bife irrecusável
"Passo ele é pondo um pedacinho da gordura do boi mesmo na chapa,
porque outra gordura carne de boi não aceita", acode seu Einaldo com explicações
, arroz branco, arroz com pequi, arroz com tomate, macarrão, salada
de tomate, costelinha e, coroando, um lombo de porco entre o perfeito e o incrível:
por fora, aquela cor de ferrugem; por dentro, brancura úmida desfazendo-se
em fibras delicadas. Fui condenado a comer esse
almoço pela vida afora, na memória. |