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4 de fevereiro de 2004
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CRÔNICA

Gorda leve

Ivan Angelo

Adoro minha amiga gorda. Rápida de cabeça, boa de risada, memória afiada para casos, observadora, enturmada e dona de uma consciência política específica. De maneira bem-humorada, e só no nível do discurso, como se dizia nos botequins dos anos 70, é defensora de políticas urbanas para os obesos. Ela diz gordinhos, delicadamente.

Desde os tempos de faculdade, era vítima do que veio a se chamar efeito sanfona. De uma semana para outra, conforme a vida e os amores, podia ouvir dos colegas comentários agradáveis ou desagradáveis sobre seu corpo. Um colega de uma classe dois anos acima da dela, talvez paquera secreta, era seu Grilo Falante, como aquele da história de Pinóquio.

Se rompia a barreira do peso, fugia dele, escondia-se, ia à cantina ou à biblioteca em horários improváveis, escapava depressa para casa, nada de barzinho, para não ouvir aquela desagradável e proposital saudação: "Nossa! Como você engordou!". Quando o sacrifício da dieta que estivesse na moda a deixava mais enxuta, dava sopa nos corredores e na cantina, até o procurava, só para ouvir aquela música divina: "Nossa! Como você emagreceu!". Mas ele se formou e sumiu, e ela perdeu seu espelho mais crítico. Então se largou.

Ela diz que percebe nas pessoas, principalmente desconhecidas, uma maneira furtiva de olhar os gordos: elas olham, atentam num detalhe e tiram os olhos; depois fixam outro ponto e desviam. Não ficam encarando, para não ofender, mas o ar delas é de censura.

– Não é bem uma crítica – diz, e então ri ferina, mas escandalizada, e completa: – É uma cobrança! Como se estivéssemos gordos porque comemos a parte deles!

Acontecem lances. Nas vésperas do último Natal, entrou numa loja de biquíni com uma amiga também gorda e logo ouviram da vendedora: "Não temos o número de vocês". Talvez a balconista estivesse apressada, talvez tivesse vendido pouco e preferisse atender uma freguesa mais certa, talvez, talvez. A amiga não vacilou: "Gordo também dá presente, sabia?". Não compraram nem quiseram ouvir desculpas.

A minha gordinha diz que essas coisas acontecem porque as pessoas punem os gordos por alguma razão obscura. Outra amiga dela, também do "clube", e ainda por cima fumante, faz caminhadas diárias mal rompe a manhã, por recomendação médica, e ouviu esta de uma jovem: "É, caminhar não está lhe trazendo nenhum bem. Você caminha todos os dias e não emagreceu nada!". A mesma, fumando num ponto de ônibus, foi abordada por uma senhora: "Eles falam que fumar emagrece, mas deve ser mentira. Você fuma e é gorda desse jeito". A insensibilidade chegou a um ponto que muitas pessoas nem percebem que ferem, diz ela. E levanta bandeiras:

– Sabe por que os gordos não reivindicam facilidades urbanas? Culpa. Botaram culpa na gente, desde pequenos. Tipo "você é gordo porque quer". E nós assumimos. Penamos na escola nas mãos dos magros. Depois a gente cresce e continua igual. Já viu gordo tentando passar numa catraca de ônibus? Precisava ser tão estreitinha? Ou passar numa catraca de segurança de prédio? De cinema? Em porta giratória de banco? Já viu aquelas cadeirinhas de lanchonete fast food? Como é que vendem uma comida calórica daquelas e oferecem cadeirinhas tão apertadas? E as poltronas dos cinemas? E as dos aviões? A vida já é tão complicada para nós, até namorar é complicado. Não podiam facilitar um pouco?

Minha amiga ri ao falar de um novo tipo de assédio na cidade, o assédio às gordinhas. Quando saem em grupo, na hora do almoço, até apostam qual será premiada com a "cantada" do dia, para qual delas o homem passará furtivamente o cartão com os dizeres:

"Quer emagrecer, fale comigo".

         
     
 
 
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