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CRÔNICA
Gorda
leve
Ivan
Angelo
Adoro
minha amiga gorda. Rápida de cabeça, boa de risada,
memória afiada para casos, observadora, enturmada e dona
de uma consciência política específica. De maneira
bem-humorada, e só no nível do discurso, como se dizia
nos botequins dos anos 70, é defensora de políticas
urbanas para os obesos. Ela diz gordinhos, delicadamente.
Desde
os tempos de faculdade, era vítima do que veio a se chamar
efeito sanfona. De uma semana para outra, conforme a vida e os amores,
podia ouvir dos colegas comentários agradáveis ou
desagradáveis sobre seu corpo. Um colega de uma classe dois
anos acima da dela, talvez paquera secreta, era seu Grilo Falante,
como aquele da história de Pinóquio.
Se
rompia a barreira do peso, fugia dele, escondia-se, ia à
cantina ou à biblioteca em horários improváveis,
escapava depressa para casa, nada de barzinho, para não ouvir
aquela desagradável e proposital saudação:
"Nossa! Como você engordou!". Quando o sacrifício da
dieta que estivesse na moda a deixava mais enxuta, dava sopa nos
corredores e na cantina, até o procurava, só para
ouvir aquela música divina: "Nossa! Como você emagreceu!".
Mas ele se formou e sumiu, e ela perdeu seu espelho mais crítico.
Então se largou.
Ela
diz que percebe nas pessoas, principalmente desconhecidas, uma maneira
furtiva de olhar os gordos: elas olham, atentam num detalhe e tiram
os olhos; depois fixam outro ponto e desviam. Não ficam encarando,
para não ofender, mas o ar delas é de censura.
Não é bem uma crítica diz, e então
ri ferina, mas escandalizada, e completa: É uma cobrança!
Como se estivéssemos gordos porque comemos a parte deles!
Acontecem
lances. Nas vésperas do último Natal, entrou numa
loja de biquíni com uma amiga também gorda e logo
ouviram da vendedora: "Não temos o número de vocês".
Talvez a balconista estivesse apressada, talvez tivesse vendido
pouco e preferisse atender uma freguesa mais certa, talvez, talvez.
A amiga não vacilou: "Gordo também dá presente,
sabia?". Não compraram nem quiseram ouvir desculpas.
A
minha gordinha diz que essas coisas acontecem porque as pessoas
punem os gordos por alguma razão obscura. Outra amiga dela,
também do "clube", e ainda por cima fumante, faz caminhadas
diárias mal rompe a manhã, por recomendação
médica, e ouviu esta de uma jovem: "É, caminhar não
está lhe trazendo nenhum bem. Você caminha todos os
dias e não emagreceu nada!". A mesma, fumando num ponto de
ônibus, foi abordada por uma senhora: "Eles falam que fumar
emagrece, mas deve ser mentira. Você fuma e é gorda
desse jeito". A insensibilidade chegou a um ponto que muitas pessoas
nem percebem que ferem, diz ela. E levanta bandeiras:
Sabe por que os gordos não reivindicam facilidades urbanas?
Culpa. Botaram culpa na gente, desde pequenos. Tipo "você
é gordo porque quer". E nós assumimos. Penamos na
escola nas mãos dos magros. Depois a gente cresce e continua
igual. Já viu gordo tentando passar numa catraca de ônibus?
Precisava ser tão estreitinha? Ou passar numa catraca de
segurança de prédio? De cinema? Em porta giratória
de banco? Já viu aquelas cadeirinhas de lanchonete fast food?
Como é que vendem uma comida calórica daquelas e oferecem
cadeirinhas tão apertadas? E as poltronas dos cinemas? E
as dos aviões? A vida já é tão complicada
para nós, até namorar é complicado. Não
podiam facilitar um pouco?
Minha
amiga ri ao falar de um novo tipo de assédio na cidade, o
assédio às gordinhas. Quando saem em grupo, na hora
do almoço, até apostam qual será premiada com
a "cantada" do dia, para qual delas o homem passará furtivamente
o cartão com os dizeres:
"Quer
emagrecer, fale comigo".
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