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3 de dezembro de 2003
ESPECIAL VERÃO
MISTÉRIOS DA CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
AS BOAS COMPRAS
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

CRÔNICA

Catorze cenas paulistanas

Ivan Angelo

A moça carioca janta com as primas de São Paulo em um restaurante japonês. Chegam os primeiros pratos. Ela dispensara os pauzinhos e afunda a colher no wasabi. "Você gosta?", pergunta uma prima, assustada. "Adoro comida japonesa!", afirma a carioca, e enfia uma colherada da pasta ardente na boca. Vai aos gritos para o banheiro.

O rapaz bonitão entra na porta giratória do banco e ela trava. O guarda do lado de dentro pede que ele deixe celular, chaveiro e objetos de metal na caixinha. Ele sacode a cabeça, conformado, levanta a perna da calça e mostra a prótese mecânica.

Aproxima-se o Natal e um homem com roupa prateada tipo astronauta distribui flores de porta em porta nas últimas casas geminadas da Alameda Casa Branca.

O interfone toca às 2 da manhã e o homem vai atender na cozinha, contrariado. "Chegou a pizza", diz o porteiro. "Eu não pedi pizza nenhuma", responde de mau humor. "O número do apartamento é o do senhor", torna o porteiro. "Estou lhe dizendo que é engano", replica o homem. "O entregador diz que está até paga", informa o porteiro. "Então manda subir."

A moça vem de um lado, o rapaz vem de outro, se encontram na faixa de pedestres e se beijam longamente. O sinal abre e ninguém buzina.

O caminhão de lixo sobe ruidosamente a ladeira, perturbando a noite do bairro. O lixeiro asmático corre atrás, não o alcança, senta-se no meio-fio mal respirando e apenas o olha afastando-se, afastando-se...

Imagens de sertão seco, crianças sem água, gado apodrecendo no chão do Nordeste. A mulher desliga a televisão com um "Ai, meu Deus, chega de sofrimento" e vai lavar a calçada da frente da casa com um esguicho.

O dedo indicador da garota percorre a lista de aprovados. Pára e ela grita: "Passei! Passei!" – e beija na boca o rapaz à sua esquerda, a moça ao lado dele, o senhor atrás dela, outro rapaz, e outro, e outro, e anuncia: "Eu jurei que se passasse ia beijar todo mundo ao meu lado! Passei! Passei!".

O rapaz franzino borrifa água com sabão no pára-brisa do carro e leva uma cusparada do motorista.

O Papai Noel se atira fardado no lago poluído do Ibirapuera para salvar o homem que se debate pedindo socorro. "Deixa morrer, deixa morrer", diz uma mulher à margem, bêbada sem-teto, e emenda: "Ele não vale nada". O Papai Noel traz o homem para a beira e pergunta: "Ele é o que da senhora?". E ela: "Eu que cuido dele".

O motoqueiro passa buzinando e o motorista ameaçado grita: "Doador de órgãos!" – como se fosse insulto.

Chove sem parar e a repórter de televisão pergunta ao vendedor ambulante na região da Rua 25 de Março quantos guarda-chuvas ele vende num dia como aquele. "Só hoje já vendi 400", diz ele. Ela, ao vivo: "Nossa!". E ele: "Chovendo assim, até o fim da tarde vai outro tanto". O homem de uma loja diz que já havia vendido 3.000.

Um menininho de uns 5 anos aparece na frente do carro parado no sinal. Nas mãos, uma bolinha de plástico e uma lasca de tábua de caixote. Joga a bolinha de uma mão para a outra e bate o pau no chão, depois vem à janela do carro, tão miudinho que o motorista tem de esticar o pescoço para vê-lo, e diz simpatiquinho: "Quer que eu faço malabári? É 3 reais". O homem ri e lhe dá 5.

No trânsito que pára de fluir, a mulher vê pelo espelhinho retrovisor o motoqueiro aproximar-se muito colado ao carro dela, assusta-se, ele enche o retrovisor com sua figura vestida de negro, pára ao lado dela, a mão de luva preta bate no vidro, ela se apavora, abro não abro, socorro, vou ser assaltada, o motoqueiro insiste batendo no vidro, diz qualquer coisa que ela não entende, ela resolve abrir temendo levar um tiro, ele lhe diz: "A senhora esqueceu a bolsa no teto do carro e ela caiu na rua" – e lhe entrega a bolsa, e vai embora botando para cima o dedão envolto na luva negra.

         
     
 
 
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