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CRÔNICA
Catorze cenas paulistanas
Ivan Angelo
A
moça carioca janta com as primas de São Paulo em um
restaurante japonês. Chegam os primeiros pratos. Ela dispensara
os pauzinhos e afunda a colher no wasabi. "Você gosta?", pergunta
uma prima, assustada. "Adoro comida japonesa!", afirma a carioca,
e enfia uma colherada da pasta ardente na boca. Vai aos gritos para
o banheiro.
O rapaz bonitão entra na porta giratória do banco
e ela trava. O guarda do lado de dentro pede que ele deixe celular,
chaveiro e objetos de metal na caixinha. Ele sacode a cabeça,
conformado, levanta a perna da calça e mostra a prótese
mecânica.
Aproxima-se o Natal e um homem com roupa prateada tipo astronauta
distribui flores de porta em porta nas últimas casas geminadas
da Alameda Casa Branca.
O interfone toca às 2 da manhã e o homem vai atender
na cozinha, contrariado. "Chegou a pizza", diz o porteiro. "Eu não
pedi pizza nenhuma", responde de mau humor. "O número do
apartamento é o do senhor", torna o porteiro. "Estou lhe
dizendo que é engano", replica o homem. "O entregador diz
que está até paga", informa o porteiro. "Então
manda subir."
A moça vem de um lado, o rapaz vem de outro, se encontram
na faixa de pedestres e se beijam longamente. O sinal abre e ninguém
buzina.
O caminhão de lixo sobe ruidosamente a ladeira, perturbando
a noite do bairro. O lixeiro asmático corre atrás,
não o alcança, senta-se no meio-fio mal respirando
e apenas o olha afastando-se, afastando-se...
Imagens de sertão seco, crianças sem água,
gado apodrecendo no chão do Nordeste. A mulher desliga a
televisão com um "Ai, meu Deus, chega de sofrimento" e vai
lavar a calçada da frente da casa com um esguicho.
O dedo indicador da garota percorre a lista de aprovados. Pára
e ela grita: "Passei! Passei!" e beija na boca o rapaz à
sua esquerda, a moça ao lado dele, o senhor atrás
dela, outro rapaz, e outro, e outro, e anuncia: "Eu jurei que se
passasse ia beijar todo mundo ao meu lado! Passei! Passei!".
O rapaz franzino borrifa água com sabão no pára-brisa
do carro e leva uma cusparada do motorista.
O Papai Noel se atira fardado no lago poluído do Ibirapuera
para salvar o homem que se debate pedindo socorro. "Deixa morrer,
deixa morrer", diz uma mulher à margem, bêbada sem-teto,
e emenda: "Ele não vale nada". O Papai Noel traz o homem
para a beira e pergunta: "Ele é o que da senhora?". E ela:
"Eu que cuido dele".
O motoqueiro passa buzinando e o motorista ameaçado grita:
"Doador de órgãos!" como se fosse insulto.
Chove sem parar e a repórter de televisão pergunta
ao vendedor ambulante na região da Rua 25 de Março
quantos guarda-chuvas ele vende num dia como aquele. "Só
hoje já vendi 400", diz ele. Ela, ao vivo: "Nossa!". E ele:
"Chovendo assim, até o fim da tarde vai outro tanto". O homem
de uma loja diz que já havia vendido 3.000.
Um menininho de uns 5 anos aparece na frente do carro parado no
sinal. Nas mãos, uma bolinha de plástico e uma lasca
de tábua de caixote. Joga a bolinha de uma mão para
a outra e bate o pau no chão, depois vem à janela
do carro, tão miudinho que o motorista tem de esticar o pescoço
para vê-lo, e diz simpatiquinho: "Quer que eu faço
malabári? É 3 reais". O homem ri e lhe
dá 5.
No trânsito que pára de fluir, a mulher vê pelo
espelhinho retrovisor o motoqueiro aproximar-se muito colado ao
carro dela, assusta-se, ele enche o retrovisor com sua figura vestida
de negro, pára ao lado dela, a mão de luva preta bate
no vidro, ela se apavora, abro não abro, socorro, vou ser
assaltada, o motoqueiro insiste batendo no vidro, diz qualquer coisa
que ela não entende, ela resolve abrir temendo levar um tiro,
ele lhe diz: "A senhora esqueceu a bolsa no teto do carro e ela
caiu na rua" e lhe entrega a bolsa, e vai embora botando
para cima o dedão envolto na luva negra.
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