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IMÓVEIS
Morada
dos sonhos
Com
tamanhos variados e preços para
todos os bolsos, os condomínios
horizontais na cidade viram objeto
de desejo para muitos paulistanos
Alessandro
Duarte
Heudes Regis
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| Criada
em apartamento, a administradora de empresas Adriana Cury pensava
nos futuros filhos quando, três anos atrás, começou a procurar
uma casa com o marido. "Queria um lugar para brincar no quintal",
diz ela, que há cinco meses teve o pequeno Felipe. Apesar de
a fachada de seu sobrado de três dormitórios no Morumbi seguir
o padrão do condomínio, Adriana adaptou a área interna de acordo
com suas necessidades. |
Durante
muito tempo, os paulistanos que descartavam a idéia de morar
em apartamentos, mas queriam conciliar qualidade de vida com segurança,
tiveram poucas opções. Uma das saídas eram
loteamentos como Alphaville e Granja Viana, em municípios
vizinhos. A distância até a capital e os congestionamentos
nesse percurso desencorajavam muitos dos que alimentavam o sonho
de viver sem grade nas janelas. Os condomínios horizontais
dentro da capital, mais próximos do local de trabalho de
seus moradores, surgiram como boa alternativa. Nos últimos
cinco anos, tornaram-se o tipo de empreendimento imobiliário
que mais cresceu na cidade. Foram 121 lançamentos só
em 2002 (veja quadro).
Os números podem ser pequenos perto dos 20.000
novos imóveis erguidos por aqui anualmente. A tendência,
no entanto, é que proliferem ainda mais. "Mesmo com todas
as vantagens, o preço é compatível com o de
apartamentos do mesmo padrão", afirma o especialista Luiz
Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de
Patrimônio (Embraesp).
Os
primeiros condomínios horizontais construídos eram
de alto padrão, com casas na faixa de 1 milhão de
reais. Coisa para gente rica. Hoje estão mais acessíveis.
"Há muita procura, principalmente por residências com
três dormitórios e valores entre 200.000
e 300.000 reais, na medida para o bolso da classe
média", diz Gonzalo Fernandez, diretor da Fernandez Mera
Negócios Imobiliários. Não faltam opções
para várias faixas de orçamento. Existem casas de
dois dormitórios em bairros menos valorizados a 85.000
reais. Palacetes em áreas nobres atingem preços acima
dos 2 milhões de reais algumas unidades do Vert Suprême,
uma vila de altíssimo padrão ao lado do Shopping Iguatemi,
custaram quase 3 milhões. "Independentemente da classe social,
todo mundo tem certa nostalgia do tempo em que se podia brincar
na rua", afirma o diretor de vendas da imobiliária Coelho
da Fonseca, Osvaldo Gomes dos Santos. "Fui criado andando de bicicleta
e jogando bola na frente de casa, mas meus filhos nunca puderam
fazer isso", conta o empresário Carlos Alberto Monteiro,
dono de um imóvel com quatro suítes no Alto da Boa
Vista. Pai de Davi, de 13 anos, e de Thiago, de 10, ele viu no condomínio
fechado a possibilidade de proporcionar uma vida com mais liberdade
aos meninos. "Não preciso me preocupar se eles pedem para
sair, pois sei que não passam do portão." Ali, Monteiro
também pôde realizar o velho desejo de ter um golden
retriever, cachorro de grande porte impossível de criar em
apartamento.
Heudes Regis
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| Da
sacada de seu antigo apartamento no Alto da Boa Vista, o empresário
Carlos Alberto Monteiro acompanhou passo a passo a construção
do outro lado da rua. Curioso, foi conhecer a novidade. "Comprei
a primeira casa do empreendimento", lembra. Pagou cerca
de 600 000 reais. Casado e pai de dois filhos, tornou possível
com a mudança o aumento da "família".
Agora, o quintal é reservado ao golden retriever "Lobo".
"Um cão desse porte deixaria os moradores do prédio
malucos." |
A sensação de segurança é o principal
apelo do condomínio horizontal. Ao longo dos anos, o aumento
da criminalidade fez com que as casas em ruas fossem vistas como
um convite constante aos bandidos. E bancar um bom sistema de vigilância
não é para qualquer um. Nos condomínios, além
da impressão de que um vizinho pode zelar pelo outro, dividem-se
os custos da segurança. Na maioria dos lançamentos,
os aparatos são os mesmos dos edifícios residenciais
bem cuidados. Há cercas elétricas, alarmes, câmeras
e guaritas blindadas. Naturalmente, esse não é o único
aspecto a ser levado em conta na hora de fechar o negócio.
Entre os pontos positivos das vilas estão as despesas de
condomínio, em geral mais baixas que as de um apartamento
do mesmo padrão, e o relacionamento com os vizinhos. Além
do mais, não se corre o risco de ver uma mudança no
perfil da rua, o que afetaria o sossego dos moradores.
"Fiquei
cinco anos em um prédio e conhecia apenas as pessoas do andar
em que morava", lembra a arquiteta Patrícia Furtado, que
vive com o marido e dois filhos em um condomínio com 140
unidades em Interlagos. Ela paga 350 reais por mês de condomínio
até 200 reais a menos do que em um edifício
de três dormitórios na região. "Quando estou
sem empregada, posso pedir para alguém olhar as crianças
para mim. É quase uma cidadezinha do interior." Ela faz tanta
propaganda do lugar que outros cinco parentes já se mudaram
para lá. Há, é claro, certos inconvenientes.
Poucos condomínios dispõem de equipamentos de lazer
o de Patrícia é exceção
e, como muitas casas são geminadas ou têm janelas de
frente umas para as outras, a privacidade fica prejudicada. Da mesma
maneira que vizinhos bacanas ajudam na hora de um aperto, a convivência
maior com os outros moradores traz problemas quando surge algum
atrito. "Até nos adaptarmos à nova realidade, as brigas
eram comuns", diz o empresário Carlos Alberto Monteiro.
Heudes Regis
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| A
arquiteta Patrícia Furtado aceitou o convite de um colega,
há cinco anos, para conhecer o projeto de 140 casas coloridas
no bairro de Interlagos. Do estande de vendas, ligou para o
marido. "Vem correndo porque estou comprando uma casa e
você é quem vai pagar", conta, rindo. Ela
e os filhos, Bruno e Caio, fazem tanta propaganda do lugar que
cinco parentes já se mudaram para lá. "Isso
aqui parece uma cidadezinha do interior." |
O aumento
no número de lançamentos de condomínios horizontais
aconteceu depois da aprovação da chamada Lei de Vilas,
em 1994. Uma mudança na legislação permitiu
construções desse tipo nas zonas 1 (estritamente residenciais).
Em um terreno com 3.000 metros quadrados que
antes comportava um único imóvel, por exemplo, hoje
podem ser construídas doze casas. Nem todos vêm vantagens
nessa mudança. Para alguns urbanistas, a construção
desses condomínios desvirtuaria o bairro. "Muitas vezes o
adensamento é tão grande que você não
tem o mínimo de qualidade de vida", afirma o arquiteto Paulo
Bastos. "Isso sem falar na arquitetura de gosto discutível
que vemos por aí." Os defensores da nova lei argumentam que
essa é a única maneira de viabilizar imóveis
que permaneceriam fechados. "É melhor ser vizinho de um condomínio
do que de uma casa abandonada", diz Henrique Cambiaghi, presidente
da Associação Brasileira dos Escritórios de
Arquitetura (Asbea). "Os moradores queixam-se quando começa
uma obra dessas a seu lado", explica Henrique Prosini, diretor residencial
da imobiliária Bamberg. "Mas, quando as vendas começam,
nos procuram para saber se dá para fazer algo assim também
no terreno deles."
Heudes Regis
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Quando
se separou, em 2000, o advogado Benedicto Porto Neto havia acabado
de reformar uma casa no Jardim Europa. Depois disso, morou em
um flat e em um apartamento alugado. Conheceu o loft no Real
Park por intermédio de um amigo, que gravou em vídeo
imagens do empreendimento. Pai de duas meninas, Neto reservou
o sótão para elas. "Minhas filhas até
me visitam mais." Uma das vantagens é o baixo custo
do condomínio: 130 reais. |
O fato,
porém, é que uma casa, tenha o tamanho ou o estilo
que tiver, proporciona uma sensação de liberdade impossível
de encontrar em um prédio. "Morria de preguiça só
de pensar que precisava esperar o elevador para tudo", diz a tradutora
Maria Cecília Monteiro da Silva, moradora do Alto de Pinheiros.
Para pessoas como ela, o simples fato de abrir a porta e dar de
cara com um jardim já é um prazer e tanto. "Meu quintal
é pequeno, mas tem espaço suficiente para brincar
com meu filho na grama", afirma a administradora de empresas Adriana
Cury, moradora de um sobrado no Morumbi.
A
febre de condomínios horizontais fez com que surgisse um
empreendimento que mistura esse e outro modismo: o loft. Lançado
no início do ano, um conjunto de oito casas com apenas um
dormitório no Real Park é o primeiro do tipo na cidade.
A sala tem pé-direito duplo, o quarto é integrado
e no terceiro pavimento há um sótão com varanda.
Custa 260.000 reais, com sistema de ar-condicionado,
armários e aspirador central. Tem 118 metros quadrados de
área útil (o equivalente a um apartamento de três
dormitórios de classe média). O público-alvo
são profissionais liberais solteiros ou descasados dispostos
a pagar caro pelo tal conceito. "Sempre fui fã dessa sensação
de amplitude do loft, mas a encontrava apenas em apartamentos",
diz o advogado Benedicto Porto Neto, que se mudou para lá
há menos de um mês. "Quando descobri a novidade, estava
com mudança marcada para uma casa de vila. Felizmente, consegui
desfazer o negócio a tempo."
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Para
as vilinhas, até
fila de espera
Heudes Regis
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| Amanda
Rosa, em frente ao seu sobrado de dois dormitórios na
Vila Mariana: 700 reais de aluguel por mês |
Existem
cerca de 5.000 vilas espalhadas por São
Paulo. Surgidas entre as décadas de 20 e 60, várias
delas foram construídas perto de indústrias
para abrigar seus funcionários. Estão por todos
os bairros e resistem bravamente à verticalização
da cidade. A partir dos anos 70, começaram a atrair
a classe média e assumiram a condição
de cult. Normalmente compostas de sobrados geminados e sem
vagas de garagem, as vilas conferem ao morador um ar descolado.
Muitos constroem um portão para controlar a entrada
de visitantes. Como as ofertas são raras, em alguns
desses lugares há uma lista de espera com nomes de
interessados em comprar ou alugar. "Dei sorte porque um amigo
soube que iria vagar uma casa e me apresentei. Tive de aguardar
seis meses, mas valeu a pena", diz a modelo gaúcha
Amanda Rosa. A mudança ocorreu há dois anos.
Antes, ela e o namorado moravam em um apartamento próximo,
na Vila Mariana. Seu sobrado tem dois dormitórios e
o aluguel sai por 700 reais. "Gasto menos do que no apartamento
e ainda posso tomar meu chimarrão na calçada."
Por ser difícil de encontrar, uma casa de vila chega
a valer até 15% mais do que uma similar em rua. "Elas
têm recuo e apresentam boas soluções arquitetônicas",
afirma o arquiteto Paulo Bastos, crítico dos condomínios
horizontais e entusiasta das vilinhas tradicionais. "É
a prova de que dá para morar em um lugar agradável
sem destruir o entorno."
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