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3 de setembro de 2003
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IMÓVEIS

Morada dos sonhos

Com tamanhos variados e preços para
todos os bolsos, os condomínios
horizontais na cidade viram objeto
de desejo para muitos paulistanos

Alessandro Duarte


Heudes Regis
Criada em apartamento, a administradora de empresas Adriana Cury pensava nos futuros filhos quando, três anos atrás, começou a procurar uma casa com o marido. "Queria um lugar para brincar no quintal", diz ela, que há cinco meses teve o pequeno Felipe. Apesar de a fachada de seu sobrado de três dormitórios no Morumbi seguir o padrão do condomínio, Adriana adaptou a área interna de acordo com suas necessidades.

Durante muito tempo, os paulistanos que descartavam a idéia de morar em apartamentos, mas queriam conciliar qualidade de vida com segurança, tiveram poucas opções. Uma das saídas eram loteamentos como Alphaville e Granja Viana, em municípios vizinhos. A distância até a capital e os congestionamentos nesse percurso desencorajavam muitos dos que alimentavam o sonho de viver sem grade nas janelas. Os condomínios horizontais dentro da capital, mais próximos do local de trabalho de seus moradores, surgiram como boa alternativa. Nos últimos cinco anos, tornaram-se o tipo de empreendimento imobiliário que mais cresceu na cidade. Foram 121 lançamentos só em 2002 (veja quadro). Os números podem ser pequenos perto dos 20.000 novos imóveis erguidos por aqui anualmente. A tendência, no entanto, é que proliferem ainda mais. "Mesmo com todas as vantagens, o preço é compatível com o de apartamentos do mesmo padrão", afirma o especialista Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp).

Os primeiros condomínios horizontais construídos eram de alto padrão, com casas na faixa de 1 milhão de reais. Coisa para gente rica. Hoje estão mais acessíveis. "Há muita procura, principalmente por residências com três dormitórios e valores entre 200.000 e 300.000 reais, na medida para o bolso da classe média", diz Gonzalo Fernandez, diretor da Fernandez Mera Negócios Imobiliários. Não faltam opções para várias faixas de orçamento. Existem casas de dois dormitórios em bairros menos valorizados a 85.000 reais. Palacetes em áreas nobres atingem preços acima dos 2 milhões de reais – algumas unidades do Vert Suprême, uma vila de altíssimo padrão ao lado do Shopping Iguatemi, custaram quase 3 milhões. "Independentemente da classe social, todo mundo tem certa nostalgia do tempo em que se podia brincar na rua", afirma o diretor de vendas da imobiliária Coelho da Fonseca, Osvaldo Gomes dos Santos. "Fui criado andando de bicicleta e jogando bola na frente de casa, mas meus filhos nunca puderam fazer isso", conta o empresário Carlos Alberto Monteiro, dono de um imóvel com quatro suítes no Alto da Boa Vista. Pai de Davi, de 13 anos, e de Thiago, de 10, ele viu no condomínio fechado a possibilidade de proporcionar uma vida com mais liberdade aos meninos. "Não preciso me preocupar se eles pedem para sair, pois sei que não passam do portão." Ali, Monteiro também pôde realizar o velho desejo de ter um golden retriever, cachorro de grande porte impossível de criar em apartamento.

Heudes Regis
Da sacada de seu antigo apartamento no Alto da Boa Vista, o empresário Carlos Alberto Monteiro acompanhou passo a passo a construção do outro lado da rua. Curioso, foi conhecer a novidade. "Comprei a primeira casa do empreendimento", lembra. Pagou cerca de 600 000 reais. Casado e pai de dois filhos, tornou possível com a mudança o aumento da "família". Agora, o quintal é reservado ao golden retriever "Lobo". "Um cão desse porte deixaria os moradores do prédio malucos."


A sensação de segurança é o principal apelo do condomínio horizontal. Ao longo dos anos, o aumento da criminalidade fez com que as casas em ruas fossem vistas como um convite constante aos bandidos. E bancar um bom sistema de vigilância não é para qualquer um. Nos condomínios, além da impressão de que um vizinho pode zelar pelo outro, dividem-se os custos da segurança. Na maioria dos lançamentos, os aparatos são os mesmos dos edifícios residenciais bem cuidados. Há cercas elétricas, alarmes, câmeras e guaritas blindadas. Naturalmente, esse não é o único aspecto a ser levado em conta na hora de fechar o negócio. Entre os pontos positivos das vilas estão as despesas de condomínio, em geral mais baixas que as de um apartamento do mesmo padrão, e o relacionamento com os vizinhos. Além do mais, não se corre o risco de ver uma mudança no perfil da rua, o que afetaria o sossego dos moradores.

"Fiquei cinco anos em um prédio e conhecia apenas as pessoas do andar em que morava", lembra a arquiteta Patrícia Furtado, que vive com o marido e dois filhos em um condomínio com 140 unidades em Interlagos. Ela paga 350 reais por mês de condomínio – até 200 reais a menos do que em um edifício de três dormitórios na região. "Quando estou sem empregada, posso pedir para alguém olhar as crianças para mim. É quase uma cidadezinha do interior." Ela faz tanta propaganda do lugar que outros cinco parentes já se mudaram para lá. Há, é claro, certos inconvenientes. Poucos condomínios dispõem de equipamentos de lazer – o de Patrícia é exceção – e, como muitas casas são geminadas ou têm janelas de frente umas para as outras, a privacidade fica prejudicada. Da mesma maneira que vizinhos bacanas ajudam na hora de um aperto, a convivência maior com os outros moradores traz problemas quando surge algum atrito. "Até nos adaptarmos à nova realidade, as brigas eram comuns", diz o empresário Carlos Alberto Monteiro.


Heudes Regis
A arquiteta Patrícia Furtado aceitou o convite de um colega, há cinco anos, para conhecer o projeto de 140 casas coloridas no bairro de Interlagos. Do estande de vendas, ligou para o marido. "Vem correndo porque estou comprando uma casa e você é quem vai pagar", conta, rindo. Ela e os filhos, Bruno e Caio, fazem tanta propaganda do lugar que cinco parentes já se mudaram para lá. "Isso aqui parece uma cidadezinha do interior."

O aumento no número de lançamentos de condomínios horizontais aconteceu depois da aprovação da chamada Lei de Vilas, em 1994. Uma mudança na legislação permitiu construções desse tipo nas zonas 1 (estritamente residenciais). Em um terreno com 3.000 metros quadrados que antes comportava um único imóvel, por exemplo, hoje podem ser construídas doze casas. Nem todos vêm vantagens nessa mudança. Para alguns urbanistas, a construção desses condomínios desvirtuaria o bairro. "Muitas vezes o adensamento é tão grande que você não tem o mínimo de qualidade de vida", afirma o arquiteto Paulo Bastos. "Isso sem falar na arquitetura de gosto discutível que vemos por aí." Os defensores da nova lei argumentam que essa é a única maneira de viabilizar imóveis que permaneceriam fechados. "É melhor ser vizinho de um condomínio do que de uma casa abandonada", diz Henrique Cambiaghi, presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea). "Os moradores queixam-se quando começa uma obra dessas a seu lado", explica Henrique Prosini, diretor residencial da imobiliária Bamberg. "Mas, quando as vendas começam, nos procuram para saber se dá para fazer algo assim também no terreno deles."


Heudes Regis
Quando se separou, em 2000, o advogado Benedicto Porto Neto havia acabado de reformar uma casa no Jardim Europa. Depois disso, morou em um flat e em um apartamento alugado. Conheceu o loft no Real Park por intermédio de um amigo, que gravou em vídeo imagens do empreendimento. Pai de duas meninas, Neto reservou o sótão para elas. "Minhas filhas até me visitam mais." Uma das vantagens é o baixo custo do condomínio: 130 reais.

O fato, porém, é que uma casa, tenha o tamanho ou o estilo que tiver, proporciona uma sensação de liberdade impossível de encontrar em um prédio. "Morria de preguiça só de pensar que precisava esperar o elevador para tudo", diz a tradutora Maria Cecília Monteiro da Silva, moradora do Alto de Pinheiros. Para pessoas como ela, o simples fato de abrir a porta e dar de cara com um jardim já é um prazer e tanto. "Meu quintal é pequeno, mas tem espaço suficiente para brincar com meu filho na grama", afirma a administradora de empresas Adriana Cury, moradora de um sobrado no Morumbi.

A febre de condomínios horizontais fez com que surgisse um empreendimento que mistura esse e outro modismo: o loft. Lançado no início do ano, um conjunto de oito casas com apenas um dormitório no Real Park é o primeiro do tipo na cidade. A sala tem pé-direito duplo, o quarto é integrado e no terceiro pavimento há um sótão com varanda. Custa 260.000 reais, com sistema de ar-condicionado, armários e aspirador central. Tem 118 metros quadrados de área útil (o equivalente a um apartamento de três dormitórios de classe média). O público-alvo são profissionais liberais solteiros ou descasados dispostos a pagar caro pelo tal conceito. "Sempre fui fã dessa sensação de amplitude do loft, mas a encontrava apenas em apartamentos", diz o advogado Benedicto Porto Neto, que se mudou para lá há menos de um mês. "Quando descobri a novidade, estava com mudança marcada para uma casa de vila. Felizmente, consegui desfazer o negócio a tempo."

 

Para as vilinhas, até fila de espera


Heudes Regis
Amanda Rosa, em frente ao seu sobrado de dois dormitórios na Vila Mariana: 700 reais de aluguel por mês

Existem cerca de 5.000 vilas espalhadas por São Paulo. Surgidas entre as décadas de 20 e 60, várias delas foram construídas perto de indústrias para abrigar seus funcionários. Estão por todos os bairros e resistem bravamente à verticalização da cidade. A partir dos anos 70, começaram a atrair a classe média e assumiram a condição de cult. Normalmente compostas de sobrados geminados e sem vagas de garagem, as vilas conferem ao morador um ar descolado. Muitos constroem um portão para controlar a entrada de visitantes. Como as ofertas são raras, em alguns desses lugares há uma lista de espera com nomes de interessados em comprar ou alugar. "Dei sorte porque um amigo soube que iria vagar uma casa e me apresentei. Tive de aguardar seis meses, mas valeu a pena", diz a modelo gaúcha Amanda Rosa. A mudança ocorreu há dois anos. Antes, ela e o namorado moravam em um apartamento próximo, na Vila Mariana. Seu sobrado tem dois dormitórios e o aluguel sai por 700 reais. "Gasto menos do que no apartamento e ainda posso tomar meu chimarrão na calçada." Por ser difícil de encontrar, uma casa de vila chega a valer até 15% mais do que uma similar em rua. "Elas têm recuo e apresentam boas soluções arquitetônicas", afirma o arquiteto Paulo Bastos, crítico dos condomínios horizontais e entusiasta das vilinhas tradicionais. "É a prova de que dá para morar em um lugar agradável sem destruir o entorno."

 

Vantagens...

O esquema de segurança é parecido com o de edifícios
As despesas com o condomínio são, quase sempre, menores que as de um apartamento do mesmo padrão
Dá para deixar as crianças sossegadas na rua
Os vizinhos acabam tendo um relacionamento mais próximo

...e desvantagens das vilas

Poucos condomínios dispõem de piscina, quadras poliesportivas e salões de festa
Como as áreas comuns são usadas constantemente, manter os limites de cada morador não é fácil
Muitas casas são geminadas ou têm janelas de frente umas para as outras, o que diminui a privacidade

 

Cuidados na hora da compra

Antes de fechar negócio, visite o local algumas vezes. Conhecer o estilo de vida dos novos vizinhos é fundamental. O ideal é que eles tenham um nível socioeconômico semelhante ao seu.
Pelo mesmo motivo, vale a pena saber se a maioria ali tem filhos pequenos, animais domésticos ou o hábito de promover festas.
Estude bem a localização. De nada adianta morar num paraíso se, para chegar ao trabalho, você for obrigado a passar horas infernais no trânsito.
Ao adquirir o imóvel na planta, verifique se as metragens apresentadas atendem a todas as suas necessidades. Muitas vezes, as perspectivas mostradas por corretores enganam, e aquele quintal que iria receber uma piscina não serve nem para uma boa churrasqueira.





         
     
 
 
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