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CRÔNICA
Como
é duro cancelar!
Walcyr
Carrasco
Recentemente,
mudei de banco. Recebi novo cartão de crédito, vinculado
à minha nova conta. Resolvi me desligar do anterior, da mesma
empresa. Telefonei. Uma simpática voz cibernética
me pediu para digitar o número do cartão. Apertei
os olhos. A luz, fraca. A custo consegui distinguir os números.
Teclei. A mesma voz me cumprimentou, como se a melhor coisa do mundo
fosse receber minha ligação. Em seguida, começou.
Para x, digite 2, para y digite 4...
Depois
de oito opções minha cabeça fervia. A custo
consegui distinguir a correta: falar com um dos atendentes. A voz
retornou.
No momento todos os nossos ramais estão ocupados...
Iniciou-se
uma música. Terminou. Foi repetida uma, duas, três
vezes. Já ouvi dizer, mas não posso confirmar, que
se trata de uma técnica. Muita gente desiste enquanto espera.
Facilita a vida de quem está do outro lado. Mas eu precisava
cancelar o cartão. Finalmente, uma voz humana vibrando de
felicidade me atendeu.
Fulana, às suas ordens.
Expliquei.
Queria cancelar o cartão. Perguntou-se o motivo.
Já tenho outro igual.
A
voz discorreu a respeito de vantagens acumuladas etc. etc. Superdidática,
como se falasse com um asno. Seus argumentos fizeram com que eu
me sentisse realmente um asno por não aproveitar todas aquelas
vantagens. Mas sou teimoso como um deles. Empaquei.
Quero cancelar, sim!
Fui
interrogado: nome do pai, data de nascimento, alguns dados pessoais.
Normas de segurança. Terminou. Suspirei.
Então, está cancelado?
Aguarde na linha, o senhor vai ser transferido para o departamento
técnico.
O que estou fazendo até agora? Já dei o nome da minha
família inteira. Só faltou dar o número do
meu sapato.
Nova
musiquinha. Nova voz simpática, desta vez de um rapaz.
Eu gostaria de lembrar que o senhor já tem vantagens nesse
cartão e não vale a pena...
Socorro!
Foi preciso quase uma hora de telefone e muita, muita teimosia para
me safar. É surpreendente como é difícil cancelar
certos serviços! Não é só com cartão
de crédito. Eu tinha o celular de uma companhia. Não
pegava na minha chácara. Troquei por outro, que tinha uma
torre enorme ao lado. Para cancelar foram dois meses.
Todos os nossos ramais estão ocupados. Por favor...
Finalmente
um amigo cheio de paciência pendurou-se ao telefone. Ficou
com calo no indicador de tanto teclar, mas conseguiu. Agarrei o
aparelho.
Quero cancelar...
Data de nascimento, por favor. Nome do pai. Número do CPF.
Local de nascimento.
Depois
de um bom tempo, ergo o dedo para desligar.
Está cancelada a assinatura?
Aguarde, o senhor vai falar com o departamento de engenharia.
Aiiiiiii!
Lá fui eu outra vez: data, número... Explicação:
por que não queria mais? Vontade de gritar.
Não quero e pronto! Acabou!
Outro
dia, ganhei uma caixa postal da Telefonica. Só que eu não
queria o mimo. O serviço foi disponibilizado automaticamente
no meu número. Liguei. Depois da sucessão de dígitos,
fui atendido.
Eu não desejo...
Mas é um serviço oferecido sem ônus adicional.
Mesmo assim eu não quero. Prefiro a secretária convencional,
que acende luzinha quando tem mensagem.
O senhor não está entendendo. Essa caixa postal pode
ser acionada...
Deu
vontade de morder o telefone. Exaurido, consegui. Vinte minutos.
Cada
vez é maior o número de empresas que dificultam o
cancelamento de serviços. Na hora de fechar negócio
é facílimo. Para se livrar, é preciso ter nervos!
Falando francamente, às vezes nem é pelo dinheiro.
Mas é duro sentir que alguém está me fazendo
de idiota.
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