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3 de agosto de 2005
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O queridão de todas elas

Sucesso permanente junto ao público
feminino, o ator Antonio Fagundes
retorna ao palco como protagonista
da peça As Mulheres da Minha Vida,
que
fala sobre amor e maturidade na
trajetória de um cinqüentão como ele

Marcella Centofanti

Mario Rodrigues
Fagundes: mais de 1 000 espectadores por dia na semana de estréia
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Galeria de imagens
Vídeo da peça As Mulheres de Minha Vida

56K | 100K | 200K


Nove horas em ponto. As luzes se apagam e a trilha sonora do compositor Fabio Tagliaferri ecoa no Teatro Cultura Artística, no centro da cidade. Começa o espetáculo. Nem um minuto antes, nem um minuto depois. Por toda a platéia de 1 156 lugares, a escuridão se rompe em relógios de pulso e celulares iluminados. São espectadores a checar se a montagem foi mesmo iniciada na hora. "É bonito ver essa cena", diria depois o ator Antonio Fagundes, estrela da noite. Nos últimos vinte anos, ele garante que a pontualidade – sua marca registrada – jamais foi desrespeitada. Em sua quadragésima incursão pelos palcos, ele vive o cinqüentão George, protagonista de As Mulheres da Minha Vida, do dramaturgo americano Neil Simon. A peça estreou para convidados no último dia 21, sob direção de Daniel Filho, que não trabalhava em teatro havia 43 anos. Fagundes encarna um escritor que reflete sobre a maturidade e conflitos amorosos.

Ele está como gosta – é o único homem em cena, cercado por seis atrizes (veja crítica). "A peça foi talhada para o Fagundes", acredita Daniel Filho. "Assim como o personagem, ele é um homem vivido e tem charme e humor."

Prestes a completar 40 anos de carreira, Fá ou Fafá, como Fagundes é chamado pelos colegas, realmente encontrou um texto que tem muito a ver com sua própria história. A atração que o galã desperta nas mulheres permanece intocada há anos. Na platéia, concentram-se centenas de fãs do sexo feminino, afoitas para ver o ídolo de 56 anos. Nem os quilinhos a mais, a cabeleira prateada e a ligeira calva que desponta no topo da cabeça parecem diminuir seu poder de sedução. No ano passado, ele mais uma vez figurou na lista dos homens mais bonitos da televisão num ranking elaborado pela revista Contigo!. Ficou na 18ª posição, à frente de nomes como Murilo Benício, Dado Dolabella e Marcos Pasquim. Entre os cinqüentões, é o mais bem colocado. Na vida privada, a exemplo do personagem George, ele teve dois casamentos. O primeiro, com a atriz e bailarina Clarisse Abujamra, durou catorze anos. Com a atriz Mara Carvalho, sua segunda mulher, ficou doze anos.

Em determinado momento de As Mulheres da Minha Vida, George confessa ter perdido a conta das mulheres com quem se envolveu nos últimos seis meses. Mais uma certa coincidência. Desde que se separou pela segunda vez, em 2000, Fagundes aparece aqui e ali ao lado de namoradas e supostas namoradas. Foi flagrado por revistas de celebridades ou sites de fofoca com nove mulheres nesse período. Nenhuma tinha mais de 35 anos. Com a bela jornalista Priscila Brandão, da TV Globo, manteve seu romance mais longo: nove meses. Nos bastidores do espetáculo, durante a semana passada, ele circulava de mãos dadas com uma vistosa loira que se identificava apenas como Renata. "Fagundes está na plenitude como homem e profissional", diz a ex Clarisse Abujamra. "Este é um momento bonito da vida dele." O ator não gosta de comentar seus relacionamentos. "Às vezes, janto com uma amiga ou com alguém que pode vir a ser uma namorada. Para a imprensa, estou apaixonado", reclama. "Quero curtir a experiência de viver só."

Depois de se separar de Mara, Fagundes mudou-se de mala e cuia para sua chácara em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Na propriedade de 1 alqueire, tem a companhia de quatro cães: um labrador, um dogue alemão e dois filhotes da raça rottweiler. Foi lá que, durante os ensaios de As Mulheres da Minha Vida, promoveu um almoço de domingo para a família e para a equipe do espetáculo. "Ele convidou não só o elenco, mas o iluminador, o cenógrafo e as camareiras", conta a atriz Eliana Rocha, divertidíssima no papel da psiquiatra Edith. Nas horas de folga, gosta de ver DVDs. São cerca de dez por semana. Recentemente, alugou mais de trinta filmes do diretor Alfred Hitchcock, além de ler sua biografia. Ler, a propósito, é outro de seus hobbies favoritos. Atualmente, devora o livro A Mulher Nua, em que o zoólogo inglês Desmond Morris examina o corpo feminino parte por parte para defender a tese de que a mulher é o mais avançado dos animais.

O refúgio em Itapecerica foi comprado por causa de Dinah, filha mais velha de Clarisse e Fagundes. Quando criança, ela sofria de rinite e os pais procuravam ficar longe da poluição paulistana. Hoje ela está com 25 anos e é dona de quatro restaurantes. Além de Dinah, o casal teve mais dois filhos: o publicitário Antonio, 24 anos, e a estudante Diana, 22. Caloura de Rádio e TV, Diana costuma chegar cedo ao Cultura Artística para fazer companhia ao pai no camarim. Assistiu a As Mulheres da Minha Vida quatro vezes na primeira semana de apresentações. Fagundes é pai também de Bruno, 16 anos, fruto de seu casamento com Mara Carvalho.

Esta é a décima vez que Fagundes sobe aos palcos do Cultura Artística, um dos maiores teatros da cidade. "Gosto de público", afirma. E o público, dele. Segundo o ator, que produz seus espetáculos, cada montagem costuma ser vista por cerca de 200.000 espectadores. "O charme, o glamour, a simpatia e a inteligência do Fagundes atraem as pessoas", derrete-se Mara. Oleanna, que ele encenou em 1996 ao mesmo tempo que trabalhou na comédia Vida Privada, é seu único fracasso recente de bilheteria. Entre o drama de David Mamet e o texto leve escrito por Mara Carvalho, os espectadores preferiram o segundo. "Foi um erro estar em duas peças ao mesmo tempo", admite Fagundes. Na semana passada, de quinta a domingo, 4.550 pessoas aplaudiram a nova montagem. "Parte da classe teatral torce o nariz porque considera seus espetáculos muito comerciais", aponta Maria Lúcia Candeias, professora de artes cênicas na Unicamp e crítica do jornal Gazeta Mercantil. "Comerciais ou não, eles costumam ter bom elenco, texto, produção e direção."

O talento esbanjado em 26 novelas ajuda a encher as cadeiras do teatro. "Tive a sorte de contar com ele como protagonista de meus principais trabalhos", diz o autor Benedito Ruy Barbosa, referindo-se às novelas Renascer, Rei do Gado e Terra Nostra. "Escrevi Renascer pensando nele. Precisava de um homem másculo, de imagem forte." Ruy Barbosa, escalado para escrever uma novela em 2006, pensa em convidá-lo novamente para o papel principal. Difícil é saber se irá aceitar. "As novelas estão cada vez mais longas", lamenta Fagundes. "É massacrante para o público, que fica refém dos capítulos, e para o ator, que grava até quarenta cenas por dia." Atualmente, ele grava a segunda versão do seriado Carga Pesada.

Fagundes, carioca do bairro do Leblon, mudou-se para São Paulo aos 8 anos. Morou em Higienópolis, estudou no Colégio Rio Branco e prestou vestibular para engenharia no Mackenzie. Foi aprovado, mas nem se matriculou. Nas últimas três décadas, por causa da Globo, sua vida tem se dividido entre as duas cidades. "Sou mais paulistano, com certeza", afirma. De segunda a quarta, ele mora no Rio de Janeiro, em um apartamento na Barra da Tijuca. Por aqui, adora ir a restaurantes e ao teatro. A última montagem que viu foi o musical O Fantasma da Ópera, há três semanas. No Rio, curte a tranqüilidade de circular sem ser abordado a todo instante, já que, em São Paulo, é perseguido por tietes onde quer que esteja: shopping, supermercado ou cinema. "Para piorar, agora todo mundo tem câmera digital. E ninguém sabe manusear", resmunga o ator, conhecido por ser avesso a autógrafos. "Trabalho de domingo a domingo. Quando tenho dez minutos para ler o capítulo de um livro, no saguão do aeroporto, querem que eu tire foto."

Há quatro anos, Fagundes requereu sua aposentadoria, mas ainda não recebeu um pagamento sequer. O INSS alega faltar documentos que comprovem o recolhimento de impostos. "Faço questão de receber. Paguei por isso", diz. Ex-garoto-propaganda do Partido dos Trabalhadores, ele menciona no programa do espetáculo os atuais escândalos de corrupção, a excessiva carga tributária do país e o trânsito da cidade. "O PT está sendo massacrado em razão de seu passado brilhante", acredita. "Talvez o problema seja o sistema político, não o partido." Embora continue petista, ele diz que, nas próximas eleições, pensará duas vezes para escolher os candidatos. "É um sinal de amadurecimento", reconhece.

 

Altos e baixos de Antonio Fagundes

por Miguel Barbieri Jr.

Os melhores...


Jorge Cisne
TELEVISÃO
Embora Fagundes seja uma figurinha carimbada nas novelas de Benedito Ruy Barbosa (como Renascer e O Rei do Gado), não há produção que tire o troféu do "vilão-canalha" Felipe Barreto, personagem de O Dono do Mundo, de Gilberto Braga, que foi ao ar em 1991. Na trama, ele interpretava um cirurgião plástico que, para ganhar uma aposta, tirava a virgindade da personagem de Malu Mader antes do marido dela (papel de Tadeu Aguiar).


Divulgação
CINEMA
Aos 50 anos de idade, o astro grisalho encontrou um adorável personagem na comédia romântica Bossa Nova, de Bruno Barreto (2000). Na pele do advogado descasado Pedro Paulo, Fagundes se encantava por uma professora de inglês, interpretada pela americana Amy Irving. A atuação rendeu-lhe elogios até de Steven Spielberg. Já as estrelas Diane Keaton e Kathleen Turner notaram mesmo seu jeito sexy de ser.


Jorge Rosenberg
TEATRO
Em 1985, o ator estrelou, ao lado de Bruna Lombardi e sob a direção de Flávio Rangel (1934-1988), Cyrano de Bergerac, a magnífica obra-prima do francês Edmond Rostand. "Era um texto difícil, feito com paixão e competência", avalia o crítico de teatro Aguinaldo Ribeiro da Cunha.



...e os piores momentos do ator


Fernando Pimentel
TELEVISÃO
Resposta machista ao seriado feminista Malu Mulher, a série Amizade Colorida rendeu protestos e cortes da censura. Em apenas onze episódios, exibidos em 1981, o ator vivia o fotógrafo Edu, um "colecionador" de mulheres em transas sem compromisso. Além das situações vulgares, ficaram famosas as constantes aparições do então sex symbol a bordo de ridículas sunguinhas.


Rio Filme
CINEMA
Nem mesmo as pornochanchadas que fez no início da carreira foram tão desastrosas quanto Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão, cinebiografia do compositor carioca lançada em 2000. O astro fazia o personagem-título na fase madura. Filho do diretor, Marcos Palmeira interpretou Villa-Lobos na juventude. Resultado: críticas nada elogiosas e apenas um mês em cartaz em São Paulo


Divulgação
TEATRO
O diretor Ulysses Cruz reuniu, em 1992, Fagundes e Vera Fischer para a montagem da peça Macbeth, de William Shakespeare. O galã suou a indumentária, raspou o cabelo, mas não adiantou. "Ele me pareceu mais o inseguro e hesitante Hamlet do que Macbeth", analisa Maria Lúcia Candeias, crítica da Gazeta Mercantil.

 

Os amores da vida real


J. Ferreira da Silva
Rogerio Voltan
Com a primeira mulher, a atriz e bailarina Clarisse Abujamra, em 1974: "Fagundes está na plenitude como homem e profissional. É um momento bonito da vida dele" Em 2000, pouco antes de desfazer o segundo casamento, com a atriz e escritora Mara Carvalho: "O charme, o glamour e a inteligência do Fagundes levam as pessoas ao teatro", diz ela


João Santos
Fabio Cordeiro
Ele e a jornalista Priscila Brandão, da TV Globo, sua namorada entre 2002 e 2003: relacionamento de nove meses foi o mais duradouro do ator nos últimos cinco anos A atriz Viétia Zangrandi, uma das nove namoradas atribuídas ao galã nos últimos cinco anos: "Às vezes, janto com uma amiga e a imprensa diz que estou apaixonado"

 

Feitos um para o outro

Fagundes é a cara do personagem
que o americano Neil Simon parece
ter criado para ele

Alvaro Leme


João Caldas
Paloma e Fagundes: o tempo também passa para os galãs

Sob pena de terminar sozinho, o escritor cinqüentão George se vê forçado a exorcizar seus fantasmas interiores. Ora risíveis, ora dramáticos, os conflitos do protagonista de As Mulheres da Minha Vida servem para ilustrar a fase atual de seu intérprete, Antonio Fagundes: a maturidade. Isso fica evidente na atuação sem trejeitos exagerados e na ausência de recursos para disfarçar que o tempo também passa para os galãs.

Quase toda a ação se desenrola dentro da cabeça do personagem. Por ela desfilam memórias das figuras femininas que o circundam: a irmã (Chris Couto, ótima), a psiquiatra (Eliana Rocha), a filha (vivida em idades diferentes por Amazyles de Almeida e Júlia Novaes) e a primeira mulher (Paloma Duarte), morta num acidente. Elas ajudam George a decidir os rumos de seu casamento em crise com Diana (Fernanda D'Umbra). O time de boas atrizes parece jogar com o único objetivo de fazer Fagundes brilhar. Assim, nenhuma delas rouba a cena do astro. Um bom exemplo está na divertida seqüência em que George vai ao banheiro. Quando ele sai de cena, todas se conservam mudas e congeladas até sua volta.

O cenário estilizado utiliza rampas na representação de ambientes reais e imaginários. Em sua simplicidade, valoriza a direção de atores, assinada por Daniel Filho. Inteligente, o texto do dramaturgo americano Neil Simon (traduzido com algumas adaptações pelo cineasta Domingos de Oliveira) extrai de um fio de amargura altas doses de humor. Não aborrece os fãs de drama e diverte bastante a quem adora uma comédia.

As Mulheres da Minha Vida (90min). 12 anos. Direção de Daniel Filho. Estreou em 22/7/2005. Teatro Cultura Artística (1 156 lugares). Rua Nestor Pestana, 196, centro, 3258-3616. Quinta e sábado, 21h; sexta, 21h30; domingo, 18h. R$ 40,00 a R$ 80,00. Bilheteria: 12h/19h (seg. a qua.); a partir das 12h (sex. a dom.). Cc.: D, M e V. FP, IC, TN. Até 27 de novembro.

 

     
   
 
 
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