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EDUCAÇÃO
Escolas high-tech
Equipamentos digitais e interativos,
como simuladores de realidade virtual
e robôs, são cada vez mais utilizados
por colégios paulistanos e ameaçam
decretar a aposentadoria do
giz e da lousa convencional
Edison Veiga
Daniela Toviansky
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| Aula de robótica para a 3ª e a 4ª série do
Dante Alighieri: crianças aprendem a montar e programar robôs
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Antes de ir para a escola,
os adolescentes Rudolf e Christian, de 16 anos, colocam na mochila
cadernos, lápis, borracha e um laptop. Isso mesmo, laptop.
Enquanto os professores falam sobre química orgânica,
Revolução Francesa ou citologia, eles ficam o tempo
todo conectados à internet. Fazem pesquisas, visitam sites
relacionados à aula e, claro, batem papo com colegas via
MSN Messenger (programa de mensagens instantâneas). Isabela,
14 anos, aprende geografia sobrevoando o Brasil graças a
óculos 3D e simuladores de realidade virtual. Ela sente as
nuances do relevo e observa as diferenças entre os diversos
tipos de vegetação existentes no país. Já
para Guilherme, também de 14 anos, a grande atração
de sua escola é o observatório astronômico,
com o qual descobre os segredos do universo. O uso de computadores
e afins na sala de aula começou tímido nos anos 80,
consolidou-se no fim da década seguinte e virou uma verdadeira
obsessão neste início do século XXI. "A tecnologia
torna o ato de aprender mais prazeroso e interativo, estimulando
a criatividade dos estudantes", afirma a consultora educacional
Andrea Ramal, autora do livro Educação na Cibercultura.
Daniela Toviansky
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| Geração "sempre on-line": no Santo Américo,
a internet pode ser acessada nas salas de aula e no pátio durante
o recreio |
A lousa digital é uma das
atrações dessa nova era de ensino. Trata-se de uma
tela ligada a um computador na qual o professor pode apresentar
o conteúdo das aulas de forma multimídia, utilizando
vídeos, textos, imagens e sites. Uma caneta especial faz
as funções de mouse. Estima-se que em São Paulo
haja 500 lousas digitais no país, elas não
chegam a 1 000 , em mais de 100 instituições
de ensino. Cada uma custa cerca de 10 000 reais. Bandeirantes, Cidade
de S. Paulo, Dante Alighieri, Etapa, Graduada, I.L. Peretz, Magno,
Miguel de Cervantes, Objetivo, Pentágono, Pueri Domus, Rio
Branco, Santo Américo e Visconde de Porto Seguro são
algumas das escolas particulares paulistanas que têm o equipamento
em suas unidades. O Bandeirantes começou a instalá-lo
há quatro anos. Atualmente, há uma lousa digital em
40% de suas salas.
Fernando Moraes
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| Lousa digital do Miguel de Cervantes: interatividade
deixa o ensino mais atraente |
Mas não é só
por meio desse instrumento que os alunos modernos aprendem. Aula
de robótica se tornou comum, seja na grade curricular, seja
como disciplina optativa. Utilizando peças semelhantes às
do jogo Lego, pequenos motores, roldanas e engrenagens, os estudantes
criam engenhocas que se movem e realizam funções como
levantar um peso amarrado a um barbante, ultrapassar obstáculos
ou empurrar uma bola. Os jovens projetistas determinam os movimentos
a serem executados em um programa de computador. No Colégio
Magno, alunos aprendem, sob a orientação de um astrônomo,
a analisar as estrelas com a ajuda de telescópio. "Uma aula
de química pode ser bem mais interessante se, a partir da
cor dos astros, estimularmos os estudantes a identificar os gases
de sua composição", diz o coordenador Sérgio
Maciel.
Engenhosos aparelhos são
a principal vitrine tecnológica da rede Objetivo. Softwares
educativos associados a estruturas que simulam um tapete voador
fazem com que o estudante "viaje" pelo mundo e observe o ciclo da
água, as variações de vegetação
e as diferenças geográficas entre os países.
"Com a realidade virtual, colocamos o conteúdo didático
no 'sonho' dos alunos, fazendo com que eles adquiram o conhecimento
de dentro para fora", explica Almir Brandão, diretor de tecnologia
do Objetivo e um dos mentores dos equipamentos. Outra vedete é
o Viajante Virtual, um caminhão adaptado para levar as turmas,
munidas de óculos 3D, a "tours espaciais" ou "passeios de
montanha-russa".
Fotos Daniela Toviansky
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| Simuladores de realidade virtual do Objetivo
com imagem projetada: estudantes "viajam" enquanto aprendem
lições de geografia |
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Os avanços trilham caminhos
diferentes, mas algo parece ser comum a todos os colégios:
a internet se firmou como aliada no processo de aprendizado. No
Santo Américo, freqüentemente a garotada utiliza laptops,
aproveitando a conexão sem fio disponibilizada em todos os
cantos, do pátio às salas de aula. A Graduada tem
dois laboratórios com vinte computadores portáteis
cada um, que são utilizados pelas salas de aula de acordo
com a necessidade. No Dante Alighieri, foi criado um ambiente de
ensino a distância, on-line, já utilizado por 35 de
seus 223 professores. Lá os alunos encontram conteúdos
complementares aos das aulas e participam de sessões de tira-dúvidas
e enquetes. De acordo com a atividade, os estudantes também
escrevem em sites e blogs. É exatamente no uso da internet
que os cuidados devem ser redobrados. Se o aluno criar uma comunidade
difamatória no site de relacionamentos Orkut ou lançar
calúnias em um blog a partir de um dos computadores do colégio,
por exemplo, a instituição pode responder pelos crimes
judicialmente. "O mau uso da tecnologia traz grandes riscos e conseqüências
para a escola e para os pais", afirma a advogada Patricia Peck,
especialista em direito digital.
Fernando Moraes
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| Telescópio do Magno: utilizado nas aulas de
geografia, história, química e física |
Algumas inovações
enfrentam resistência dos professores, seja por acharem que
podem "emburrecer" os alunos, seja por dificuldade de adaptação.
A solução, segundo o diretor de tecnologia do Bandeirantes,
Sérgio Boggio, está no treinamento. "Os professores
precisam se sentir seguros para utilizar os recursos, sem medo de
falhar", afirma. Segundo dados da Escola do Futuro, núcleo
da Universidade de São Paulo que pesquisa novas tecnologias
na educação, é preciso investir em capacitação
uma vez e meia o valor gasto com aparelhagem. E há quem ainda
não confie totalmente no uso dos computadores. "Um dos maiores
problemas do ensino é o fato de ele ser excessivamente abstrato",
aponta Valdemar Setzer, professor do departamento de ciências
da computação da Universidade de São Paulo
e autor do livro Meios Eletrônicos e Educação:
uma Visão Alternativa. "Qualquer tecnologia irá
torná-lo mais abstrato ainda." Para ele, os colégios
investem em equipamentos por puro marketing, na expectativa de atrair
mais alunos. Setzer acredita que os computadores podem causar prejuízos
ao desenvolvimento físico, intelectual e psíquico
das crianças. Acostumadas a estar a um clique de tudo, elas
assumiriam posturas imediatistas e, em casos extremos, se isolariam
do convívio social. Como antídoto, o professor sugere
aulas de arte e artesanato para desenvolver a imaginação.
Afinal, se as coisas continuarem nesse ritmo, logo, logo a criançada
só vai se comunicar via MSN Messenger.
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Manual de instruções
Algumas regras imprescindíveis
à boa
utilização da tecnologia em sala de aula
A escola não
pode permitir que as tecnologias estejam acima das relações
interpessoais.
Cada aluno deve
ter uma senha de acesso aos computadores. Isso garante a segurança
tanto do usuário quanto da escola.
A navegação
pela internet precisa ser monitorada por programas que bloqueiam
sites indevidos (conteúdo pornográfico, jogos
e salas de bate-papo).
Cabe ao professor
sempre orientar o trabalho. Se sua instrução
for apenas a de "procurar em sites", o aluno tem grande possibilidade
de se perder no emaranhado da internet.
Aulas de informática
e robótica devem ser equilibradas, na grade curricular,
com as de cunho artístico e humanístico.
Os livros impressos
não podem ser substituídos totalmente pelo conteúdo
digital. Especialistas acreditam que a fragmentação
e a velocidade das novas mídias causam indisciplina
mental, diminuindo o poder de concentração.
A internet ainda
é vista como terra de ninguém. Por isso, a prática
do bullying (intimidar, atormentar e ofender colegas) é
comum em comunidades do Orkut e blogs de adolescentes. É
papel da escola conscientizar os alunos.
É necessário
que o colégio tenha uma proposta pedagógica
para utilizar as novas tecnologias. Do contrário, o
que se verá é apenas um modismo.
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