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3 de março de 2004
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PERFIL

Wanderley Nunes,
sem cortes

Ele é marqueteiro até dizer chega, inaugurou
seu quinto salão de beleza e coleciona
clientes famosas. Com um fraco pela
indiscrição, o cabeleireiro fala o que
pensa do penteado alheio. Da prefeita
Marta Suplicy à cantora Gal Costa,
ninguém escapa de suas tesouradas

Lúcia Monteiro


Alexandre Schneider
Wanderley numa Philippe Starck: ele ganhou seis cadeiras da marca francesa e reservou uma só para atender a primeira-dama em São Bernardo do Campo
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Os cinco salões de Wanderley Nunes estão sempre apinhados de gente. São freqüentados por algumas das mulheres mais poderosas do país, da übermodel Gisele Bündchen à primeira-dama Marisa Letícia da Silva, da cantora Gal Costa à apresentadora global Fátima Bernardes. A partir de julho, o espaço para ouvir confissões e testemunhar saias-justas dobrará de tamanho. Seu Studio W do Shopping Iguatemi passará a ter 1 200 metros quadrados. Será o maior salão de beleza de São Paulo. Entre escovas, sprays e tinturas, Wanderley fica por dentro de tudo. Ouve bastante, e fala mais ainda. É uma espécie de metralhadora giratória que dispara tesouradas para todo lado. O que se diz enquanto ele ajeita o penteado logo se espalha e ganha repercussão. Estrelas e aspirantes ao estrelato sabem disso e não perdem tempo. Correm para lá assim que eliminam uns quilinhos, se separam do marido, arrumam um namorado bonitão ou simplesmente quando querem comentar o penteado alheio. Aliás, nesse quesito ele é imbatível. Emenda uma história na outra, compensa uma crítica com um elogio, morde, assopra e costuma ser mais ácido, obviamente, com quem não é seu cliente.

Não se acanha de dizer maldosamente, por exemplo, que a prefeita Marta Suplicy (exclusiva do concorrente Celso Kamura) é "desfavorecida pela pouca quantidade de cabelo", que está cansado da mesmice do visual da atriz Malu Mader ou que a apresentadora Angélica "está horrível, coitada, com o comprimento da frente desproporcional ao de trás". Detalhe: sem se importar se há seis ou sessenta pessoas em volta. "Venho de Salvador só para vê-lo", conta Gal Costa, que está ganhando mechas cor de mel inspiradas em seus cães huskies siberianos. Ainda assim, a cabeleira da baiana também não escapa: "É crespa e escura demais".


Alexandre Schneider
Com a yorkshire Mel, no apartamento no Morumbi: cama importada da Holanda

A melhor defesa contra suas tesouradas é tê-lo como amigo. Uma medida da paparicação são os mimos que Wanderley recebe. Na segunda anterior ao Carnaval, ganhou uma mala de couro da Armani com cartãozinho assinado por Cláudia Raia e Edson Celulari. No dia seguinte, faturou do apresentador Fausto Silva um par de óculos escuros. Formou uma adega de 400 vinhos sem desembolsar um tostão e, dos quarenta relógios de sua coleção, jura ter comprado apenas três – os demais foram todos presenteados, inclusive um Franck Muller, de ouro. Como se acha uma pessoa importante, que influencia o comportamento dos outros, o coiffeur não se sente constrangido com os presentes e muito menos em pedir descontos, cortesias, permutas e patrocínios. Na semana passada, solicitou doze espelhos, de graça, a um fabricante de móveis para salões de beleza. Há dez dias, pegou um BMW blindado emprestado de uma concessionária para levar modelos à festa de abertura do Studio W do Shopping Anália Franco. O espumante do evento foi fornecido pela Chandon, que nada cobrou pela gentileza. "O dinheiro não aceita desaforo. Tento conseguir de graça tudo o que posso", admite.

Arquivo pessoal
Kart: hobby com o filho Pedro


Numa luta diária contra a inveja – confessa que se trancou por duas horas no banheiro esperando o sentimento passar quando Mauro Freire saiu na capa de uma revista –, hoje distribui elogios para seus concorrentes. "Não sou melhor do que nenhum deles", diz, esforçando-se para parecer sincero. A outra ponta da tesoura é mais afiada. "Ele é um bom administrador. Eu sou artista", espeta Marco Antônio de Biaggi, do MG Hair Design. No fim do ano passado, Celso Kamura chamou Wanderley Nunes de "cabeleireiro fast food" e não aceitou o convite para abrirem um negócio em parceria no Shopping Ibirapuera.

Os fregueses parecem não se importar com nada disso. Afirma ter 2.000 assíduos, com horário fixo reservado para o ano inteiro. Para lhe entregar as madeixas, é preciso marcar com duas semanas de antecedência. Ninguém escapa do ritual. Wanderley repete o nome da cliente o maior número de vezes possível, faz acrobacias com a tesoura no acabamento e dá dois beijinhos no fim de cada corte – são três por hora, 25 por dia, a 250 reais. Numa conta rápida, fatura 125.000 reais por mês, fora escova, lavagem, tintura e o que os outros 63 cabeleireiros arrecadam em seus cinco salões. Além do Iguatemi, está no Shopping Pátio Higienópolis, no Shopping Anália Franco, no Rio de Janeiro e em Campinas.

Graças à propaganda feita por Gisele Bündchen, Wanderley já trabalhou em Nova York. A modelo o conheceu ainda menina, aos 14 anos de idade, quando começava a carreira em São Paulo. Wanderley conta que Gisele chegou à cidade tão dura que ele teve de lhe pagar o táxi na primeira vez que apareceu no salão. Claro, nunca cobrou nada. Nem o táxi nem os cortes. "Vi que tinha potencial para fazer sucesso e resolvi investir", garante. Usa a mesma lógica para dar descontões a quem interessa. Por exemplo, à primeira-dama Marisa Letícia. Antes do início da campanha de Lula à Presidência da República, ela cortou o cabelo no Studio W duas vezes, por recomendação de uma amiga, mas com um assistente – Wanderley não tinha horário. Na terceira vez, quando soube que a mulher de Lula estava por lá, fez questão de atendê-la. Depois disso, ficaram inseparáveis. "Ele acertou meu corte. É um profissional muito competente", afirma Marisa. "Acima de tudo, é uma pessoa que não esqueceu sua origem humilde e manteve a simplicidade." A polêmica sobre quem pagava suas passagens para Brasília foi tamanha (ele jura que usava milhas fornecidas por fabricantes de produtos) que agora Wanderley a atende mensalmente no apartamento de São Bernardo do Campo, para onde mandou uma cadeira assinada pelo francês Philippe Starck. No início, Marisa não desembolsou nada pelos serviços. "Para evitar constrangimentos, passei a cobrar só 158 reais", diz o cabeleireiro. "Sei que o salário de Lula é curto, de 8.000 reais."

Ao lado dos filhos Pedro, de 15 anos, e Drielly, 17, Wanderley luta para combater o estereótipo de que muitos cabeleireiros são gays. "Não sou. Comigo é tudo oito ou oitenta. Se fosse homossexual, seria logo um travesti", brinca. "Procuro agir com delicadeza e, se desmunheco, minha mulher me avisa." É, sim, uma pessoa extremamente vaidosa. Com 44 anos, toma todo dia doze cápsulas de vitaminas e suplementos receitados por seu médico ortomolecular e diz que fez sete plásticas (seis no nariz e uma ao redor dos olhos). Só veste jeans da caríssima marca italiana Diesel. Outros luxos são a cama importada da Holanda, regulável por controle remoto, e um home theater em cada quarto de seu apartamento, no Morumbi. A última investida foi num equipamento fotográfico digital que custa mais de 40.000 reais. Vai usá-lo para fazer uma das coisas de que mais gosta: tietar. Adora ser clicado ao lado de celebridades e espalhar as imagens por todo canto.

A batalha para obter tamanho prestígio foi longa. Nascido em Maringá, no interior do Paraná, Wanderley é o caçula de uma família modesta, de nove irmãos. Vendeu coxinha e engraxou sapatos antes de herdar a profissão do pai, barbeiro a vida toda. Começou a cortar em domicílio, nos anos 70. Cobrava pouco e, à noite, distribuía seu telefone em danceterias da moda. Na base do boca-a-boca, conquistou endinheiradas no Morumbi. Foi na casa de uma delas que ensaiou sua primeira tintura, "loiro sueco". Aplicou a técnica aprendida minutos antes com um vendedor de farmácia e saiu de lá morrendo de medo de que a mulher ficasse careca. Por sorte, ela adorou e o indicou para uma dezena de amigas. "Não sabia se eu era bom ou se as ricaças eram mãos-de-vaca", afirma. Desde então, Wanderley desenvolveu uma tática que usa até hoje para cativá-las: "Falo para muita madame que estou emocionado em atendê-la. Tudo mentira". Calma, ele explica: "Mentira, não. Marketing!".

 

Elas por ele

Maldades e afagos de Wanderley Nunes
sobre clientes e não-clientes


Bob Paulino
André N./Strana
GISELE BÜNDCHEN
"É o cabelo mais maravilhoso que eu conheço. Ela acorda linda!"
SANDY
"Quero mudar, e ela continua com esse cabelão. Tem pavor dos cortes mais curtos."


André Valentim/Strana
Heudes Regis
FÁTIMA BERNARDES
"De vez em quando ela erra na maneira de pentear. Quando isso acontece, ligo e peço que capriche mais."
DANIELLA CICARELLI
"Precisa aprender a ser mais fiel a seu cabeleireiro. Da última vez que veio ao salão, reclamei. Ela vai acabar se prejudicando com essa inconstância."


Arthur Cavalieri/Strana
Ronaldo Ceravolo
MALU MADER
"Já é mais do que hora de dar uma repaginada. Está com o mesmo visual há muito tempo."
HEBE CAMARGO
"É uma das únicas pessoas que ainda usam esse tipo de cabelo. Adoraria mudar seu visual durante o programa."


Marcelo Correa
Epitácio Pessoa/Agência Estado
GLÓRIA MARIA
"Pelo cabelo que tem, até que posso dizer que está numa fase boa. Vou mandar uns produtos de presente."
MARTA SUPLICY
"Estava muito mais bonita na campanha, num estilo Catherine Deneuve. Pelo pouco cabelo que tem, até que o Celso Kamura faz um bom trabalho. Mas não pode usar comprido e liso. Precisa ganhar textura e movimento."


Ricardo Stuckert/Presidência da República
Marcio Capovilla
MARISA LETÍCIA
"É um dos cabelos mais fáceis em que já coloquei a mão. Durante a campanha, eu cortava de graça. Agora cobro, para evitar constrangimentos, mas só 158 reais. Sei que o presidente Lula ganha pouco."
GAL COSTA
"Seu cabelo é trabalhoso, crespo, escuro demais. Estamos clareando. Quem sabe daqui a quatro meses, se ela me obedecer, fica melhor."


Leonardo Lemos
João Raposo
FERNANDA LIMA
"A cor vai combinar mais no inverno. Não dá para tomar sol, ficar toda bronzeada e depois pintar o cabelo de vermelho, né?"
DÉBORA BLOCH
"Fica lindo tanto liso quanto crespo. O meio-termo é o problema. Além disso, não pode passar a mão no cabelo, senão espeta."


André Nazareth/Strana
Zé Paulo Cardeal/Rede Globo
ANGÉLICA
"Está horrível, coitada... O comprimento da frente está muito desproporcional ao de trás. Fica um rabo estranho. E olha que ela tem o cabelo bonito."
ANA PAULA PADRÃO
"Ela erra no topete. Exagera, o cabelo fica duro demais."


Selmy Yassuda
GIULIA GAM
"É um dos cabelos mais difíceis que já vi. Tem muito pouco... Bem curtinho, dou nota 9. Mas, quando deixa crescer, não passa de 5."

 

Momento tiete

As celebridades que aparecem no salão não escapam das lentes de Wanderley Nunes – ele coleciona e divulga fotos suas com artistas e modelos


Letícia Spiller: cabelo escuro deu a maior repercussão Rubinho Barrichello: afilhado de casamento


A top Carolina Tavares: cliente desde o início da carreira Celulari e Cláudia Raia: uma mala Armani de presente para o cabeleireiro


Sandy: tira as pontinhas todo mês, em Campinas Rodrigo Santoro: fiel desde 1998


Gisele: ele diz que até já lhe emprestou dinheiro para o táxi Paloma Duarte: mudanças para as novelas da Globo

Fotos Arquivo pessoal

         
     
 
 
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