| |
|
|
 |
|
PERFIL
Wanderley
Nunes,
sem cortes
Ele
é marqueteiro até dizer chega, inaugurou
seu quinto salão de beleza e coleciona
clientes famosas. Com um fraco pela
indiscrição, o cabeleireiro fala o que
pensa do penteado alheio. Da prefeita
Marta Suplicy à cantora Gal Costa,
ninguém escapa de suas tesouradas
Lúcia
Monteiro
Alexandre Schneider
 |
| Wanderley
numa Philippe Starck: ele ganhou seis cadeiras da marca francesa
e reservou uma só para atender a primeira-dama em São Bernardo
do Campo |
|
|
Os cinco salões de Wanderley Nunes estão sempre apinhados
de gente. São freqüentados por algumas das mulheres
mais poderosas do país, da übermodel Gisele Bündchen
à primeira-dama Marisa Letícia da Silva, da cantora
Gal Costa à apresentadora global Fátima Bernardes.
A partir de julho, o espaço para ouvir confissões
e testemunhar saias-justas dobrará de tamanho. Seu Studio
W do Shopping Iguatemi passará a ter 1 200 metros quadrados.
Será o maior salão de beleza de São Paulo.
Entre escovas, sprays e tinturas, Wanderley fica por dentro de tudo.
Ouve bastante, e fala mais ainda. É uma espécie de
metralhadora giratória que dispara tesouradas para todo lado.
O que se diz enquanto ele ajeita o penteado logo se espalha e ganha
repercussão. Estrelas e aspirantes ao estrelato sabem disso
e não perdem tempo. Correm para lá assim que eliminam
uns quilinhos, se separam do marido, arrumam um namorado bonitão
ou simplesmente quando querem comentar o penteado alheio. Aliás,
nesse quesito ele é imbatível. Emenda uma história
na outra, compensa uma crítica com um elogio, morde, assopra
e costuma ser mais ácido, obviamente, com quem não
é seu cliente.
Não se acanha de dizer maldosamente, por exemplo, que a prefeita
Marta Suplicy (exclusiva do concorrente Celso Kamura) é "desfavorecida
pela pouca quantidade de cabelo", que está cansado da mesmice
do visual da atriz Malu Mader ou que a apresentadora Angélica
"está horrível, coitada, com o comprimento da frente
desproporcional ao de trás". Detalhe: sem se importar se
há seis ou sessenta pessoas em volta. "Venho de Salvador
só para vê-lo", conta Gal Costa, que está ganhando
mechas cor de mel inspiradas em seus cães huskies siberianos.
Ainda assim, a cabeleira da baiana também não escapa:
"É crespa e escura demais".
Alexandre Schneider
 |
| Com
a yorkshire Mel, no apartamento no Morumbi: cama importada da
Holanda |
A
melhor defesa contra suas tesouradas é tê-lo como amigo.
Uma medida da paparicação são os mimos que
Wanderley recebe. Na segunda anterior ao Carnaval, ganhou uma mala
de couro da Armani com cartãozinho assinado por Cláudia
Raia e Edson Celulari. No dia seguinte, faturou do apresentador
Fausto Silva um par de óculos escuros. Formou uma adega de
400 vinhos sem desembolsar um tostão e, dos quarenta relógios
de sua coleção, jura ter comprado apenas três
os demais foram todos presenteados, inclusive um Franck Muller,
de ouro. Como se acha uma pessoa importante, que influencia o comportamento
dos outros, o coiffeur não se sente constrangido com
os presentes e muito menos em pedir descontos, cortesias, permutas
e patrocínios. Na semana passada, solicitou doze espelhos,
de graça, a um fabricante de móveis para salões
de beleza. Há dez dias, pegou um BMW blindado emprestado
de uma concessionária para levar modelos à festa de
abertura do Studio W do Shopping Anália Franco. O espumante
do evento foi fornecido pela Chandon, que nada cobrou pela gentileza.
"O dinheiro não aceita desaforo. Tento conseguir de graça
tudo o que posso", admite.
Arquivo pessoal
 |
| Kart:
hobby com o filho Pedro |
Numa luta diária contra a inveja confessa que se trancou
por duas horas no banheiro esperando o sentimento passar quando
Mauro Freire saiu na capa de uma revista , hoje distribui
elogios para seus concorrentes. "Não sou melhor do que nenhum
deles", diz, esforçando-se para parecer sincero. A outra
ponta da tesoura é mais afiada. "Ele é um bom administrador.
Eu sou artista", espeta Marco Antônio de Biaggi, do MG Hair
Design. No fim do ano passado, Celso Kamura chamou Wanderley Nunes
de "cabeleireiro fast food" e não aceitou o convite para
abrirem um negócio em parceria no Shopping Ibirapuera.
Os fregueses parecem não se importar com nada disso. Afirma
ter 2.000 assíduos, com horário
fixo reservado para o ano inteiro. Para lhe entregar as madeixas,
é preciso marcar com duas semanas de antecedência.
Ninguém escapa do ritual. Wanderley repete o nome da cliente
o maior número de vezes possível, faz acrobacias com
a tesoura no acabamento e dá dois beijinhos no fim de cada
corte são três por hora, 25 por dia, a 250 reais.
Numa conta rápida, fatura 125.000 reais
por mês, fora escova, lavagem, tintura e o que os outros 63
cabeleireiros arrecadam em seus cinco salões. Além
do Iguatemi, está no Shopping Pátio Higienópolis,
no Shopping Anália Franco, no Rio de Janeiro e em Campinas.
Graças à propaganda feita por Gisele Bündchen,
Wanderley já trabalhou em Nova York. A modelo o conheceu
ainda menina, aos 14 anos de idade, quando começava a carreira
em São Paulo. Wanderley conta que Gisele chegou à
cidade tão dura que ele teve de lhe pagar o táxi na
primeira vez que apareceu no salão. Claro, nunca cobrou nada.
Nem o táxi nem os cortes. "Vi que tinha potencial para fazer
sucesso e resolvi investir", garante. Usa a mesma lógica
para dar descontões a quem interessa. Por exemplo, à
primeira-dama Marisa Letícia. Antes do início da campanha
de Lula à Presidência da República, ela cortou
o cabelo no Studio W duas vezes, por recomendação
de uma amiga, mas com um assistente Wanderley não
tinha horário. Na terceira vez, quando soube que a mulher
de Lula estava por lá, fez questão de atendê-la.
Depois disso, ficaram inseparáveis. "Ele acertou meu corte.
É um profissional muito competente", afirma Marisa. "Acima
de tudo, é uma pessoa que não esqueceu sua origem
humilde e manteve a simplicidade." A polêmica sobre quem pagava
suas passagens para Brasília foi tamanha (ele jura que usava
milhas fornecidas por fabricantes de produtos) que agora Wanderley
a atende mensalmente no apartamento de São Bernardo do Campo,
para onde mandou uma cadeira assinada pelo francês Philippe
Starck. No início, Marisa não desembolsou nada pelos
serviços. "Para evitar constrangimentos, passei a cobrar
só 158 reais", diz o cabeleireiro. "Sei que o salário
de Lula é curto, de 8.000 reais."
Ao lado dos filhos Pedro, de 15 anos, e Drielly, 17, Wanderley luta
para combater o estereótipo de que muitos cabeleireiros são
gays. "Não sou. Comigo é tudo oito ou oitenta. Se
fosse homossexual, seria logo um travesti", brinca. "Procuro agir
com delicadeza e, se desmunheco, minha mulher me avisa." É,
sim, uma pessoa extremamente vaidosa. Com 44 anos, toma todo dia
doze cápsulas de vitaminas e suplementos receitados por seu
médico ortomolecular e diz que fez sete plásticas
(seis no nariz e uma ao redor dos olhos). Só veste jeans
da caríssima marca italiana Diesel. Outros luxos são
a cama importada da Holanda, regulável por controle remoto,
e um home theater em cada quarto de seu apartamento, no Morumbi.
A última investida foi num equipamento fotográfico
digital que custa mais de 40.000 reais. Vai
usá-lo para fazer uma das coisas de que mais gosta: tietar.
Adora ser clicado ao lado de celebridades e espalhar as imagens
por todo canto.
A batalha para obter tamanho prestígio foi longa. Nascido
em Maringá, no interior do Paraná, Wanderley é
o caçula de uma família modesta, de nove irmãos.
Vendeu coxinha e engraxou sapatos antes de herdar a profissão
do pai, barbeiro a vida toda. Começou a cortar em domicílio,
nos anos 70. Cobrava pouco e, à noite, distribuía
seu telefone em danceterias da moda. Na base do boca-a-boca, conquistou
endinheiradas no Morumbi. Foi na casa de uma delas que ensaiou sua
primeira tintura, "loiro sueco". Aplicou a técnica aprendida
minutos antes com um vendedor de farmácia e saiu de lá
morrendo de medo de que a mulher ficasse careca. Por sorte, ela
adorou e o indicou para uma dezena de amigas. "Não sabia
se eu era bom ou se as ricaças eram mãos-de-vaca",
afirma. Desde então, Wanderley desenvolveu uma tática
que usa até hoje para cativá-las: "Falo para muita
madame que estou emocionado em atendê-la. Tudo mentira". Calma,
ele explica: "Mentira, não. Marketing!".
|
Elas
por ele
Maldades
e afagos de Wanderley Nunes
sobre clientes e não-clientes
Bob Paulino
 |
André N./Strana
 |
GISELE
BÜNDCHEN
"É
o cabelo mais maravilhoso que eu conheço. Ela acorda
linda!" |
SANDY
"Quero
mudar, e ela continua com esse cabelão. Tem pavor
dos cortes mais curtos." |
André Valentim/Strana
 |
Heudes Regis
 |
FÁTIMA
BERNARDES
"De vez em quando ela erra na maneira de pentear.
Quando isso acontece, ligo e peço que capriche
mais." |
DANIELLA
CICARELLI
"Precisa aprender a ser mais fiel a seu cabeleireiro.
Da última vez que veio ao salão, reclamei.
Ela vai acabar se prejudicando com essa inconstância."
|
Arthur Cavalieri/Strana
 |
Ronaldo Ceravolo
 |
MALU
MADER
"Já é mais do que hora de dar
uma repaginada. Está com o mesmo visual há
muito tempo." |
HEBE
CAMARGO
"É uma das únicas pessoas que
ainda usam esse tipo de cabelo. Adoraria mudar seu visual
durante o programa." |
Marcelo Correa
 |
Epitácio Pessoa/Agência
Estado
 |
GLÓRIA
MARIA
"Pelo cabelo que tem, até que posso dizer
que está numa fase boa. Vou mandar uns produtos
de presente." |
MARTA
SUPLICY
"Estava muito mais bonita na campanha, num estilo
Catherine Deneuve. Pelo pouco cabelo que tem, até
que o Celso Kamura faz um bom trabalho. Mas não
pode usar comprido e liso. Precisa ganhar textura e movimento." |
Ricardo Stuckert/Presidência da
República
 |
Marcio Capovilla
 |
MARISA
LETÍCIA
"É um dos cabelos mais fáceis
em que já coloquei a mão. Durante a campanha,
eu cortava de graça. Agora cobro, para evitar constrangimentos,
mas só 158 reais. Sei que o presidente Lula ganha
pouco." |
GAL
COSTA
"Seu cabelo é trabalhoso, crespo, escuro
demais. Estamos clareando. Quem sabe daqui a quatro meses,
se ela me obedecer, fica melhor." |
Leonardo Lemos
 |
João Raposo
 |
FERNANDA
LIMA
"A cor vai combinar mais no inverno. Não
dá para tomar sol, ficar toda bronzeada e depois
pintar o cabelo de vermelho, né?" |
DÉBORA
BLOCH
"Fica lindo tanto liso quanto crespo. O meio-termo
é o problema. Além disso, não pode
passar a mão no cabelo, senão espeta."
|
André Nazareth/Strana
 |
Zé Paulo Cardeal/Rede Globo
 |
ANGÉLICA
"Está horrível, coitada... O comprimento
da frente está muito desproporcional ao de trás.
Fica um rabo estranho. E olha que ela tem o cabelo bonito."
|
ANA
PAULA PADRÃO
"Ela erra no topete. Exagera, o cabelo fica
duro demais." |
Selmy Yassuda
 |
GIULIA
GAM
"É um dos cabelos mais difíceis
que já vi. Tem muito pouco... Bem curtinho, dou
nota 9. Mas, quando deixa crescer, não passa de
5." |
|
|