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3 de março de 2004
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Cinzas

Ivan Angelo

A Quarta-Feira de Cinzas marcou o fim das festas, das férias, da trégua, da paz no trânsito, da nudez, do baticum, da disponibilidade, das justificativas, do adiamento. Chegou a hora de retomar tudo.

Há um gerente esperando, um inimigo conspirando, uma esposa transpirando, uma amante desesperando.

É preciso reservar aqueles ingressos, vender o carro, comprar um vinho, arranjar coisa melhor.

Há que dar um jeito no disco emperrado, na janela emperrada, no riso emperrado, no amor emperrado.

É preciso assistir a velhas comédias, responder com bons modos, evitar carnes gordas, atender ao telefone (saber ao menos do que se trata).

É necessário entender o país, ter paciência com o presidente, esquecer aquele deputado, confiar nos prefeitos.

Há que não dar esmolas nas ruas, evitar derramamento de sangue, ler para os analfabetos, escrever para os ávidos, ouvir para os surdos.

É preciso ler poesia. (Este é tempo de partido, tempo de homens partidos. Onde está a Vida que perdemos vivendo? Onde está a Sabedoria que perdemos na erudição? Se Pedro Segundo vier aqui com história eu boto ele na cadeia. Qual de nós dois inventou o outro? Meu coração tem catedrais imensas.)

Há que socorrer a mulher espancada, a criança seviciada, o preso torturado, a besta chicoteada.

É urgente identificar que voz é esta, na noite, pedindo socorro, atender pelo menos a uma parte dessas mãos estendidas, saber por que minorias estão virando maioria.

É preciso beber menos, amar mais, adiar menos, aprender mais.

É imprescindível fazer alguma coisa, há uma pessoa na esquina esperando, uma sopa esfriando, um resfriado começando, uma indignação generalizada.

É preciso mudar de endereço ou então de janela.

Há que ler poesia. (Meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá! Com usura um homem não tem uma casa de boa pedra. Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. Eu, Marília, não sou algum vaqueiro que viva de guardar alheio gado. No tempo em que festejavam o dia de meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Que século, meu Deus!, diziam os ratos. E começavam a roer o edifício. Hão de chorar por ela os cinamomos.)

É importante escolher os melhores, evitar o ai meu Deus, economizar água.

É preciso saber do que se trata, inteirar-se dos fatos, ouvir quem viu e tomar providências.

Poderias ajudar Sísifo a carregar sua pedra, Cristo a sua cruz, a sertaneja sua lata d'água, o menino carvoeiro seu fardo.

Há que tranqüilizar os credores, procurar no lixão o bilhete premiado, evitar a tentação do crediário, ver o bicho que vai dar.

É necessário refazer as contas, manter o sorriso, acreditar no gol até o último minuto, abrir as cortinas.

É preciso sabedoria para ajudar os burros, calma para enfrentar os exaltados, disposição para impedir os cretinos, visão para encorajar os visionários, paciência para aturar os gênios, força para meter o braço.

Há um professor iniciando a chamada, uma besta desenfreada, um monte de besteiras virando verdades, providências urgentes a tomar – não fique aí parado.

Há que retraçar os mapas, descobrir outras saídas.

Tens de mandar aquela carta, abrir os e-mails, deletar mensagens de outras galáxias.

É cada vez mais necessário ler poesia. (Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear. Busque, amor, novas artes, novo engenho para matar-me, e novas esquivanças. O mundo começava nos seios de Jandira. Bárbara bela, do norte estrela, que o meu destino sabes guiar. As horas vão e vêm não em vão.)

É Cinzas, e há uma certa esperança.

         
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