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CRÔNICA
Cinzas
Ivan Angelo
A
Quarta-Feira de Cinzas marcou o fim das festas, das férias,
da trégua, da paz no trânsito, da nudez, do baticum,
da disponibilidade, das justificativas, do adiamento. Chegou a hora
de retomar tudo.
Há um gerente esperando, um inimigo conspirando, uma esposa
transpirando, uma amante desesperando.
É
preciso reservar aqueles ingressos, vender o carro, comprar um vinho,
arranjar coisa melhor.
Há que dar um jeito no disco emperrado, na janela emperrada,
no riso emperrado, no amor emperrado.
É
preciso assistir a velhas comédias, responder com bons modos,
evitar carnes gordas, atender ao telefone (saber ao menos do que
se trata).
É
necessário entender o país, ter paciência com
o presidente, esquecer aquele deputado, confiar nos prefeitos.
Há que não dar esmolas nas ruas, evitar derramamento
de sangue, ler para os analfabetos, escrever para os ávidos,
ouvir para os surdos.
É
preciso ler poesia. (Este é tempo de partido, tempo de homens
partidos. Onde está a Vida que perdemos vivendo? Onde está
a Sabedoria que perdemos na erudição? Se Pedro Segundo
vier aqui com história eu boto ele na cadeia. Qual de nós
dois inventou o outro? Meu coração tem catedrais imensas.)
Há que socorrer a mulher espancada, a criança seviciada,
o preso torturado, a besta chicoteada.
É
urgente identificar que voz é esta, na noite, pedindo socorro,
atender pelo menos a uma parte dessas mãos estendidas, saber
por que minorias estão virando maioria.
É
preciso beber menos, amar mais, adiar menos, aprender mais.
É
imprescindível fazer alguma coisa, há uma pessoa na
esquina esperando, uma sopa esfriando, um resfriado começando,
uma indignação generalizada.
É
preciso mudar de endereço ou então de janela.
Há que ler poesia. (Meu reino pelas três mulheres do
sabonete Araxá! Com usura um homem não tem uma casa
de boa pedra. Lutar com palavras é a luta mais vã.
Entanto lutamos mal rompe a manhã. Eu, Marília, não
sou algum vaqueiro que viva de guardar alheio gado. No tempo em
que festejavam o dia de meus anos, eu era feliz e ninguém
estava morto. Que século, meu Deus!, diziam os ratos. E começavam
a roer o edifício. Hão de chorar por ela os cinamomos.)
É
importante escolher os melhores, evitar o ai meu Deus, economizar
água.
É
preciso saber do que se trata, inteirar-se dos fatos, ouvir quem
viu e tomar providências.
Poderias ajudar Sísifo a carregar sua pedra, Cristo a sua
cruz, a sertaneja sua lata d'água, o menino carvoeiro seu
fardo.
Há que tranqüilizar os credores, procurar no lixão
o bilhete premiado, evitar a tentação do crediário,
ver o bicho que vai dar.
É
necessário refazer as contas, manter o sorriso, acreditar
no gol até o último minuto, abrir as cortinas.
É
preciso sabedoria para ajudar os burros, calma para enfrentar os
exaltados, disposição para impedir os cretinos, visão
para encorajar os visionários, paciência para aturar
os gênios, força para meter o braço.
Há um professor iniciando a chamada, uma besta desenfreada,
um monte de besteiras virando verdades, providências urgentes
a tomar não fique aí parado.
Há que retraçar os mapas, descobrir outras saídas.
Tens de mandar aquela carta, abrir os e-mails, deletar mensagens
de outras galáxias.
É
cada vez mais necessário ler poesia. (Ao telefone perdeste
muito, muitíssimo tempo de semear. Busque, amor, novas artes,
novo engenho para matar-me, e novas esquivanças. O mundo
começava nos seios de Jandira. Bárbara bela, do norte
estrela, que o meu destino sabes guiar. As horas vão e vêm
não em vão.)
É
Cinzas, e há uma certa esperança.
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