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2 de novembro de 2005
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De volta à sala de aula

Nos principais cursos livres da cidade,
mais de 5 000 paulistanos esquecem as
preocupações do cotidiano e enriquecem
os conhecimentos com a descoberta de
nomes como o pintor impressionista
Claude Monet e o poeta paranaense
Paulo Leminski. Para matar tamanha
fome de saber, há pelo menos quinze
instituições respeitadas que promovem
cerca de 150 eventos por semestre

Isabela Barros


Daniela Toviansky
Casa do Saber: sofás e pufes para relaxar, com vinho no intervalo


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Trechos de aulas do curso de ética e política do professor Alberto Ribeiro de Barros

Que tal ter algumas aulas sobre poesia e contracultura dos anos 70? Ou, quem sabe, mergulhar na história dos principais líderes políticos do século XX? E por que não se aprofundar na literatura francesa? Qualquer que seja o tema escolhido, São Paulo tem opções sob medida para quem quer voltar à sala de aula nas horas de folga. Pelo menos quinze instituições respeitadas oferecem cursos livres (veja quadro com opções para novembro e dezembro), que atraem mais de 5.000 paulistanos por semestre. Atenção: não se está falando aqui de escolas e professores que ensinam a arte da culinária, a montar uma pousada e outros temas ligados à carreira gerencial ou técnicas de auto-ajuda. Nos corredores de espaços como a Casa das Rosas, a Casa do Saber e o Museu de Arte de São Paulo (Masp), as conversas giram em torno dos versos do poeta paranaense Paulo Leminski, das teorias do pensador alemão Walter Benjamin e dos quadros do pintor holandês Van Gogh.

A mais badalada escola paulistana do gênero, a Casa do Saber, logo apelidada de Daslusp, é também a que reúne os freqüentadores mais estrelados, que trocam idéias com os colegas nos intervalos regados a vinhos e petiscos. Nas unidades do Itaim-Bibi e de Higienópolis circulam o ex-piloto Pedro Paulo Diniz, a cantora Wanessa Camargo e o jornalista Paulo Henrique Amorim. A atriz Maria Fernanda Cândido, uma das sócias do negócio, é outra famosa que costuma dar o ar da graça por lá. "As aulas de história são as minhas prediletas", diz Paulo Bonfá, apresentador da MTV, que acaba de participar de uma série de palestras acerca das façanhas dos maiores líderes do século passado. Os ciclos que abordam arte, história e filosofia provocam filas de interessados. E olhe que os cursos, que geralmente têm duração de um mês, podem custar até 1.200 reais. Marcadas para dezembro, oito conferências sobre economia e filosofia, com o prefeito José Serra entre os professores, tiveram as setenta vagas preenchidas em agosto. Outros 141 candidatos, na lista de espera, sonham com alguma desistência. "A meta é encerrar 2005 com 4.000 alunos, quase o dobro do que ocorreu no ano passado", afirma o diretor executivo, Mario Vitor Santos.


Mario Rodrigues
Acima, alunos observam o quadro A Arlesiana, de Van Gogh, na aula sobre pintura holandesa no Masp. Abaixo, a professora Mariela Mielzynska Kantor fala sobre filosofia da arte e estética, na Faap. "Como ninguém está aqui por obrigação, a atenção é muito maior", diz ela
Renata Ursaia

Mas não é preciso pagar caro para fazer parte desse mundo. Na Casa das Rosas, onde fica o Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, os cursos custam 10 reais, independentemente do tema ou da duração. Em plena agitação de fim de tarde na Avenida Paulista, estudantes do ensino médio, trintões descolados e aposentados curiosos reúnem-se no casarão da década de 1930 para mergulhar no universo das letras. Algumas aulas acontecem em salas pequenas, ao som de música clássica, com as cadeiras dispostas em círculo. A movimentação cultural tem sido intensa desde a reinauguração do lugar, no fim do ano passado. "Atualmente, temos quatro cursos, além dos grupos de estudos e das entrevistas públicas com poetas", diz o coordenador cultural Donny Correia.


Renata Ursaia
Grupo de estudos sobre conjuntura internacional, em que dezoito amigas debatem temas como a formação de Israel ou a Guerra do Iraque, sob a orientação do jornalista Jaime Spitzcovsky: as reuniões acontecem durante o almoço e incluem entrada, prato principal e sobremesa

Os meandros das artes plásticas estão entre os assuntos mais abordados nos cursos livres da cidade. Em endereços como o Masp, o Museu de Arte Moderna (MAM) e o Centro Universitário Maria Antônia, por exemplo, o impressionismo dos pintores franceses Claude Monet e Auguste Renoir costuma ser campeão de audiência. As criações do espanhol Pablo Picasso são outro sucesso garantido de público. "Estudar arte é uma terapia", acredita o engenheiro Bruno Pagliaricci, que conheceu no Masp o construtivismo russo, a pintura holandesa e a relação entre pintura e mitologia. Em média, 60% dos alunos do museu são profissionais liberais sem nenhuma relação direta com as artes. Têm apenas a vontade de aprender. "Recebemos muitos advogados, médicos e empresários que trabalham na região da Paulista", diz Silvia Meira, coordenadora da Escola do Masp. Filha do bicampeão de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi, a estudante Joana Fittipaldi, 18 anos, terminou o ensino médio no ano passado e decidiu que passaria 2005 ampliando os conhecimentos. Até dezembro, terá concluído seis cursos do Masp. "Estou me preparando para estudar cinema", conta. "Uma visão mais completa da arte me dará maior embasamento ao chegar à faculdade."


Renata Ursaia
A empresária Malu Ortiz Ortali e a arquiteta Jacqueline Rocha Diniz, alunas do grupo de conjuntura internacional: "Uso o que aprendo em minhas viagens", diz Malu. "Agora tenho bases históricas para entender as notícias a fundo", afirma Jacqueline

No campo da música, o Teatro Cultura Artística é um dos espaços mais lembrados. "Considero meus alunos heróis por virem ao centrão à noite para assistir às aulas", diz o professor e jornalista J. Jota de Moraes. Com o produtor e crítico musical Zuza Homem de Mello, ele atrai uma média de 500 participantes por ano aos seis cursos oferecidos regularmente pelo teatro. Freqüentador assíduo, o veterinário Alexandre Develey acompanhou as explicações de J. Jota sobre as bases da música no Ocidente. "Comparo a música ao futebol", afirma. "Quem desconhece as regras não é capaz de apreciar essas artes em sua totalidade."


Daniela Toviansky
Mario Rodrigues
Renata Ursaia
Paulo Bonfá, que costuma freqüentar a Casa do Saber: as aulas de história são as prediletas do apresentador da MTV No fim deste ano, a estudante Joana Fittipaldi terá completado seis cursos no Masp: período de preparação antes de ingressar na faculdade O estudante de cinema Luiz Felipe Dianese, no curso de filosofia da arte e estética, da Faap: palestras sobre expressionismo

Participar de um curso livre já foi visto como "passatempo de dondoca". Essa avaliação está fora de moda. "Tinha preconceito, mas mudei de postura", diz a historiadora Mariela Mielzynska Kantor, professora da Faap. "Como ninguém está aqui por obrigação, a atenção é muito maior." As motivações dos alunos são muitas. Vão desde a possibilidade de fazer amigos até a vontade de se sair melhor numa conversa. Nas seleções de emprego, é comum os entrevistadores perguntarem como os candidatos a uma vaga ocupam seu tempo livre. "Os estudantes deixam as classes com um discurso bem mais elaborado, que vão usar socialmente depois", afirma Clóvis de Barros Filho, professor da USP, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Casa do Saber. "Nem que seja no bar." Aluna de dois cursos da Casa do Saber e de um da Faap, a aposentada Alisa Herscovici concorda: "Cansei das fofocas. Estudar por vontade é um prazer que faz bem para os neurônios".

Há quem monte os próprios grupos para ter aulas em ambientes mais informais. Toda quinta-feira, dezoito amigas da sociedade paulistana, como as empresárias Michelle Nasser e Malu Ortiz Ortali, a arquiteta Jacqueline Rocha Diniz e a designer Serpui Marie Ekizlerian, encontram-se na hora do almoço para falar de conjuntura internacional. O professor – ou teacher, como elas gostam de chamá-lo – é o jornalista Jaime Spitzcovsky, ex-correspondente do jornal Folha de S.Paulo em Moscou e Pequim. Ele aborda temas como a formação de Israel e a Guerra do Iraque. Duro é manter a atenção de algumas delas. "Câmbio, meninas", costuma dizer, sempre que começam as conversas paralelas. Entre uma informação e outra, as amigas fazem uma refeição completa, com direito a entrada, prato principal e sobremesa. "Temos de estudar na hora do almoço porque não somos um bando de desocupadas", explica Serpui Marie. "Todas trabalhamos." Empresas também embarcam na onda. A empresária de eventos Alice Carta montou, em setembro, um curso sobre ópera para convidados do banco BNP Paribas. "Numa cidade tão grande como São Paulo, discutir algo que não tenha nada a ver com o trabalho do dia-a-dia é uma forma de aproximar as pessoas", afirma. Pelo que se vê, cada vez mais paulistanos pensam como ela.

     
   
 
 
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