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COMPORTAMENTO De
volta à sala de aula Nos principais cursos livres
da cidade, mais de 5 000 paulistanos esquecem as preocupações
do cotidiano e enriquecem os conhecimentos com a descoberta de nomes
como o pintor impressionista Claude Monet e o poeta paranaense Paulo
Leminski. Para matar tamanha fome de saber, há pelo menos quinze
instituições respeitadas que promovem cerca de 150 eventos por
semestre Isabela Barros
Daniela Toviansky  |
| Casa do Saber: sofás e pufes para relaxar, com vinho
no intervalo | Que
tal ter algumas aulas sobre poesia e contracultura dos anos 70? Ou, quem sabe,
mergulhar na história dos principais líderes políticos do
século XX? E por que não se aprofundar na literatura francesa? Qualquer
que seja o tema escolhido, São Paulo tem opções sob medida
para quem quer voltar à sala de aula nas horas de folga. Pelo menos quinze
instituições respeitadas oferecem cursos livres (veja
quadro com opções para novembro e dezembro), que
atraem mais de 5.000 paulistanos por semestre. Atenção: não
se está falando aqui de escolas e professores que ensinam a arte da culinária,
a montar uma pousada e outros temas ligados à carreira gerencial ou técnicas
de auto-ajuda. Nos corredores de espaços como a Casa das Rosas, a Casa
do Saber e o Museu de Arte de São Paulo (Masp), as conversas giram em torno
dos versos do poeta paranaense Paulo Leminski, das teorias do pensador alemão
Walter Benjamin e dos quadros do pintor holandês Van Gogh.
A mais badalada escola paulistana do gênero, a Casa do Saber, logo apelidada
de Daslusp, é também a que reúne os freqüentadores mais
estrelados, que trocam idéias com os colegas nos intervalos regados a vinhos
e petiscos. Nas unidades do Itaim-Bibi e de Higienópolis circulam o ex-piloto
Pedro Paulo Diniz, a cantora Wanessa Camargo e o jornalista Paulo Henrique Amorim.
A atriz Maria Fernanda Cândido, uma das sócias do negócio,
é outra famosa que costuma dar o ar da graça por lá. "As
aulas de história são as minhas prediletas", diz Paulo Bonfá,
apresentador da MTV, que acaba de participar de uma série de palestras
acerca das façanhas dos maiores líderes do século passado.
Os ciclos que abordam arte, história e filosofia provocam filas de interessados.
E olhe que os cursos, que geralmente têm duração de um mês,
podem custar até 1.200 reais. Marcadas para dezembro, oito conferências
sobre economia e filosofia, com o prefeito José Serra entre os professores,
tiveram as setenta vagas preenchidas em agosto. Outros 141 candidatos, na lista
de espera, sonham com alguma desistência. "A meta é encerrar 2005
com 4.000 alunos, quase o dobro do que ocorreu no ano passado", afirma o diretor
executivo, Mario Vitor Santos.
Mario Rodrigues  |
| Acima, alunos observam o quadro A Arlesiana, de
Van Gogh, na aula sobre pintura holandesa no Masp. Abaixo, a professora Mariela
Mielzynska Kantor fala sobre filosofia da arte e estética, na Faap. "Como
ninguém está aqui por obrigação, a atenção
é muito maior", diz ela | Renata
Ursaia  |
Mas não é preciso pagar
caro para fazer parte desse mundo. Na Casa das Rosas, onde fica o Espaço
Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, os cursos custam 10 reais, independentemente
do tema ou da duração. Em plena agitação de fim de
tarde na Avenida Paulista, estudantes do ensino médio, trintões
descolados e aposentados curiosos reúnem-se no casarão da década
de 1930 para mergulhar no universo das letras. Algumas aulas acontecem em salas
pequenas, ao som de música clássica, com as cadeiras dispostas em
círculo. A movimentação cultural tem sido intensa desde a
reinauguração do lugar, no fim do ano passado. "Atualmente, temos
quatro cursos, além dos grupos de estudos e das entrevistas públicas
com poetas", diz o coordenador cultural Donny Correia.
Renata Ursaia  |
| Grupo de estudos sobre conjuntura internacional, em que
dezoito amigas debatem temas como a formação de Israel ou a Guerra
do Iraque, sob a orientação do jornalista Jaime Spitzcovsky: as
reuniões acontecem durante o almoço e incluem entrada, prato principal
e sobremesa | Os meandros
das artes plásticas estão entre os assuntos mais abordados nos cursos
livres da cidade. Em endereços como o Masp, o Museu de Arte Moderna (MAM)
e o Centro Universitário Maria Antônia, por exemplo, o impressionismo
dos pintores franceses Claude Monet e Auguste Renoir costuma ser campeão
de audiência. As criações do espanhol Pablo Picasso são
outro sucesso garantido de público. "Estudar arte é uma terapia",
acredita o engenheiro Bruno Pagliaricci, que conheceu no Masp o construtivismo
russo, a pintura holandesa e a relação entre pintura e mitologia.
Em média, 60% dos alunos do museu são profissionais liberais sem
nenhuma relação direta com as artes. Têm apenas a vontade
de aprender. "Recebemos muitos advogados, médicos e empresários
que trabalham na região da Paulista", diz Silvia Meira, coordenadora da
Escola do Masp. Filha do bicampeão de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi,
a estudante Joana Fittipaldi, 18 anos, terminou o ensino médio no ano passado
e decidiu que passaria 2005 ampliando os conhecimentos. Até dezembro, terá
concluído seis cursos do Masp. "Estou me preparando para estudar cinema",
conta. "Uma visão mais completa da arte me dará maior embasamento
ao chegar à faculdade."
Renata Ursaia  |
| A empresária Malu Ortiz Ortali e a arquiteta Jacqueline
Rocha Diniz, alunas do grupo de conjuntura internacional: "Uso o que aprendo em
minhas viagens", diz Malu. "Agora tenho bases históricas para entender as notícias
a fundo", afirma Jacqueline | No
campo da música, o Teatro Cultura Artística é um dos espaços
mais lembrados. "Considero meus alunos heróis por virem ao centrão
à noite para assistir às aulas", diz o professor e jornalista J.
Jota de Moraes. Com o produtor e crítico musical Zuza Homem de Mello, ele
atrai uma média de 500 participantes por ano aos seis cursos oferecidos
regularmente pelo teatro. Freqüentador assíduo, o veterinário
Alexandre Develey acompanhou as explicações de J. Jota sobre as
bases da música no Ocidente. "Comparo a música ao futebol", afirma.
"Quem desconhece as regras não é capaz de apreciar essas artes em
sua totalidade."
Daniela Toviansky  | Mario
Rodrigues  | Renata
Ursaia  |
| Paulo Bonfá, que costuma freqüentar a Casa
do Saber: as aulas de história são as prediletas do apresentador da MTV | No
fim deste ano, a estudante Joana Fittipaldi terá completado seis cursos
no Masp: período de preparação antes de ingressar na faculdade
| O estudante de cinema Luiz Felipe Dianese, no curso de filosofia da arte
e estética, da Faap: palestras sobre expressionismo | Participar
de um curso livre já foi visto como "passatempo de dondoca". Essa avaliação
está fora de moda. "Tinha preconceito, mas mudei de postura", diz a historiadora
Mariela Mielzynska Kantor, professora da Faap. "Como ninguém está
aqui por obrigação, a atenção é muito maior."
As motivações dos alunos são muitas. Vão desde a possibilidade
de fazer amigos até a vontade de se sair melhor numa conversa. Nas seleções
de emprego, é comum os entrevistadores perguntarem como os candidatos a
uma vaga ocupam seu tempo livre. "Os estudantes deixam as classes com um discurso
bem mais elaborado, que vão usar socialmente depois", afirma Clóvis
de Barros Filho, professor da USP, da Escola Superior de Propaganda e Marketing
(ESPM) e da Casa do Saber. "Nem que seja no bar." Aluna de dois cursos da Casa
do Saber e de um da Faap, a aposentada Alisa Herscovici concorda: "Cansei das
fofocas. Estudar por vontade é um prazer que faz bem para os neurônios".
Há quem monte os próprios
grupos para ter aulas em ambientes mais informais. Toda quinta-feira, dezoito
amigas da sociedade paulistana, como as empresárias Michelle Nasser e Malu
Ortiz Ortali, a arquiteta Jacqueline Rocha Diniz e a designer Serpui Marie Ekizlerian,
encontram-se na hora do almoço para falar de conjuntura internacional.
O professor ou teacher, como elas gostam de chamá-lo
é o jornalista Jaime Spitzcovsky, ex-correspondente do jornal Folha
de S.Paulo em Moscou e Pequim. Ele aborda temas como a formação
de Israel e a Guerra do Iraque. Duro é manter a atenção de
algumas delas. "Câmbio, meninas", costuma dizer, sempre que começam
as conversas paralelas. Entre uma informação e outra, as amigas
fazem uma refeição completa, com direito a entrada, prato principal
e sobremesa. "Temos de estudar na hora do almoço porque não somos
um bando de desocupadas", explica Serpui Marie. "Todas trabalhamos." Empresas
também embarcam na onda. A empresária de eventos Alice Carta montou,
em setembro, um curso sobre ópera para convidados do banco BNP Paribas.
"Numa cidade tão grande como São Paulo, discutir algo que não
tenha nada a ver com o trabalho do dia-a-dia é uma forma de aproximar as
pessoas", afirma. Pelo que se vê, cada vez mais paulistanos pensam como
ela. |