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2 de outubro de 2002
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CRÔNICA

Cão reencontrado

As lembranças, a história
e a lição de Veludo

Ivan Angelo

Era muitas vezes com lágrimas nos olhos que se aprendia a dar valor à amizade, ao caráter e ao amor. Exemplos melodramáticos não faltavam, e talvez por isso se tenham tornado marcantes.

Nunca pude me esquecer de um longo poema lido em aula pela professora, no 2º ano primário. Falava de um cão, feio mas dedicado, de que o dono procura se desfazer, afogando-o no mar. Lembro-me da forte emoção com que acompanhamos a leitura, e da minha atenção ao copiá-lo depois. Decorei-o inteiro, e declamava-o para outros meninos, provavelmente quando tinha por perto algum bolo de aniversário. Ao terminar a narrativa da tragédia de "Veludo", havia olhos úmidos na pequena platéia.

Era esse o nome do cão: Veludo. "Magro, asqueroso, revoltante, imundo" – dizia o poema. Passaram-se os anos, e dele restaram em minha memória os seis primeiros versos e uma lição de moral. Nem sabia quem era o autor. Então, numa conversa com o amante de livros Cláudio Giordano, da Oficina do Livro, ouvi dele a promessa: "Vou-te mandar o poema".

Mandou mais do que isso: a cópia da folha de rosto do volume onde ele aparecera e toda a genealogia do tema. Chama-se História de um Cão; o livro, Sonetos e Rimas; o poeta, Luiz Guimarães; a edição é de 1886. A qualidade? Não importa, nesse caso. Reencontrei o menino sentimental que fui, e ele é que leu para mim a história.

Começa assim: "Eu tive um cão. Chamava-se Veludo: / Magro, asqueroso, revoltante, imundo; / Para dizer numa palavra tudo / Foi o mais feio cão que houve no mundo". Alguém se lembra? "Recebi-o das mãos de um camarada / Na hora da partida." Exatamente aí terminavam as minhas lembranças.

Prossegue a história dizendo que o amigo tinha lágrimas nos olhos ao se separar do cão. Mais do que isso: "Nos olhos seus o pranto borbulhava". E ao se despedir deseja que o cão console o novo dono "no mundo ermo de amigos". Veludo demorou a acostumar-se, pois "chorava o antigo dono que perdera". Uivava à luz da lua. Cinco meses depois, o narrador recebe uma carta do amigo, contando detalhes da viagem e recomendando "o pobre do Veludo". O cão – incrível – acompanhava a leitura, "tranqüilo e atento", e o narrador viu "seus olhos gotejarem de saudade". Teria sentido o cheiro do antigo dono na carta? Depois lambeu as mãos do homem, estendeu-se a seus pés e "adormeceu contente".

Mas aquele cachorro incomodava o novo dono. Deu-o à mulher de um carvoeiro. Respirou aliviado por não ter mais de dar um osso diariamente "a um bicho vil, a um feio cão imundo". Porém à noite alguém bateu à porta: "Era Veludo". Lambeu as mãos do narrador, farejou a casa satisfeito e foi dormir "junto do meu leito". Para se livrar, resolveu matá-lo. Numa noite, em que "zunia a asa fúnebre dos ventos", levou Veludo para o mar, de barco. "Contra as ondas coléricas vogamos; / Dava-me força o torvo pensamento." Longe da costa, ergueu o cão nos braços e atirou-o ao mar. "Ele moveu gemendo os membros lassos / Lutando contra a morte. Era pungente." Doloroso que fosse, o narrador deixou-o lá, voltou a terra, entrou em casa e, ao tirar o manto, notou – "oh grande dor!" – que havia perdido na operação o cordão de prata com o retrato da mãe, "uma relíquia que eu prezava tanto!" Concluiu, com rancor, que a culpa era do cão: "Foi esse cão imundo / A causa do meu mal!" E completou: se duas vidas o animal tivesse, duas vidas lhe arrancaria.

Nesse momento, ouviu uivos à porta. "Era Veludo!" (Arrepiado, leitor?) O cão arfava. Estendeu-se a seus pés "e docemente / Deixou cair da boca que espumava / A medalha suspensa da corrente."

Sacudiu-o, chamou-o. "Estava morto."

Aprendiam-se dramaticamente os valores da vida.

         
     
 
 
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