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CRÔNICA
Cão
reencontrado
As
lembranças, a história
e a lição de Veludo
Ivan
Angelo
Era
muitas vezes com lágrimas nos olhos que se aprendia a dar
valor à amizade, ao caráter e ao amor. Exemplos melodramáticos
não faltavam, e talvez por isso se tenham tornado marcantes.
Nunca
pude me esquecer de um longo poema lido em aula pela professora,
no 2º ano primário. Falava de um cão, feio mas
dedicado, de que o dono procura se desfazer, afogando-o no mar.
Lembro-me da forte emoção com que acompanhamos a leitura,
e da minha atenção ao copiá-lo depois. Decorei-o
inteiro, e declamava-o para outros meninos, provavelmente quando
tinha por perto algum bolo de aniversário. Ao terminar a
narrativa da tragédia de "Veludo", havia olhos úmidos
na pequena platéia.
Era
esse o nome do cão: Veludo. "Magro, asqueroso, revoltante,
imundo" dizia o poema. Passaram-se os anos, e dele restaram
em minha memória os seis primeiros versos e uma lição
de moral. Nem sabia quem era o autor. Então, numa conversa
com o amante de livros Cláudio Giordano, da Oficina do Livro,
ouvi dele a promessa: "Vou-te mandar o poema".
Mandou
mais do que isso: a cópia da folha de rosto do volume onde
ele aparecera e toda a genealogia do tema. Chama-se História
de um Cão; o livro, Sonetos e Rimas; o poeta,
Luiz Guimarães; a edição é de 1886.
A qualidade? Não importa, nesse caso. Reencontrei o menino
sentimental que fui, e ele é que leu para mim a história.
Começa
assim: "Eu tive um cão. Chamava-se Veludo: / Magro, asqueroso,
revoltante, imundo; / Para dizer numa palavra tudo / Foi o mais
feio cão que houve no mundo". Alguém se lembra? "Recebi-o
das mãos de um camarada / Na hora da partida." Exatamente
aí terminavam as minhas lembranças.
Prossegue
a história dizendo que o amigo tinha lágrimas nos
olhos ao se separar do cão. Mais do que isso: "Nos olhos
seus o pranto borbulhava". E ao se despedir deseja que o cão
console o novo dono "no mundo ermo de amigos". Veludo demorou a
acostumar-se, pois "chorava o antigo dono que perdera". Uivava à
luz da lua. Cinco meses depois, o narrador recebe uma carta do amigo,
contando detalhes da viagem e recomendando "o pobre do Veludo".
O cão incrível acompanhava a leitura,
"tranqüilo e atento", e o narrador viu "seus olhos gotejarem
de saudade". Teria sentido o cheiro do antigo dono na carta? Depois
lambeu as mãos do homem, estendeu-se a seus pés e
"adormeceu contente".
Mas
aquele cachorro incomodava o novo dono. Deu-o à mulher de
um carvoeiro. Respirou aliviado por não ter mais de dar um
osso diariamente "a um bicho vil, a um feio cão imundo".
Porém à noite alguém bateu à porta:
"Era Veludo". Lambeu as mãos do narrador, farejou a casa
satisfeito e foi dormir "junto do meu leito". Para se livrar, resolveu
matá-lo. Numa noite, em que "zunia a asa fúnebre dos
ventos", levou Veludo para o mar, de barco. "Contra as ondas coléricas
vogamos; / Dava-me força o torvo pensamento." Longe da costa,
ergueu o cão nos braços e atirou-o ao mar. "Ele moveu
gemendo os membros lassos / Lutando contra a morte. Era pungente."
Doloroso que fosse, o narrador deixou-o lá, voltou a terra,
entrou em casa e, ao tirar o manto, notou "oh grande dor!"
que havia perdido na operação o cordão
de prata com o retrato da mãe, "uma relíquia que eu
prezava tanto!" Concluiu, com rancor, que a culpa era do cão:
"Foi esse cão imundo / A causa do meu mal!" E completou:
se duas vidas o animal tivesse, duas vidas lhe arrancaria.
Nesse
momento, ouviu uivos à porta. "Era Veludo!" (Arrepiado, leitor?)
O cão arfava. Estendeu-se a seus pés "e docemente
/ Deixou cair da boca que espumava / A medalha suspensa da corrente."
Sacudiu-o,
chamou-o. "Estava morto."
Aprendiam-se
dramaticamente os valores da vida.
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