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2 de julho de 2003
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Trinta minutos e mais
um cidadão paulistano

Eles não nasceram aqui e muitas vezes
nem moram na capital. Mas viraram
filhos de São Paulo após cair nas
graças de algum vereador

Erika Sallum e Maria Rita Alonso

 
Fotos Mario Rodrigues
Raí recebe título de Toninho Campanha (que aproveita para tirar fotos), dá autógrafo e beija a bandeira da Rosas de Ouro: tietagem na Câmara

Foi uma tietagem só. Mal Raí chegou à Câmara dos Vereadores, na última quarta, e uma legião de fãs se aglomerou no salão nobre da casa. A maioria, claro, era composta de mulheres. Máquina fotográfica na mão, Toninho Campanha, do PSB, registrava tudo, emocionado. Segurando um livro do São Paulo Futebol Clube, Claudete Alves, do PT, entrou na fila para garantir um autógrafo – e um beijinho do jogador. Até a porta-bandeira e o mestre-sala da Rosas de Ouro foram cumprimentar o craque. De fundo musical, a banda da Guarda Civil Metropolitana tocava Smoke Gets in Your Eyes, aquela eternizada pelos Platters. Em meio à festa, que durou exatos trinta minutos, Raí olhava seu relógio impaciente. "Será que vai dar tempo de eu assistir ao jogo do Santos?", perguntava, aflito, sobre a partida do Peixe contra o Boca Juniors.

O ex-meia foi à Câmara receber o título de cidadão paulistano, uma honraria concedida pelos vereadores a pessoas que não nasceram na capital mas, teoricamente, tiveram uma carreira de destaque por aqui. Na prática, porém, é um vale-tudo. Só neste ano, entre as dezesseis personalidades agraciadas, figuram nomes como o de Antônio Maria, o padre das celebridades, o da veterana atriz Vida Alves, conhecida por ter dado "o primeiro beijo na televisão", e o do jornalista Milton Neves. "Eu sou santista como ele, mas isso não pesou em minha decisão", garante o vereador Celso Jatene (PTB), que premiou o apresentador da TV Record, outro santista declarado. "Milton veio de Muzambinho sem um tostão e conquistou uma grande reputação." Dono de mais oito "cidadanias" (dadas no interior do Estado e em Minas Gerais), o comentarista esportivo chorou em seu discurso de agradecimento na Câmara, em fevereiro. "Muita gente acha que esse título é brega, mas para mim, que cheguei por baixo, significa muito."

Cada um dos 55 vereadores pode dar, ao longo do mandato de quatro anos, até oito honrarias. Inclui-se nesse pacote a Medalha Anchieta, destinada a quem nasceu em São Paulo. Para que a homenagem aconteça, o político precisa formular o Projeto de Decreto Legislativo, que não necessita da sanção da prefeita. Após passar pelas comissões da Câmara, que verificam a idoneidade do nome escolhido, o projeto tem de ser aprovado em apenas uma votação. É um prato cheio para que os vereadores, digamos, puxem a sardinha do seu eleitorado. Em março, por exemplo, o evangélico Carlos Apolinario (PDT), da Assembléia de Deus, premiou o pastor Jairo Bartolomeu da Rocha, da mesma igreja, por seu "trabalho social junto à comunidade". Há algumas semanas, William Woo, do PSDB, deu a honra ao chinês Chan Kwok Wai, um dos introdutores do kung fu na cidade. "Mestre Chan foi líder da Escola de Dança do Leão, um ritual de prosperidade que costuma abrir eventos dessa arte marcial", explica Woo. "Ele é um filho que, com certeza, São Paulo gostaria de ter tido."

Religioso, Antonio Goulart (PMDB) optou pelo padre Antônio Maria. "Além da atuação em favor de crianças carentes da capital, ele leva sua mensagem através da música", diz o vereador, que em 2000 premiou o colecionador de carros antigos Og Pozzoli. "Com sua coleção particular, Og ajuda a conservar a memória de São Paulo", conta Goulart, que também adora coleções e possui um acervo particular de mais de 30.000 garrafas de cachaça. Em breve, o vereador dará o título de cidadão paulistano a Geraldo Magela, proprietário do restaurante Consulado Mineiro. "É uma figura que já faz parte da cultura gastronômica da capital e merece a honraria."

 

Outros homenageados

 
Renato Pizzutto

Milton Neves

O jornalista santista recebeu o título em fevereiro das mãos de Celso Jatene. "Ele veio do interior de Minas e, com garra, conquistou reputação e respeito", afirma o vereador.

Antonio Milena

Roger Abdelmassih

O urologista das estrelas, que já trouxe ao mundo os pimpolhos de Pelé, Gugu e de outros famosos, nasceu em São João da Boa Vista e foi agraciado por Myryam Athie em 2002.

Rogério Montenegro

Vida Alves

Em 1951, a atriz deu o primeiro beijo de novela brasileira. Ícone dos primórdios da telinha, ganhou a condecoração por sua carreira e pelo esforço em preservar a memória da TV.

Divulgação

Mestre Chan

Nascido na China, em 1936, Chan Kwok Wai inaugurou a Academia Sino-Brasileira de Kung Fu e atuou como professor na Escola de Dança do Leão, difundindo a cultura chinesa na cidade.

Divulgação

Padre Antônio Maria

Ao lado de Marcelo Rossi, é um dos nomes mais conhecidos da Igreja Católica. Segundo o vereador Antonio Goulart, mereceu o título por seu trabalho social com crianças carentes.

 

         

 

     
 
 
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