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CRÔNICA
Afinal,
que é a beleza?
Ivan Angelo
A
beleza tem inspirado poetas e desafiado pensadores. Há milênios
busca-se explicar a sensação de fino prazer, de deleite
mesmo, que sentimos diante dela.
Os que a procuram aprendem a encontrá-la em um objeto, uma
pessoa, um gesto, um bicho, uma forma, uma cor, uma paisagem, um
movimento, uma expressão, um traço, um som, um poema,
uma atitude, uma idéia, uma flor, uma imagem, uma textura,
um contorno, um sabor, uma fragrância.
Mas definir a beleza não parece coisa fácil, tanto
é que se renovam as tentativas através dos tempos.
As definições tornam-se insatisfatórias com
o tempo, ou é a beleza que muda?
Em um vaso de quase 2.500 anos encontrado
em Atenas um poeta romântico inglês leu emocionado esta
inscrição: "A beleza é verdade; a verdade,
beleza". Sim, os gregos já associavam a ela um valor moral
a verdade. Não é outra coisa que faz Platão,
talvez contemporâneo daquela urna, quem sabe até comprou
uma igual no mercado, quando diz que a beleza provoca a paixão,
e esta transporta o espírito numa viagem que leva à
compreensão do bem, da justiça e da sabedoria.
Seiscentos anos depois, outro filósofo, Plotino, dizia que
a beleza não estava apenas no bom e no perfeito, mas em todas
as coisas. Santo Agostinho escreveu, menos de 200 anos depois, que
a beleza é a manifestação do divino, a forma
formosa, um modo de o criador mostrar aos homens a natureza do divino.
Na Idade Média, foi esse o conceito dominante, o divino manifestava-se
na harmonia entre as formas e as cores. Shakespeare acrescentou
que ela convive com a delicadeza. Kant veio dizer dois séculos
mais tarde que não tem a menor objetividade dizer que isso
é belo e aquilo não é, não tem sentido
medir a beleza por determinados padrões ou regras, pois o
julgamento será sempre subjetivo, um prazer pessoal. Contemporâneo
dele, o poeta romântico inglês que citei anteriormente,
John Keats, compôs um poema sobre a inscrição
que leu emocionado naquela urna grega "beleza é verdade"
no qual diz que isso é tudo o que é preciso
saber no mundo.
E hoje? O povo brasileiro se cumprimenta na rua com um sonoro "E
aí, beleza?", significando que ela é tudo de bom.
Maravilha.
O que essas idéias nos ensinam? A beleza é uma relação,
está dentro de quem a vê e também está
lá, na coisa vista. Quem foi educado para ver apenas um tipo
de beleza a restringe. Quanto mais autoritária é a
visão, mais restrita a um modelo fica a pessoa. A beleza
harmoniza a pessoa com o que a rodeia. Nem sempre é oferecida,
muitas vezes é preciso procurá-la, ou até criá-la,
em casa, no trabalho, no lazer, no ambiente.
A beleza inspira. Quando o homem aprendeu que ela é moldável,
é plástica, e que expressa alguma coisa, nasceu a
arte. Aprendeu a produzi-la e a pensar sobre ela, e nasceu a estética.
Aprendeu a buscá-la na justiça, na sabedoria, no bem,
e nasceu a ética. A vê-la nos adornos, nas máscaras,
nos traços pintados na pele, no efeitos sobre a aparência,
e nasceu a cosmética.
E a beleza física? A escolha do reprodutor ideal para a preservação
fez com que cada espécie animal elegesse padrões e
proporções entre os indivíduos, selecionando
os mais fortes, mais ágeis, mais aptos, e os olhos foram
treinados para localizá-los no meio do grupo. A humanidade
rompeu essa limitação física, acrescentando
ao essencial da beleza o talento, o caráter, o humor, a gentileza,
a bondade, a moral, enfim, a perfeição que vem de
dentro e se expressa no ser.
A beleza do ser. A verdadeira beleza.
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