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CRÔNICA
Adoráveis
felinos
Ninguém
se sente realmente
sozinho quando tem um gato
Walcyr
Carrasco
Sou
um caso único. Dizem que os gatos jamais abandonam o lar.
Mas eu tive uma gata branca que partiu sem dar satisfações.
Encontrei-a em frente à casa de um amigo, de noite, miando
com ar sofredor. Não tive dúvida. Botei no carro e
levei para casa. Nunca vou esquecer como era gostoso passar a mão
em seus pêlos, horas e horas, meditando sobre a vida. Às
vezes me lambia com sua linguinha cor-de-rosa, o que eu considerava
um privilégio. Ficou por lá três meses. Um dia,
desapareceu. Sofri. Imagino que voltou a seu antigo lar, utilizando
seu absoluto senso de direção. Ou pior, foi miar em
outra freguesia com a mesma aparência de abandonada. Desde
então, passei a me dedicar aos cães. Nem por isso
deixo de admirar os felinos. Têm personalidade. Só
fazem o que querem. Mas quem ama os gatos faz qualquer coisa por
eles. Um amigo separou-se da mulher. Sofria como doido. Por causa
da gata, que ficara em seu antigo lar. Finalmente, ligou exultante:
Agora está tudo certo. Acabou-se o drama.
Que bom! Voltou com ela?
Não... Mas trouxe a gata para viver comigo.
Em
outra oportunidade, fui a uma gravação de um programa
de televisão que exigia um gato azul. O gato devia ser perseguido,
correr e pular para cima de uma árvore. Quanto otimismo!
Ao chegar, vi um gato gordo pintado de azul com uma rinsagem
especial para pêlo de animais. Mais adiante, em outra gaiola,
outro gato, também pintado. Era o dublê. Puseram o
primeiro no chão. Todos os atores saíram correndo,
espantados. Ele continuou imóvel. Botaram o segundo. Mais
imóvel ainda. Eram gatos gordos e peludos, que preferiam
ficar deitados enquanto todos se esgoelavam em torno. Voltaram ao
primeiro. A veterinária encarregada amarrou suas patas com
umas cordinhas e puxou, para ver se ele andava. O bichano deixou-se
arrastar no chão. Decidiram gravar por partes. Assim, os
atores ficaram correndo de um lado para o outro, gritando:
Olha o gato, olha o gato!
Enquanto
isso, o astro observava a gritaria placidamente, certamente imaginando
que os humanos são uns bichos muito esquisitos. Chegou o
momento final. Bastava colocar o felino em cima da árvore.
Todos olhariam para o galho e gritariam. Quem conseguiu? Tomado
de fúria, o gato arranhou todos que tentavam tirá-lo
de seu cantinho confortável. Começou a chover e o
gato desbotou. Exaustos, todos transferiram a gravação
para outro dia.
Há
alguns anos, ia passando pelo Itaim. Em uma casa de esquina, havia
bem uns 100 gatos no jardim. Parei para admirar. A dona, encantada,
comentou:
Quer um filhotinho para começar sua coleção?
Esse
é o problema. Quem começa com um termina com vinte.
Ou trinta, ou mais. Os filhotinhos são tão bonitos,
tão graciosos! Dá dó de oferecer, a não
ser que já se tenha chegado à centena.
São
também bons gourmets. Gostam do que é bom. Conheci
uma garota que tinha o hábito de comer ração
para gato em latinhas. Dizia ter um sabor delicioso de peixe. Nunca
tentei experimentar. Ainda! Pois um guloso como eu pode chegar a
tudo.
Muita
gente discute o amor felino.
Gato não serve para guardar a casa.
De
fato. Nunca ouvi dizer que um bichano tenha atacado ladrões
ou miado para prevenir o dono. Mas possuem uma fidelidade exemplar.
São uma companhia silenciosa, mas cálida. Ninguém
se sente realmente sozinho quando possui um gato. E quem disse que
um gato não tenta contribuir para o orçamento familiar?
Observe. Basta caçar uma ratazana das bem grandes para atirá-la
na porta da cozinha, de presente. Como se dissesse:
Trouxe o jantar!
Por
mais que eu ame os cães, sou obrigado a reconhecer. Quando
se diz que alguém é um cachorro, bem... tome cuidado.
Gato ou gata é elogio. É pura sabedoria popular. Isso
deve significar alguma coisa.
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