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2 de abril de 2003
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CRÔNICA

Adoráveis felinos

Ninguém se sente realmente
sozinho quando tem um gato

Walcyr Carrasco


Sou um caso único. Dizem que os gatos jamais abandonam o lar. Mas eu tive uma gata branca que partiu sem dar satisfações. Encontrei-a em frente à casa de um amigo, de noite, miando com ar sofredor. Não tive dúvida. Botei no carro e levei para casa. Nunca vou esquecer como era gostoso passar a mão em seus pêlos, horas e horas, meditando sobre a vida. Às vezes me lambia com sua linguinha cor-de-rosa, o que eu considerava um privilégio. Ficou por lá três meses. Um dia, desapareceu. Sofri. Imagino que voltou a seu antigo lar, utilizando seu absoluto senso de direção. Ou pior, foi miar em outra freguesia com a mesma aparência de abandonada. Desde então, passei a me dedicar aos cães. Nem por isso deixo de admirar os felinos. Têm personalidade. Só fazem o que querem. Mas quem ama os gatos faz qualquer coisa por eles. Um amigo separou-se da mulher. Sofria como doido. Por causa da gata, que ficara em seu antigo lar. Finalmente, ligou exultante:

– Agora está tudo certo. Acabou-se o drama.

– Que bom! Voltou com ela?

– Não... Mas trouxe a gata para viver comigo.

Em outra oportunidade, fui a uma gravação de um programa de televisão que exigia um gato azul. O gato devia ser perseguido, correr e pular para cima de uma árvore. Quanto otimismo! Ao chegar, vi um gato gordo pintado de azul – com uma rinsagem especial para pêlo de animais. Mais adiante, em outra gaiola, outro gato, também pintado. Era o dublê. Puseram o primeiro no chão. Todos os atores saíram correndo, espantados. Ele continuou imóvel. Botaram o segundo. Mais imóvel ainda. Eram gatos gordos e peludos, que preferiam ficar deitados enquanto todos se esgoelavam em torno. Voltaram ao primeiro. A veterinária encarregada amarrou suas patas com umas cordinhas e puxou, para ver se ele andava. O bichano deixou-se arrastar no chão. Decidiram gravar por partes. Assim, os atores ficaram correndo de um lado para o outro, gritando:

– Olha o gato, olha o gato!

Enquanto isso, o astro observava a gritaria placidamente, certamente imaginando que os humanos são uns bichos muito esquisitos. Chegou o momento final. Bastava colocar o felino em cima da árvore. Todos olhariam para o galho e gritariam. Quem conseguiu? Tomado de fúria, o gato arranhou todos que tentavam tirá-lo de seu cantinho confortável. Começou a chover e o gato desbotou. Exaustos, todos transferiram a gravação para outro dia.

Há alguns anos, ia passando pelo Itaim. Em uma casa de esquina, havia bem uns 100 gatos no jardim. Parei para admirar. A dona, encantada, comentou:

– Quer um filhotinho para começar sua coleção?

Esse é o problema. Quem começa com um termina com vinte. Ou trinta, ou mais. Os filhotinhos são tão bonitos, tão graciosos! Dá dó de oferecer, a não ser que já se tenha chegado à centena.

São também bons gourmets. Gostam do que é bom. Conheci uma garota que tinha o hábito de comer ração para gato em latinhas. Dizia ter um sabor delicioso de peixe. Nunca tentei experimentar. Ainda! Pois um guloso como eu pode chegar a tudo.

Muita gente discute o amor felino.

– Gato não serve para guardar a casa.

De fato. Nunca ouvi dizer que um bichano tenha atacado ladrões ou miado para prevenir o dono. Mas possuem uma fidelidade exemplar. São uma companhia silenciosa, mas cálida. Ninguém se sente realmente sozinho quando possui um gato. E quem disse que um gato não tenta contribuir para o orçamento familiar? Observe. Basta caçar uma ratazana das bem grandes para atirá-la na porta da cozinha, de presente. Como se dissesse:

– Trouxe o jantar!

Por mais que eu ame os cães, sou obrigado a reconhecer. Quando se diz que alguém é um cachorro, bem... tome cuidado. Gato ou gata é elogio. É pura sabedoria popular. Isso deve significar alguma coisa.

         
     
 
 
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