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2 de março de 2005
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Sem medo de ser feliz

Beijos na calçada, mãos dadas no shopping
e troca de carinhos em restaurantes,
danceterias, supermercados...
Há cada vez mais gente assumindo
a homossexualidade em público

Nana Caetano

 
Fotos Mario Rodrigues
Moças e rapazes à vontade na frente do Bar du Bocage, nos Jardins: sábado de azaração


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Não é preciso olhar pelo buraco da fechadura para descobrir que os gays da cena paulistana estão cada vez mais livres, leves e soltos. Rapazes beijam rapazes às 10 da noite em plena Rua da Consolação, garotas ultra-sexy de blusa curta e acessórios à Jennifer Lopez trocam carinhos na fila (e não mais no escurinho) do cinema, e multiplicaram-se pela cidade restaurantes, bares e clubes GLS. Nada a ver com aqueles inferninhos mal-ajambrados de outrora. A preocupação em se esconder ficou menor. "É crescente o número de pessoas que assumem a homossexualidade nas ruas", confirma André Fischer, diretor do site e do festival de cinema Mix Brasil, voltados ao público gay. "Esse fenômeno começou em São Paulo no fim da década de 90 e desde então só tem aumentado."

Situações como a da foto acima não são mais novidade para quem circula pela região dos Jardins. "No começo, eu ficava impressionada com essa meninada do mesmo sexo se beijando no meio da rua", diz Eva dos Santos, que há cinco anos mantém uma barraca de cachorro-quente em frente ao Bar du Bocage, na esquina da Alameda Itu com a Consolação. É nesse pedaço que estão o bar Director's Gourmet, o restaurante L'Open e a danceteria Ultralounge, três dos preferidos da comunidade. "Agora já me acostumei com esse comportamento, mas percebo que a freguesia ficou bem mais jovem."

Eva não é nenhuma militante nem Ph.D. no assunto, mas tem razão ao afirmar que moças e rapazes estão saindo precocemente do armário. "Não freqüento alguns bares desta região, como o Bocage, porque só tem uma galera muito novinha, que acabou de se descobrir", afirma o vendedor Leonardo Proença, 18 anos, que costuma ir ao Director's Gourmet. A boate Tunnel, na Rua dos Ingleses, promove uma espécie de matinê aos domingos. Lota de garotos na faixa dos 20 e poucos anos. Só perde em ferveção para a The Week, inaugurada em setembro na Lapa. A casa, com capacidade para 5.000 pessoas, é o mais novo paqueródromo gay. Tem duas pistas de dança gigantes, dezenas de globos de espelho e uma área ao ar livre com pufes, jardins e uma piscina.


Amanda e Simone, no Bardagrá: juntas há três meses

De olho no filão das superbaladas, Cida Araújo, proprietária de um dos bares para lésbicas de maior sucesso na cidade, o Farol Madalena, na Vila Madalena, promoverá na The Week, quatro vezes por ano, a festa feminina Diva. A primeira edição, em dezembro passado, reuniu 1.000 mulheres. "Há vinte anos, se eu quisesse sair com a minha namorada, a única opção era viajar", conta Cida. "Hoje, médicas e advogadas vêm ao meu bar sem o menor drama." Na pequena pista de dança do Farol, embalada por sucessos dos anos 70 e 80 tocados ao vivo, pares de moças dançam de rosto e corpo colados como rapazes e moças em um baile de clube social do interior. Quem passa na rua, acesso a outros bares do bairro, vê tudo o que acontece por ali.

No Bardagrá, no Itaim, as freqüentadoras são mais jovens e já têm a mesma liberdade. "Não sinto a menor vergonha de mostrar quem eu sou", diz a estudante Simone Lanes, de 18 anos, que namora há três meses a massoterapeuta Amanda Barros, de 24. "Vou a qualquer lugar de mãos dadas, mas só beijo na boca em ambientes GLS", completa Amanda.

 
The Week, na Lapa: duas pistas de dança e capacidade para 5 000 pessoas

Pela grandiosidade da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, que no ano passado reuniu 1,5 milhão de pessoas e se tornou o maior evento homossexual do mundo, a cidade é considerada a São Francisco da América do Sul. "Homossexuais do Brasil inteiro freqüentam os endereços daqui, principalmente pela possibilidade de anonimato que a cidade grande proporciona", diz o dramaturgo e jornalista Mário Viana, autor do Guia Gay São Paulo. Lugar é o que não falta. Estima-se que haja cerca de 120 estabelecimentos GLS na capital. Muitos deles têm também uma clientela de heterossexuais. "São os chamados clubes mixed", esclarece a colunista Erika Palomino, da Folha de S.Paulo. Em casas como D-Edge e ampgalaxy e restaurantes como Ritz e Spot, tornou-se comum ver casais, digamos, convencionais lado a lado com turmas de gays. A convivência é pacífica, como a das cores do arco-íris.

     
   
 
 
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