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1° de dezembro de 2004
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A turma do besteirol

Com imitações hilárias, piadas de
péssimo gosto e críticas aos famosos,
os integrantes do Pânico na TV estão
dando o que falar na cidade. Aos
domingos, o programa atinge no
Ibope picos de audiência de até
13 pontos, marca respeitável para
uma produção quase amadora

Marcella Centofanti

 
Mario Rodrigues

1. Japa, como Mestre Fioda: um dos redatores
2. Vesgo: ex-ouvinte que inferniza as celebridades
3. Zé Fofinho: imitações de Faustão e Gugu
4. Carioca: no estilo malandrão conquistador
5. Emílio: criador e comandante do Pânico
6. Ceará: impagável como Clodovil e Silvio Santos
7. Bola: o mal-humorado e machista do grupo
8. Sabrina: no papel da bonitona-burra
9. Mendigo: de office-boy a humorista



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Assista a um programa do Pânico na TV

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Você provavelmente já deve ter ouvido falar no Repórter Vesgo, na Mulher Samambaia, no Táxi do Gluglu e nas sandálias da humildade. Ou visto um sujeito com uma dentadura esdrúxula imitando os apresentadores Clodovil e Silvio Santos. Caso não saiba do que se trata, corre o risco de ficar sem assunto nas rodinhas às segundas-feiras. Com seu humor escrachado e cruel, o programa Pânico na TV, exibido durante uma hora e meia nas tardes de domingo na Rede TV!, caiu na boca do povo. Os humoristas arrancam gargalhadas ao fazer imitações hilárias, soltar piadas de péssimo gosto e principalmente constranger famosos. A franqueza com que tratam celebridades e aspirantes ao estrelato é de ruborizar o telespectador.

Rodrigo Scarpa, o tal Repórter Vesgo, já pediu a Paulo Maluf a senha de uma suposta conta na Suíça, que o ex-prefeito nega ter, para comprar um terno novo. Numa outra ocasião, quando encontrou Marília Gabriela, sugeriu à jornalista que mandasse um beijo para o filho. Ela perguntou para qual deles e ouviu na lata: "Para o Reynaldo Gianecchini!" A turma não foi menos perversa ao desafiar a apresentadora Luciana Gimenez a montar um quebra-cabeça infantil. "Levo as brincadeiras numa boa", diz Luciana, invariavelmente questionada pela trupe sobre quanto é 7 vezes 8. "Se você se incomodar, aí é que eles pegam no pé mesmo."

Foi exatamente o que aconteceu com o costureiro-apresentador Clodovil Hernandez, que se recusa a calçar as sandálias da humildade, espécie de troféu dedicado às celebridades que se acham, nas palavras deles, a última bolacha do pacote. Há um mês, Vesgo e Wellington Muniz (ou Ceará, o da dentadura) andam na cola do apresentador. A perseguição e as trocas de farpas – Clodovil ameaçou pedir demissão em pleno ar – estão rendendo boa audiência (veja quadro). Detalhe: os dois programas são da mesma emissora.

 
Fotos divulgação
Luciana Gimenez, no estúdio da rádio Jovem Pan FM: "Tem de levar numa boa"

Pânico na TV tinha tudo para ser um mico. Seus protagonistas, ao todo nove pessoas, mal sabiam se posicionar diante de uma câmera. Imagine que a mais familiarizada com o mundo televisivo era Sabrina Sato, que passou três meses exibindo diariamente suas vigorosas curvas no Big Brother Brasil, da Rede Globo. Com pífios 1 200 reais de orçamento por episódio e um único cinegrafista para filmar cenas externas, a produção era (e continua a ser) bastante tosca. No primeiro dia em que a atração foi ao ar, há um ano e dois meses, apenas 1 pontinho sem graça de audiência foi registrado pelo ibope. Com todas aquelas precariedades, de lá para cá os índices cresceram consideravelmente. No último domingo (21), o programa atingiu média de 6 pontos, com pico de 13. É uma marca e tanto para a emissora, o horário em que é exibido (das 18h30 às 20 horas) e a produção quase amadora. Mas está longe de ser uma ameaça aos veteranos Domingão do Faustão, da Globo, e Domingo Legal, do SBT.

Mesmo com dez anos de sucesso na rádio Jovem Pan FM, a performance do besteirol do Pânico na televisão era até então uma incógnita. As piadas saem da cabeça da própria trupe, numa reunião de pauta realizada às terças. Boa parte do que se vê, no entanto, são comentários (machistas e homofóbicos) improvisados. Uma única pessoa redige os textos, com a ajuda de Marcos Aguena, que interpreta o alienígena Mestre Fioda. Bem diferente, por exemplo, do Casseta & Planeta, Urgente!, que conta com uma superestrutura e pelo menos cinco redatores. "De vez em quando eles acertam", diz o humorista Reinaldo Figueiredo, que interpreta, entre outros, o Devagar Franco e o Zé Gallo na atração global. "Mas prefiro o grupo no rádio. Na televisão, é um humor trash demais para o meu gosto."

 
Ceará como Silvio Santos e Zé Fofinho como Faustão: imitações hilárias

Ceará, que faz shows cômicos desde a adolescência, é o único, digamos, humorista profissional. "Somos um bando de malucos que apresenta molecagens", afirma Emílio Surita, 43 anos, 21 de rádio, criador e líder do programa. Surita foi quem teve a idéia de atazanar celebridades em festas. "Os famosos que entrevistamos no rádio não vão à televisão porque têm compromissos com Faustão e Gugu." Neste ano de estréia, apenas dois nomes de peso compareceram ao estúdio da Rede TV!: o cantor Junior Lima e a banda Kid Abelha.

Cada um dos nove integrantes incorpora um tipinho diferente. Marcos Chiesa, o Bola, é o irritadinho. Márvio Lúcio, o Carioca, banca o malandro garanhão. "Nós somos daquele jeito mesmo, não interpretamos", admite Sabrina, que encarna a bonitona-burra. Vinícius Vieira, o Zé Fofinho, protagoniza o quadro Dia de Tristeza. Numa sátira ao apresentador Netinho de Paula, que leva meninas pobres a lojas e restaurantes, eles fazem o inverso com pessoas ricas. O playboy Chiquinho Scarpa encarou o convite. Passeou no Largo Treze de Maio, comeu churrasquinho grego, viajou em um ônibus lotado vestido de casaca e cortou o cabelo em um salão que cobra 5 reais. "Achei divertido porque não conhecia o Largo Treze, nunca tinha ido a um barbeiro, já que meu cabeleireiro vem em casa às quintas-feiras, e não sabia o que era andar de ônibus", diz Scarpa.

 
Mario Rodrigues
Sabrina e a capa da próxima edição de Playboy: ensaio de 23 páginas

Antes quase anônimos, eles estranham a fama. "As pessoas chegam para falar comigo como se me conhecessem, dando tapinhas nas costas", conta Ceará, que na última semana foi reconhecido pelo jornaleiro e pelo funcionário do estacionamento (do primeiro, ganhou uma revista; do segundo, a isenção do pagamento da conta). Atualmente, cada um fatura, em média, 20.000 reais por mês. Carlos Alberto da Silva, o Mendigo, ex-interno da Febem e office-boy da rádio, circula de Audi A3 e namora Sabrina, que, em dezembro, recheia a capa de Playboy pela segunda vez. A mesma edição da revista mostra a Mulher Samambaia (que não faz nada além de segurar um vaso da planta e, claro, exibir o corpo) sem seu biquíni em forma de folhas.

Rodrigo Scarpa, um ex-ouvinte insistente que entrou na Jovem Pan como estagiário de promoção, afirma que até dois anos atrás ganhava salário de 150 reais. Hoje, Vesgo mora sozinho num flat próprio, em Moema. No site de relacionamentos Orkut, ele é o mais popular dos nove. Das seis comunidades em sua homenagem, a mais numerosa conta com 30.000 membros (três vezes mais que a principal comunidade formada por fãs do Pânico).

Divulgação
Mulher Samambaia: a "função" da ajudante de palco é segurar uma planta e, de quebra, exibir o corpo


O Pânico na TV foi uma aposta do empresário Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, dono da Jovem Pan. "Fomos recusados por diversas emissoras", diz ele. Aos poucos, o prestígio começa a vir. A verba da produção dobrou de míseros 1.200 reais para ainda ridículos 2.500 reais. Agora, há dois cinegrafistas para reportagens. Nenhuma outra atração da Rede TV! recebe tantos e-mails e cartas. São 17.000 por semana. Pânico na TV foi eleito o programa revelação de 2003 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Para faturar mais dinheiro, Tutinha estuda licenciar as sandálias da humildade para uma empresa de calçados. E prolongar o tempo do programa na TV. Para alívio das celebridades, é uma tentação que Emílio Surita promete evitar.

 

Vale a pena ver de novo

 
Luciana Cavalcanti/Folha Imagem
"Maluf, me passa a senha da sua conta na Suíça para eu comprar um terno novo?"
Repórter Vesgo para Paulo Maluf, durante a campanha para a prefeitura, em setembro
Samir Baptista/Folha Imagem
"Serra, você foi eleito o careca do ano!"
O novo prefeito ganhou o troféu da festa do Video Music Brasil, da MTV, em outubro
Fotos divulgação
"­ Marília, manda um beijo para o seu filho...
­ Qual deles?
­ O Reynaldo Gianecchini!"

Diálogo entre o Repórter Vesgo e Marília Gabriela, no jantar do Ação Criança, em setembro
"Mariana, você não deu certo como apresentadora, atriz e cantora. O que você é agora?"
Repórter Vesgo para Mariana Kupfer, em março
Smack! Smaaaaack! Smack!
No aniversário de Luciana Gimenez, em outubro de 2003, Roberta Miranda tascou um beijão de treze segundos no Repórter Vesgo
"Luana, por favor, calce as sandálias da humildade..."
Na entrega do Prêmio Austregésilo de Athayde, em setembro

 

A polêmica que dá audiência

 
Mario Rodrigues
Divulgação
Ceará e Clodovil: esforço para o apresentador descer do salto e calçar as sandálias da humildade

Começou como uma brincadeira. Agora, um mês depois, virou uma espécie de guerra de comadres. Vítima do quadro Sandálias da Humildade, o apresentador Clodovil Hernandez questionou a masculinidade e o talento de Emílio Surita no A Casa É Sua, também da Rede TV!. A briga garantiu boa audiência aos dois programas, mas nada parecia ser combinado. Na última quinta-feira, porém, o jornalista Ricardo Feltrin, autor da coluna Ooops!, na Folha Online, noticiou um acordo feito no último dia 10 entre Francisco Cortez, empresário de Clodovil, e Mônica Pimentel, diretora artística da Rede TV!. Na versão dela, não passou de um encontro informal pelos corredores da emissora. Clodovil topou calçar as sandálias. A abordagem seria ao vivo, porque o apresentador fazia questão de desabafar suas mágoas. Eis que, nesse meio tempo, Clodovil foi perseguido de carro e helicóptero pela turma do Pânico. Acabou por desistir do trato. Do outro lado, os humoristas garantem: só sossegam quando o apresentador descer do salto alto.

 

 

     
 



 

   
 
 
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