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CRÔNICA
Por que essa pressa?
Walcyr Carrasco
Ando surpreso. De uns tempos para cá,
as pessoas parecem estar perdendo a noção de fila.
Para embarcar no aeroporto, nem se diga! Assim que o vôo é
chamado, sempre há um grupo de passageiros que se amontoa
em frente à entrada. Crianças, idosos e deficientes
têm preferência no embarque. Poucos conseguem chegar
na frente. Dia desses, no Aeroporto de Congonhas, ajudei uma senhora
com duas crianças a evitar que os pimpolhos fossem atropelados
pelos outros passageiros. Ela, que tinha preferência, ficou
por último! Detalhe: os lugares são marcados previamente.
Por que a pressa?
Imagino como sofre o caixa de um bar, tendo
de atender várias pessoas que gritam ao mesmo tempo. Em metrô,
é um sufoco. O correto seria esperar que saia quem vai desembarcar.
Tentei fazer isso no horário de pico. Fui empurrado, levei
uma cotovelada na orelha e ainda me xingaram! Uma loucura! Quem
quer sair empurra, quem quer entrar empurra mais!
Até entre os elegantes, reina a confusão!
Fui a uma festa. Serviram o jantar em um bufê, com comida
farta, de dar água na boca. Os mais educadinhos foram se
servindo em fila. Dali a pouco entrou uma perua no meio, estendendo
as unhas pintadas:
Deixa eu pegar só uma saladinha!
Pronto! Outro voou para o prato quente, furando
todo mundo. A fila parou. Dois ou três aproveitaram a deixa
para se servir, espetando quem estava na frente com os garfos.
Ah, desculpe... É que eu ia
pegar aquela batatinha... avisou um.
É só um segundo... Já
saio disse outro, erguendo a faca para garantir espaço.
Quando chego a um restaurante e avisam que
tem espera, vou embora. Ninguém respeita ordem de chegada.
A começar dos maîtres, que dão preferência
a clientes fiéis, conhecidos... seja lá quem for.
É justo que um cliente tenha suas vantagens. Mas, então,
por que não reservar a mesa com antecedência? Nem vou
citar nome de restaurante, já que a maioria é assim.
Depois de esperar meia hora, sempre vejo alguém entrar e
acomodar-se imediatamente. Se reclamo, a resposta é sempre
a mesma:
Eles já estavam esperando faz
tempo, o senhor se enganou.
Que raiva! Até perco o apetite. E olha
que para eu perder o apetite não é fácil, não!
Elevador, então, nem se fala. No Shopping
Higienópolis, são demoradíssimos. Outro dia,
estava subindo quando parou em um andar. Uma jovem com um carrinho
de bebê esperava.
Está lotado avisaram.
É o terceiro que passa, e não
consigo entrar reclamou a moça.
Os passageiros ergueram os queixos, como se
não fosse com eles. Alguém supunha que ela fosse descer
com o carrinho em escada rolante? Ela enfiou o carrinho. Todos se
apertaram, incomodados, como se o bebê fosse o estorvo. Fiquei
no fundo. Quando cheguei ao meu andar, avisei:
Preciso descer.
Ninguém se mexeu. Fui até a
saída. Pisei no pé de uma mocinha, que gritou ofendida.
Dei uma cotovelada em um gorducho que estava parado em frente à
porta, sem mexer as banhas. Aliviado, botei o pé para fora!
Elevadores, aliás, transformaram-se num purgatório.
Não é inferno porque um dia a gente sai. Os espaçosos
espremem os mais corteses. Nunca falta quem use um perfume fortíssimo,
desses de deixar a cabeça tonta. Tudo seria passável
se ao menos fosse possível entrar e sair de um elevador cheio
sem passar por cenas de pugilato. Mesmo porque, como nos metrôs,
quem vai entrar nunca deixa os outros desembarcar!
É impossível que todo mundo
tenha sempre tanta pressa. Minha impressão é que,
com o stress da vida moderna, as pessoas andam esquecendo as regras
mínimas do bem viver.
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