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O sucesso do Carrasco

Autor de Chocolate com Pimenta, o cronista
de Veja São Paulo firma-se como um craque
das novelas de época

Alessandro Duarte


Fotos Mario Rodrigues


Walcyr Carrasco: humor e romance na trama das 6
Veja também
Crônicas de Walcyr Carrasco publicadas em Veja São Paulo desde janeiro de 2002

De segunda a sábado, às 18 horas, Walcyr Carrasco acomoda-se no sofá de sua sala de TV e, inteiramente concentrado, começa a acompanhar Chocolate com Pimenta ao lado de "Huno" e "Violante". É uma espécie de ritual sagrado para ele e seus cachorros, que se enroscam no dono em busca de carinho. Quando o capítulo da última segunda chegou ao fim, ficou emocionado. Surpreendida por uma forte chuva ao lado do namorado Danilo (Murilo Benício), a personagem Ana Francisca (Mariana Ximenes) acaba por se entregar dentro de um carro. A cena de sexo é mostrada sem apelações, ao som da versão brasileira de Over the Rainbow, música-tema do filme O Mágico de Oz. "Foi exatamente assim que eu imaginei", disse. Autor da nova novela das 6 da Rede Globo, Carrasco não esconde sua alegria. As peripécias da moça ingênua que passa por uma série de humilhações, engravida, casa-se com um rico industrial, muda-se para Buenos Aires e retorna depois de sete anos disposta a se vingar parecem ter caído no gosto do público. Ambientado na cidade fictícia de Ventura, nos anos 20, o folhetim vem conquistando a maior audiência do horário dos últimos três anos. A antecessora, Agora É que São Elas, por exemplo, registrou em sua semana de estréia uma média de 30 pontos de ibope. No mesmo período, Chocolate alcançou 38 pontos.

Escritor, autor teatral, jornalista, cronista de Veja São Paulo e novelista, Carrasco, 51 anos, especializou-se em tramas de época. Só se afastou do gênero em 1989, quando fez para o SBT Cortina de Vidro, sua primeira incursão no mundo das telenovelas. O êxito veio em 1996, com a adaptação para a extinta TV Manchete da saga de Xica da Silva, a escrava que conquistou um dos homens mais ricos do Brasil colônia. Como era na ocasião consultor do departamento de teledramaturgia do SBT, Carrasco precisou se esconder sob o pseudônimo de Adamo Angel para evitar problemas com o patrão Silvio Santos. Só foi descoberto nos últimos capítulos. "Silvio me perdoou", lembra. Em 1998 fez Fascinação, para o SBT. Chegou à Globo por indicação do diretor Walter Avancini, que havia trabalhado com ele em Xica. Escreveu O Cravo e a Rosa e A Padroeira. No fim de 2002 foi chamado para assumir Esperança, com o afastamento de seu criador, Benedito Ruy Barbosa.


Fotos Mario Rodrigues
gues
Carrasco rende-se à tentação de um bolo de chocolate e tenta perder algumas calorias na esteira: gorduras extras na mira

O sucesso de Chocolate com Pimenta pode ser explicado pela caprichada reconstituição dos costumes do início do século XX e pela acertada escolha do elenco. Mas é o texto apurado de Carrasco que chama mais a atenção. "Tem tudo o que o público espera de uma boa novela: amor, magia e humor", afirma a protagonista Mariana Ximenes, que participou de Fascinação e de A Padroeira. "Ele trafega muito bem entre a comédia mais tradicional e o absurdo", diz o ator Fulvio Stefanini, intérprete do prefeito Vivaldo e amigo de Carrasco há 25 anos. "Meu personagem vive algumas situações que só seriam possíveis em um desenho animado."

O humor ácido e muitas vezes venenoso é uma das principais características da produção de Carrasco. Nas crônicas de Vejinha, para a qual colabora quinzenalmente desde 1992, costuma expor sem dó situações constrangedoras vividas por amigos. Com o nome ou uma descrição que permite aos mais próximos identificá-los. Um de seus alvos prediletos é a jornalista Lavínia Fadigas, a Lalá, que o conhece faz quinze anos. "Às vezes conto uma novidade e penso: 'Ai, isso vai virar crônica'", afirma ela. E em geral vira. Brava mesmo, diz ter ficado só uma vez. Convidado há alguns anos para sua festa de aniversário, o cronista deparou com o show de um stripper. Ficou pasmo e escreveu uma história em torno disso. "Tudo bem que ele falasse que tinha gente tirando a roupa durante a comemoração. Mas precisava dizer que a festa era de uma amiga quase centenária?", queixa-se Lalá, que tem 54 anos. Outra de suas personagens é Vera Stefanini, mulher de Fulvio. Sempre que a crônica trata de algum animal indefeso, lá está ela agindo em socorro do bicho. "Quando passo por alguma coisa engraçada, vou correndo contar a ele", revela.


Fotos Mario Rodrigues
gues
No escritório, onde escreve durante a madrugada, e na sala de TV, com seus cachorros: horário entre 6 e 7 da noite é sagrado

A figura principal de suas histórias é ele próprio. Nos últimos onze anos, informou os leitores sobre suas brigas com empresas e vendedores, os objetos que comprou e descobriu não servirem para nada, contratempos tecnológicos, a perda da mãe e do pai e suas sete mudanças de endereço. Carrasco vive se mudando. Ele detesta permanecer muito tempo em um lugar. Sente-se realizado quando está reformando uma casa. Logo que a obra é concluída, volta a ficar inquieto. Agora mesmo, recém-instalado em uma bela casa de quatro quartos no Morumbi, onde vive na companhia de dois empregados e três cachorros, começou a acionar os amigos para receber indicações de apartamentos vagos na Avenida São Luís, no centro. Detalhe: era onde ele morava antes de ir para o Morumbi. "Eu sou um cigano", assume.

Nenhum tema, porém, aparece com tanta freqüência como suas inúmeras tentativas de perder peso. "A maior preocupação da vida dele é a barriga", entrega Lalá. "Ele até tenta fazer regime, mas adora comer. É um glutão", diz Vera. Suas perdições são os doces e as feijoadas. É capaz de encomendar um bolo de chocolate e comer três pedaços fornidos de uma vez. Entre seus restaurantes prediletos estão o chinês Chi-Fu, na Liberdade, o japonês Sushi Papaya, em Higienópolis, o francês La Casserole, no centro, e o italiano Gero, nos Jardins. Churrascarias rodízio fazem parte de seu roteiro. É fã da Barbacoa, no Itaim Bibi, e da Bem-Te-Vi, na Rodovia Raposo Tavares. "Ele não se levanta antes de ter experimentado absolutamente tudo", afirma seu assessor, Roberto Casselli. Para tentar dar fim a algumas gordurinhas extras, Carrasco montou uma sala de ginástica e recebe, duas vezes por semana, um personal trainer em domicílio. Como ele escreveu em diversas ocasiões, experimentou nos últimos anos tudo quanto é regime e ginástica. Desistiu inúmeras vezes, mas acha que agora conseguiu uma vitória: com 1,70 metro, ele garante que atualmente pesa 80 quilos. "O problema é que, não importa quanto emagreça, a barriga continua lá. Firme e forte", cutuca Lalá. Carrasco pensou em eliminá-la com uma lipo, mas descobriu que sua gordura era "anticirurgia".

Paulista de Bernardino de Campos criado em Marília, Carrasco já era gordinho e sonhava em ser escritor quando, aos 13 anos, ganhou sua primeira máquina de escrever. Precisou vencer a apreensão dos pais, que não confiavam no futuro da profissão (veja crônica). Virou jornalista após se formar na Universidade de São Paulo. Trabalhou em VEJA e foi diretor de redação das revistas Contigo! e Interview. No jornal O Estado de S. Paulo, assinou uma coluna social repleta de notas apimentadas. "Um dia, ainda estava na redação às 4 da manhã e desisti", lembra ele. "Achei que podia usar esse tempo em algo para mim mais prazeroso." Passou a dedicar-se mais aos livros infanto-juvenis. O de maior repercussão é Vida de Droga. Lançado em 1999, conta a história de uma menina de classe média alta que, depois de o pai ir à falência, passa a consumir cocaína e crack em doses cavalares. Está na terceira edição e vendeu 78.000 exemplares. Pode-se dizer também que ele deu uma sensível contribuição para a melhoria estética da dramaturgia nacional. Foi em uma peça sua que a então modelo Ana Paula Arosio debutou nos palcos como atriz, em 1995, aos 19 anos. "Com ele eu descobri o que queria fazer da vida", diz Ana Paula.

Walcyr Carrasco escreve os capítulos de Chocolate com Pimenta no horário que o levou a desistir do jornalismo: de madrugada. Começa por volta de 11 da noite e pára às 4. Enquanto decide o rumo de cada personagem, mantém uma xícara de café cheia ao alcance das mãos. Acorda por volta do meio-dia. Entre 6 e 7 da noite, nem atende ao telefone. Em seguida, acompanha um pouco do que acontece nas demais novelas. Ao contrário de outros autores, não tem os capítulos esboçados previamente. "É a tela em branco do computador que decide o que vou fazer ali." Trabalha sozinho. Seus eventuais colaboradores ajudam-no na pesquisa e lêem o que preparou à noite para evitar que ele volte a um assunto abordado anteriormente ou pule aspectos importantes da narrativa. Eles ainda se encarregam de colocar vírgulas e acentos esquecidos. Enquanto a novela está no ar, Carrasco fica completamente envolvido pela história. O drama é quando ela chega ao fim. "Sempre entro em depressão", confessa. "Você convive com os personagens durante oito, nove meses. Aí, é como se um monte de amigos morresse ao mesmo tempo."

 

Aventuras na ribalta


Arquivo pessoal
Com a atriz Irene Ravache, durante uma festa em 1996: melhores tiradas de seus textos saem da observação dos amigos



O elenco de Batom, peça que marcou em 1995 a estréia de Ana Paula Arosio nos palcos: "Com ele descobri o que queria fazer da vida"
Lailson Santos



Divulgação
Tânia Sekler e Caio Blat, na versão paulistana de Extase, em 1997: texto rendeu a Carrasco o Prêmio Shell de melhor autor

 

Trajetória na telinha


Marisa Ochiyama
Matilde Mastrangi e John Herbert, em Cortina de Vidro, de 1989, no SBT, sua primeira incursão no mundo das telenovelas: única a se passar nos dias atuais



Xica da Silva, de 1996, elevou a audiência da extinta TV Manchete e revelou a atriz Taís Araújo: história recheada de cenas sensuais
Oscar Cabral



Roberto Valverde
Luigi Baricelli e Deborah Secco, em cena de A Padroeira, de 2001: trama sofre reviravolta após a saída do diretor Walter Avancini e consegue se recuperar no Ibope



Adaptação de A Megera Domada, de Shakespeare, O Cravo e a Rosa repetiu o sucesso de 2000 quando foi reprisada neste ano: Adriana Esteves e Eduardo Moscovis estavam impagáveis
Marcia Figueiredo

 

         
     
 
 
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