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PERFIL
O
sucesso do Carrasco
Autor
de Chocolate
com Pimenta, o cronista
de Veja São Paulo firma-se como um craque
das novelas de época
Alessandro
Duarte
Fotos Mario Rodrigues
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| Walcyr
Carrasco: humor e romance na trama das 6 |
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De
segunda a sábado, às 18 horas, Walcyr Carrasco acomoda-se
no sofá de sua sala de TV e, inteiramente concentrado, começa
a acompanhar Chocolate com Pimenta ao lado de "Huno" e "Violante".
É uma espécie de ritual sagrado para ele e seus cachorros,
que se enroscam no dono em busca de carinho. Quando o capítulo
da última segunda chegou ao fim, ficou emocionado. Surpreendida
por uma forte chuva ao lado do namorado Danilo (Murilo Benício),
a personagem Ana Francisca (Mariana Ximenes) acaba por se entregar
dentro de um carro. A cena de sexo é mostrada sem apelações,
ao som da versão brasileira de Over the Rainbow, música-tema
do filme O Mágico de Oz. "Foi exatamente assim que
eu imaginei", disse. Autor da nova novela das 6 da Rede Globo, Carrasco
não esconde sua alegria. As peripécias da moça
ingênua que passa por uma série de humilhações,
engravida, casa-se com um rico industrial, muda-se para Buenos Aires
e retorna depois de sete anos disposta a se vingar parecem ter caído
no gosto do público. Ambientado na cidade fictícia
de Ventura, nos anos 20, o folhetim vem conquistando a maior audiência
do horário dos últimos três anos. A antecessora,
Agora É que São Elas, por exemplo, registrou
em sua semana de estréia uma média de 30 pontos de
ibope. No mesmo período, Chocolate alcançou
38 pontos.
Escritor,
autor teatral, jornalista, cronista de Veja São Paulo
e novelista, Carrasco, 51 anos, especializou-se em tramas de época.
Só se afastou do gênero em 1989, quando fez para o
SBT Cortina de Vidro, sua primeira incursão no mundo
das telenovelas. O êxito veio em 1996, com a adaptação
para a extinta TV Manchete da saga de Xica da Silva, a escrava
que conquistou um dos homens mais ricos do Brasil colônia.
Como era na ocasião consultor do departamento de teledramaturgia
do SBT, Carrasco precisou se esconder sob o pseudônimo de
Adamo Angel para evitar problemas com o patrão Silvio Santos.
Só foi descoberto nos últimos capítulos. "Silvio
me perdoou", lembra. Em 1998 fez Fascinação,
para o SBT. Chegou à Globo por indicação do
diretor Walter Avancini, que havia trabalhado com ele em Xica.
Escreveu O Cravo e a Rosa e A Padroeira. No fim
de 2002 foi chamado para assumir Esperança, com o
afastamento de seu criador, Benedito Ruy Barbosa.
Fotos Mario Rodrigues
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gues
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| Carrasco
rende-se à tentação de um bolo de chocolate
e tenta perder algumas calorias na esteira: gorduras extras
na mira |
O sucesso
de Chocolate com Pimenta pode ser explicado pela caprichada
reconstituição dos costumes do início do século
XX e pela acertada escolha do elenco. Mas é o texto apurado
de Carrasco que chama mais a atenção. "Tem tudo o
que o público espera de uma boa novela: amor, magia e humor",
afirma a protagonista Mariana Ximenes, que participou de Fascinação
e de A Padroeira. "Ele trafega muito bem entre a comédia
mais tradicional e o absurdo", diz o ator Fulvio Stefanini, intérprete
do prefeito Vivaldo e amigo de Carrasco há 25 anos. "Meu
personagem vive algumas situações que só seriam
possíveis em um desenho animado."
O
humor ácido e muitas vezes venenoso é uma das principais
características da produção de Carrasco. Nas
crônicas de Vejinha, para a qual colabora quinzenalmente
desde 1992, costuma expor sem dó situações
constrangedoras vividas por amigos. Com o nome ou uma descrição
que permite aos mais próximos identificá-los. Um de
seus alvos prediletos é a jornalista Lavínia Fadigas,
a Lalá, que o conhece faz quinze anos. "Às vezes conto
uma novidade e penso: 'Ai, isso vai virar crônica'", afirma
ela. E em geral vira. Brava mesmo, diz ter ficado só uma
vez. Convidado há alguns anos para sua festa de aniversário,
o cronista deparou com o show de um stripper. Ficou pasmo e escreveu
uma história em torno disso. "Tudo bem que ele falasse que
tinha gente tirando a roupa durante a comemoração.
Mas precisava dizer que a festa era de uma amiga quase centenária?",
queixa-se Lalá, que tem 54 anos. Outra de suas personagens
é Vera Stefanini, mulher de Fulvio. Sempre que a crônica
trata de algum animal indefeso, lá está ela agindo
em socorro do bicho. "Quando passo por alguma coisa engraçada,
vou correndo contar a ele", revela.
Fotos Mario Rodrigues
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gues
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| No
escritório, onde escreve durante a madrugada, e na sala
de TV, com seus cachorros: horário entre 6 e 7 da noite
é sagrado |
A
figura principal de suas histórias é ele próprio.
Nos últimos onze anos, informou os leitores sobre suas brigas
com empresas e vendedores, os objetos que comprou e descobriu não
servirem para nada, contratempos tecnológicos, a perda da
mãe e do pai e suas sete mudanças de endereço.
Carrasco vive se mudando. Ele detesta permanecer muito tempo em
um lugar. Sente-se realizado quando está reformando uma casa.
Logo que a obra é concluída, volta a ficar inquieto.
Agora mesmo, recém-instalado em uma bela casa de quatro quartos
no Morumbi, onde vive na companhia de dois empregados e três
cachorros, começou a acionar os amigos para receber indicações
de apartamentos vagos na Avenida São Luís, no centro.
Detalhe: era onde ele morava antes de ir para o Morumbi. "Eu sou
um cigano", assume.
Nenhum
tema, porém, aparece com tanta freqüência como
suas inúmeras tentativas de perder peso. "A maior preocupação
da vida dele é a barriga", entrega Lalá. "Ele até
tenta fazer regime, mas adora comer. É um glutão",
diz Vera. Suas perdições são os doces e as
feijoadas. É capaz de encomendar um bolo de chocolate e comer
três pedaços fornidos de uma vez. Entre seus restaurantes
prediletos estão o chinês Chi-Fu, na Liberdade, o japonês
Sushi Papaya, em Higienópolis, o francês La Casserole,
no centro, e o italiano Gero, nos Jardins. Churrascarias rodízio
fazem parte de seu roteiro. É fã da Barbacoa, no Itaim
Bibi, e da Bem-Te-Vi, na Rodovia Raposo Tavares. "Ele não
se levanta antes de ter experimentado absolutamente tudo", afirma
seu assessor, Roberto Casselli. Para tentar dar fim a algumas gordurinhas
extras, Carrasco montou uma sala de ginástica e recebe, duas
vezes por semana, um personal trainer em domicílio. Como
ele escreveu em diversas ocasiões, experimentou nos últimos
anos tudo quanto é regime e ginástica. Desistiu inúmeras
vezes, mas acha que agora conseguiu uma vitória: com 1,70
metro, ele garante que atualmente pesa 80 quilos. "O problema é
que, não importa quanto emagreça, a barriga continua
lá. Firme e forte", cutuca Lalá. Carrasco pensou em
eliminá-la com uma lipo, mas descobriu que sua gordura era
"anticirurgia".
Paulista
de Bernardino de Campos criado em Marília, Carrasco já
era gordinho e sonhava em ser escritor quando, aos 13 anos, ganhou
sua primeira máquina de escrever. Precisou vencer a apreensão
dos pais, que não confiavam no futuro da profissão
(veja crônica).
Virou jornalista após se formar na Universidade de São
Paulo. Trabalhou em VEJA e foi diretor de redação
das revistas Contigo! e Interview. No jornal O
Estado de S. Paulo, assinou uma coluna social repleta de notas
apimentadas. "Um dia, ainda estava na redação às
4 da manhã e desisti", lembra ele. "Achei que podia usar
esse tempo em algo para mim mais prazeroso." Passou a dedicar-se
mais aos livros infanto-juvenis. O de maior repercussão é
Vida de Droga. Lançado em 1999, conta a história
de uma menina de classe média alta que, depois de o pai ir
à falência, passa a consumir cocaína e crack
em doses cavalares. Está na terceira edição
e vendeu 78.000 exemplares. Pode-se dizer
também que ele deu uma sensível contribuição
para a melhoria estética da dramaturgia nacional. Foi em
uma peça sua que a então modelo Ana Paula Arosio debutou
nos palcos como atriz, em 1995, aos 19 anos. "Com ele eu descobri
o que queria fazer da vida", diz Ana Paula.
Walcyr
Carrasco escreve os capítulos de Chocolate com Pimenta
no horário que o levou a desistir do jornalismo: de madrugada.
Começa por volta de 11 da noite e pára às 4.
Enquanto decide o rumo de cada personagem, mantém uma xícara
de café cheia ao alcance das mãos. Acorda por volta
do meio-dia. Entre 6 e 7 da noite, nem atende ao telefone. Em seguida,
acompanha um pouco do que acontece nas demais novelas. Ao contrário
de outros autores, não tem os capítulos esboçados
previamente. "É a tela em branco do computador que decide
o que vou fazer ali." Trabalha sozinho. Seus eventuais colaboradores
ajudam-no na pesquisa e lêem o que preparou à noite
para evitar que ele volte a um assunto abordado anteriormente ou
pule aspectos importantes da narrativa. Eles ainda se encarregam
de colocar vírgulas e acentos esquecidos. Enquanto a novela
está no ar, Carrasco fica completamente envolvido pela história.
O drama é quando ela chega ao fim. "Sempre entro em depressão",
confessa. "Você convive com os personagens durante oito, nove
meses. Aí, é como se um monte de amigos morresse ao
mesmo tempo."
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Aventuras
na ribalta
Arquivo pessoal
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Com
a atriz Irene Ravache, durante uma festa em 1996: melhores
tiradas de seus textos saem da observação dos amigos |
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O
elenco de Batom, peça que marcou em 1995 a estréia
de Ana Paula Arosio nos palcos: "Com ele descobri o
que queria fazer da vida"
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Lailson Santos
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Divulgação
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Tânia
Sekler e Caio Blat, na versão paulistana de Extase, em
1997: texto rendeu a Carrasco o Prêmio Shell de melhor
autor |
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Trajetória
na telinha
Marisa Ochiyama
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Matilde
Mastrangi e John Herbert, em Cortina de Vidro,
de 1989, no SBT, sua primeira incursão no mundo das telenovelas:
única a se passar nos dias atuais |
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Xica
da Silva, de 1996, elevou a audiência da extinta
TV Manchete e revelou a atriz Taís Araújo: história
recheada de cenas sensuais
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Oscar Cabral
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Roberto Valverde
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Luigi
Baricelli e Deborah Secco, em cena de A Padroeira,
de 2001: trama sofre reviravolta após a saída do diretor
Walter Avancini e consegue se recuperar no Ibope |
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Adaptação
de A Megera Domada, de Shakespeare, O Cravo
e a Rosa repetiu o sucesso de 2000 quando foi reprisada
neste ano: Adriana Esteves e Eduardo Moscovis estavam
impagáveis
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Marcia Figueiredo
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