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PERFIL
O advogado das causas impossíveis
Com uma coleção de clientes que
vai
da estudante Suzane von Richthofen aos
sócios da Daslu, Antônio Claudio Mariz
de Oliveira é o criminalista do momento
Alessandro Duarte
Mario Rodrigues
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| Mariz, em seu escritório
na Avenida Paulista: "Na advocacia criminal conhecemos as misérias
e as grandezas humanas" |
Cerca de 150 000 advogados atuam na cidade de São
Paulo. Entre eles, os que recebem maior atenção da
mídia são os criminalistas, aqueles que lidam com
homicídios, corrupção, tráfico de drogas
e tudo o mais que aparece nas páginas policiais. Mas, no
quesito presença sob os holofotes, hoje em dia ninguém
rivaliza com o paulistano Antônio Claudio Mariz de Oliveira.
Nos últimos anos, ele tem sido fotografado, filmado e entrevistado
com freqüência cada vez maior. Tudo por causa dos casos
rumorosos em que é chamado para atuar. Entre seus clientes,
destacam-se a proprietária da Daslu, Eliana Tranchesi, acusada
de formação de quadrilha e falsidade ideológica;
o filho de Pelé, Edinho, acusado de envolvimento com tráfico
de drogas; Antonio Marcos Pimenta Neves, ex-diretor de redação
de O Estado de S.Paulo, que confessou ter assassinado a namorada
a tiros; o ex-prefeito Celso Pitta, que enfrentou um processo de
impeachment; e Suzane von Richthofen, a estudante que mandou matar
os pais.
Ele é atualmente a estrela mais reluzente
em uma constelação que já contou com o fluminense
Heleno Fragoso (1926-1985), o piauiense Evandro Lins e Silva (1912-2002)
e os paulistas Waldir Troncoso Peres, hoje afastado dos tribunais,
e Márcio Thomaz Bastos, que não advoga desde que se
tornou ministro da Justiça. Aos 60 anos de idade e 37 de
carreira, Mariz conquistou a fama de que livra qualquer um da cadeia.
Um exagero, pois é claro que ele não vence todas as
batalhas. Seu retrospecto, no entanto, é de tirar o chapéu.
Todos os clientes citados no parágrafo anterior, por exemplo,
estavam em liberdade na semana passada. Um dos primeiros casos a
fortalecer a reputação de Mariz foi a defesa de PC
Farias, no início dos anos 90. Acusado de receber dinheiro
para fazer tráfico de influência, o ex-tesoureiro de
Fernando Collor recorreu ao advogado. Na época, comentava-se
que Mariz cobraria 2 milhões de dólares de honorários
por um trabalho que provavelmente se arrastaria por anos. PC teve
sua prisão decretada. "Eu disse para ele ficar tranqüilo
e se apresentar, pois conseguiria soltá-lo em vinte dias",
lembra o advogado. Como PC fugiu (seria preso na Tailândia
meses depois), Mariz desistiu de atendê-lo e embolsou apenas
parte da bolada.
Contar com Mariz ao lado do banco dos réus
é caro. Apenas o pedido de habeas corpus para livrar o cliente
da cadeia sai entre 50.000 e 100.000 reais, que ele recebe mesmo
se não obtiver sucesso. Acompanhar um processo inteiro não
costuma custar menos de 80.000 reais. Esses valores variam de acordo
com a complexidade de cada caso e da capacidade financeira de quem
o contrata segundo o criminalista, 20% das pessoas que atende
não pagam nada. Além dele, trabalham em seu escritório,
no 4º andar de um vistoso prédio na Avenida Paulista,
mais oito advogados. Cuidam atualmente de 700 ações.
"São 700 casos de inocentes", brinca.
Formado pela PUC em 1969, Mariz escolheu o direito
criminal por acaso. Mesmo antes de sair da faculdade, ele trabalhava
no escritório cível de seu pai, o desembargador Waldemar
Mariz de Oliveira Júnior, morto em 2001. Foi convidado por
José Carlos Dias, outra fera dos tribunais que viria a ser
ministro da Justiça no governo FHC, para ajudá-lo
em um processo de homicídio. Pegou gosto e passou a atuar
como defensor dativo (aquele que é designado pela Justiça
para atender gratuitamente réus sem recursos). "Na advocacia
criminal conhecemos as misérias e as grandezas humanas",
afirma Mariz. "A adrenalina é sem igual."
Mariz foi secretário de Justiça e
de Segurança Pública no governo Quércia, presidiu
a OAB em São Paulo e ocupa atualmente a presidência
do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.
É filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) desde 1997,
por influência da ex-prefeita e deputada federal Luiza Erundina,
de quem é amigo. "Ele está sempre me indicando livros
e discos de música popular brasileira", diz Erundina. A música
é uma das paixões do criminalista. Quando se aposentar,
ele pretende escrever sobre a história do Brasil por meio
de canções. Para isso, estuda, ouve sambas das primeiras
décadas do século XX e anota suas impressões.
Com 1,76 metro, 100 quilos, fala pausada e hábitos simples,
parece um bonachão. Mas se transforma quando veste uma beca
e entra em um tribunal. "Ele faz parte de uma linhagem de grandes
oradores, característica muito importante para quem atua
no júri", comenta a promotora Luiza Nagib Eluf.
Ao defender réus como Suzane von Richthofen,
Pimenta Neves ou PC Farias, Mariz irrita muita gente que parece
ignorar o princípio jurídico elementar de que qualquer
acusado, seja lá qual for o crime cometido, tem direito à
mais ampla defesa direito, aliás, do qual não
pode abrir mão. "Já chegaram a escrever para um jornal
dizendo que esse tipo de advogado devia ir para a cadeia junto com
os clientes", diz ele, que não se incomoda com patrulhamentos.
Nunca rejeita um caso por causa da natureza do crime cometido. Recorda-se
apenas de uma ocasião em que se negou a defender um cliente
por isso. Foi no início da década de 70, quando trabalhava
para o Centro Social da Polícia Militar de São Paulo
e encontrou um PM acusado de atentado violento ao pudor contra uma
menina de 4 anos. "Minha primeira filha era pequena e aquilo me
embrulhou o estômago", conta. "Todo mundo tem direito à
defesa, mas o advogado deve sempre consultar o estômago."
Nascido na Vila Mariana, quando garoto jogava bola
nas proximidades da Rua Estela. Era um lateral direito perna-de-pau,
como ele mesmo se define. Manteve o gosto pelo futebol. São-paulino
doente, Mariz é conselheiro vitalício do clube e assiste
aos jogos nas cadeiras cativas do Estádio do Morumbi. Em
1992 candidatou-se a presidente, mas perdeu a eleição.
Para comemorar o título de tricampeão mundial, conquistado
no fim do ano passado, personalizou o toque de seu celular com o
hino do tricolor. Mora com a mulher, a também advogada Ângela
Mariz de Oliveira, que conheceu na faculdade, em uma casa no bairro
de Cidade Jardim. Os dois têm quatro filhos: a advogada Renata,
a jornalista Juliana, a nutricionista Fernanda e o estudante de
direito Fábio. Mas Mariz derrete-se mesmo é pela neta
de 6 anos, Maria Fernanda, filha de Renata. Por ela, joga-se na
piscina e brinca de caçadas noturnas no jardim de sua residência.
"Ele até rola no chão, coisa que eu nunca tinha visto",
conta Juliana. Quando não leva serviço para além
do expediente, passa os fins de semana na Praia de Pernambuco, no
Guarujá, ou no Alto do Capivari, em Campos do Jordão,
onde tem casas. Uma vez por ano, faz uma viagem internacional. Em
outubro último, passou quinze dias na região de Bordeaux,
na França.
É vaidoso (no fim do ano passado, resolveu
tirar o bigode porque "estava ficando branco demais"), centralizador
(garante que todos os casos de seu escritório passam por
suas mãos) e briguento. Entre seus amigos, tornou-se comum
a expressão "marizada". Quando o grupo está conversando
sobre determinado assunto e um dos presentes se exalta, os outros
brincam que deu uma marizada. "Ele tem pavio curto, briga, grita...
mas cinco minutos depois está tudo bem", afirma o colega
Carlos Miguel Aidar, ex-presidente da seccional paulista da OAB
e ex-presidente do São Paulo Futebol Clube. "Depois, diz
que só discute com quem gosta."
O esporte preferido de Mariz é encontrar
os amigos em bares e restaurantes. Almoça quase sempre na
região da Paulista, no Spot, no Moraes ou no Maksoud Plaza.
Entre os bares, seus prediletos são o Pandoro, o Léo,
o Juarez, A Juriti e o Original. Adora receber e organiza festas
de aniversário consideradas memoráveis. Dias antes,
não consegue conter a ansiedade. Pede à secretária
que ligue para os convidados e confirme a presença de cada
um. Morre de medo de que não vá ninguém. Mas
a casa fica invariavelmente cheia. E às vezes aparece até
algum cliente.
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Defesas que dão o que falar
Tuca Vieira/Folha Imagem
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Acusada de mandar matar os pais, Suzane von Richthofen
deixa a cadeia em junho de 2005, depois de quase três
anos de prisão preventiva. Por ser ré primária,
ter bons antecedentes e não criar obstáculos
à aplicação da lei, o Superior Tribunal
de Justiça entendeu que ela deveria aguardar o julgamento
em liberdade. Mariz afirma que não cobra nada para
cuidar do processo
Moreira Mariz
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No início dos anos 90, PC Farias, que ganhou
notoriedade como tesoureiro de Collor, teve sua prisão
decretada e fugiu do país. Contrariou uma recomendação
de Mariz, que prometera tirá-lo da cadeia em vinte
dias. O advogado abandonou o caso e deixou de receber boa
parte dos 2 milhões de dólares que, estimava-se
na época, cobraria de honorários
Sergio Barzaghi/Agencia O Globo
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Mariz acompanha a empresária
Eliana Tranchesi a depoimento em Guarulhos, no fim do ano
passado. No caso Daslu, ele tenta provar que a empresa conseguia
preços baixos porque as importadoras compravam em liquidações
no exterior. E que tanto Eliana quanto o irmão dela,
Antônio Carlos Piva de Albuquerque, não eram
responsáveis por essas operações, feitas
por terceiros
Alex Silva/AE
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Ex-goleiro do Santos e filho de Pelé, Edson
Cholbi do Nascimento, o Edinho, foi preso em junho do ano
passado acusado de envolvimento com tráfico de drogas.
Passou seis meses atrás das grades. "Há quem
diga que ele só está solto porque é filho
do Pelé", afirma Mariz. "Mas, não fosse por
isso, ele nem seria preso."
A.Baptista/Dyna Imagem
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O jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves, então
diretor de redação de O Estado de S. Paulo,
deu dois tiros pelas costas na ex-namorada Sandra Gomide.
Ficou preso por seis meses e, desde março de 2001,
aguarda o julgamento em liberdade
Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem
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Quando o prefeito Celso Pitta foi afastado do cargo
por decisão da Justiça, recorreu a Mariz, que
o defendeu também no processo de impeachment movido
pela Câmara Municipal. Pitta ficou dezenove dias longe
do Palácio das Indústrias, mas cumpriu seu mandato
até o fim
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Nos passos do pai
Fotos arquivo pessoal
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| Abraçado ao pai, o desembargador
Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, na posse da
presidência da seccional paulista da Ordem dos Advogados
do Brasil, em 1987. "Minha mãe contava que aos
4 anos eu subia nas cadeiras e fazia discursos para imitá-lo",
lembra Mariz |
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Ao assumir a Secretaria de Justiça
do governo Quércia, em janeiro de 1990. Ficou no
cargo até março, quando se mudou para a
Secretaria de Segurança Pública. Hoje, é
filiado ao PSB por influência da amiga Luiza Erundina
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Com a mãe, Carmem Lúcia
Camargo Mariz de Oliveira, no baile de formatura do
ginásio, no colégio Paraíso, em
1960. Ele passou a infância e a adolescência
na Vila Mariana
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