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CRÔNICA
Crianças de rua
Ivan Angelo
Uma
pessoa, na ampla mesa ao lado, diz ter lido no jornal que há
1.030 crianças de rua na cidade. Espanto na roda: só?
Quem contou? Como contou? A pessoa não sabe de detalhes,
é dessas que se informam pelas manchetes.
O assunto contamina a mesa de cá. O número
se refere só às crianças que moram na rua?
E as crianças de rua da periferia, foram contadas? E aquelas
que a gente vê, ao passar de carro por bairros afastados,
empinando pipa na hora da escola, jogando bola contaram?
Ou será que só contaram as que perambulam pelo centro
e por bairros próximos pedindo dinheiro, furtando e cheirando
cola? Contaram aquelas que são levadas por mulheres adultas
para pedir dinheiro, ou só as que vivem soltas, por si? E
aquelas que buscam nas ruas um magro dinheiro, encenando penosos
shows de malabares, vendendo pacotinhos de bala, lavando vidros
dos carros, catando latinhas, esmolando contaram essas? Ou
essas não são de rua? O número das que vivem
nessas condições várias nos parece tão
maior do que o dessas modestas 1.030, e tão merecedoras quanto
elas do nome de crianças de rua. Houve um tempo em que todo
menino que andava pelas ruas sem a mão de um responsável
era chamado de "moleque de rua". Pode não haver rigor técnico
na expressão, mas, num aspecto amplo, faz sentido. De rua
porque a rua os educa.
Surgem variantes na conversa. E aquelas que estão
nas barrigas e serão contadas daqui a cinco, seis anos? Há
um plano para elas? E aquelas que estão na Febem fazendo
curso intensivo de delinqüência custeado pelo Estado
e que voltarão para as ruas daqui a pouco, mais taludas,
mais espertas, mais revoltadas?
Em todo grupo há radicais. Mesas-sabatinas
de boteco não são exceção. Uma mulher
defende a idéia de o Estado esterilizar quem já teve
mais de dois filhos e não consegue criar nem os que teve.
Invoca até o doutor Dráuzio Varela para dizer que
a população de pobres cresce porque eles se reproduzem
mais rapidamente e sem controle.
Mas ele defende planejamento familiar,
e não esterilização tento precisar o
ponto.
E por que esterilização
não pode fazer parte do planejamento? acode o marido,
e percebo que a idéia é um consenso de família.
Ele emenda: Ter filhos é um direito, mas criar e educar
é uma obrigação decorrente. Quem não
cumpre a obrigação que perca o direito. A promotoria
pública deveria assumir o papel de fechar as fábricas
de abandonados.
Nesse assunto não há harmonia. Porque
não há soluções encaminhadas. Com uma
certa preguiça da controvérsia, divago, minha cabeça
viaja para os meus 10 anos.
Os meninos do reformatório Alfredo Pinto
vinham em turmas arrancar o mato que crescia por entre os paralelepípedos
das ruas. Para o serviço, usavam um ferro curto com duas
pontas em ângulo reto: uma fina para os vãos mais estreitos;
outra, achatada, para limpar onde o espaço fosse maior. Turma
do ferrinho, dizíamos, ouvindo desde cedo o tilintar dos
ferros contra as pedras. Às vezes, quando alegres, capinavam
raspando e batendo a ferramenta nos paralelepípedos em ritmo
de samba. Vigias tomavam conta, na frente e na retaguarda das turmas
de uns trinta meninos, entre os 10 e os 14 anos. Os do lado de cá
do portão gostávamos de dar água fresquinha
para eles, na hora do descanso, mas minha mãe não
permitia conversas compridas: "Eles são muito sabidos". Ser
sabido não era bom. Sabiam coisas da vida e do corpo
um perigo para os do lado de dentro do portão, no entender
das mães. Passavam a manhã em serviços comunitários
e à tarde tinham aulas, ensino fundamental e profissional.
Não sei se era um bom sistema, nada sei dos
resultados nem do alcance. Meu mundo não passava da esquina.
Os meninos pareciam tranqüilos, assumindo a obrigação.
Eu também não gostava de muita coisa que tinha de
fazer, mas fazia. O mundo era maior, o problema era menor.
e-mail: ivan@abril.com.br
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