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Exterminadores
de dieta
Nova
geração de confeiteiros incrementa
sobremesas dos restaurantes
Livia
de Almeida*
Adeus,
creme de mamão papaia ao cassis. Au revoir, musse de
chocolate servida em potinho de plástico. Se depender
da nova geração de pâtissiers cozinheiros
especializados em doces e tortas , o império dos
profiteroles com calda de chocolate pode estar com os dias
contados nos restaurantes da cidade. Essa turma, na casa dos
20 e 30 anos, formou-se convivendo com chefs franceses aqui
no país ou em cursos na França. Ameaça
qualquer dieta com criações que começam
a ser devoradas pelos olhos: algumas, de tão trabalhadas,
lembram esculturas contemporâneas. A cheese cake de
chocolate da francesa Beatrice Dupasque, do Le Pré
Catelan, faz parecer um parente distante o doce homônimo
vendido em confeitarias da cidade. A tortinha à base
de cream cheese e chocolate ao leite vem em uma cesta de chocolate
amargo, ornamentada de folhinhas, acompanhada por uma bola
de sorvete de cupuaçu e servida em prato enfeitado
por caldas coloridas que formam desenhos à la Miró.
A delícia fará parte do menu degustação
do Le Pré Catelan (R$ 75,00) entre os dias 5 e 19 de
novembro. "Nunca repeti uma sobremesa no menu degustação,
que muda a cada quinze dias", diz Beatrice, orgulhosa.
Francesa da Borgonha, a doceira chegou ao Rio há um
ano, depois de morar na Inglaterra e na Austrália.
Nesta estada, já se rendeu aos encantos de ingredientes
nacionais como o cupuaçu e a cachaça. Além
do Le Pré Catelan, a confeitaria em que ela comanda
outros sete cozinheiros atende a todos os restaurantes do
hotel Sofitel, do serviço de quarto aos banquetes.
Descobriu um mundo novo e desconhecido de doces como o quindim,
a cocada, as compotas caseiras, o brigadeiro e até
a maria-mole ("Adoro!"), que faz para o bufê de feijoada
do Restaurante Atlantis. "É muito importante manter
uma boa relação com o chef de cozinha e trabalhar
afinado com a linha dele", aconselha. Beatrice gosta, principalmente,
de trabalhar com chocolate e não nega: um bom chocolate
amargo é irresistível.
"O
paladar do brasileiro tem evoluído muito, mas no quesito
sobremesa ainda é preciso avançar mais", afirma
Dominique Guérin, há 21 anos no país.
O ex-chef pâtissier do Le Pré Catelan hoje dá
cursos de gastronomia e funciona como um consultor. Acaba
de introduzir seis novas sobremesas no menu da churrascaria
Porcão Rio's. "É deplorável quando a
única coisa que o restaurante oferece são tortas
corriqueiras", reclama. No Garcia & Rodrigues, a oxalá
é tudo menos uma tortinha corriqueira. A base crocante
de chocolate e coco recebe uma camada de frutas brasileiras
como a carambola e a manga cortadas em cubinhos, temperadas
pela suave pimenta sezchuan. Por cima, vem um creme à
base de abacaxi. Todas as camadas são delicadamente
abraçadas por uma casquinha que mescla chocolate branco
e ao leite. O resultado é uma sinfonia de texturas
e sabores. Tudo de uma leveza sem par.
A oxalá foi criada no ano passado por Daniel Pereira,
baiano de 23 anos nascido em Feira de Santana, chef da confeitaria
da casa. Na ocasião, ele se recuperava de duas cirurgias
feitas para corrigir um defeito congênito no coração.
"Foi uma maneira de comemorar o fato de estar vivo e trabalhando",
conta. Cria do chef Christophe Lidy, Daniel chegou da Bahia
direto para o Garcia, na época da inauguração.
De ajudante de cozinha virou chef da confeitaria. "Ele tem
um talento especial. Vou fazer tudo para ele estudar na França",
diz Lidy. No Saint Honoré, a pâtissière
Ana Ribeiro, de 34 anos, teve uma formação prática
bem parecida com a de Daniel, embalada por dez anos de serviços
prestados ao Club Gourmet de José Hugo Celidônio,
depois por um ano ao lado do chef Pierre Landry e, agora,
com o recém-chegado Dominique Oudin. "Os franceses
me adoram", brinca. Junto com Oudin que gosta muito da
caipirinha brasileira , ela desenvolveu o parfait glacê
de caipirinha com crocante de chocolate (R$ 13,00). A mineira
do Vale do Jequitinhonha também adora inventar bossas.
"O fundamental é haver harmonia dos sabores e um visual
instigante", ensina Ana.
A mais nova criadora de tentações da cidade
é Flávia Amorim, 26 anos, que acabou de voltar
de uma temporada de um ano e quatro meses na França,
onde fez o rigoroso curso de cozinha do Cordon Bleu. Flávia
desembarcou na cozinha de outra Flávia, a Quaresma,
dona do Carême, também apaixonada pela delicadeza
do trabalho na confeitaria. Amorim já meteu a mão
na massa. Criou a pirâmide de chocolate com crocante
de gergelim (R$ 11,00), sobremesa de apresentação
rebuscada. "Adoro cuidar dos detalhes, da decoração.
A confeitaria tem um lado artístico", confessa a confeiteira.
Quaresma concorda. "Alguns chefs chamam a confeitaria ironicamente
de chez les artistes", diz a chef. Nutricionista formada,
Flávia Amorim consegue se controlar bem diante de tantas
gostosuras. Quaresma tem dificuldade em manter a boca fechada
desde seus tempos de Cordon Bleu, quando se deliciava com
sobras de marzipã e praline e levava pitos do professor.
"Gosto de comer até massa de bolo crua", entrega a
dona do Carême. Quem é que resiste mesmo a um
apelo doce?
Fotos André
Valentim/Strana
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| A
francesa Beatrice Dupasque criou a cheese cake servida
em
casquinha de chocolate amargo com sorvete de cupuaçu:
novidades quinzenais para o menu do Le Pré
Catelan |
Fotos Arthur Cavaliere/Strana
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Ana Ribeiro ajudou
o novo chef do Le Saint Honoré, Dominique
Oudin, a criar uma sobremesa à base de cachaça:
parfait glacê de caipirinha com crocante de
chocolate |
Fotos André
Valentim/Strana
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Flávia Quaresma, dona do
Carême, e Flávia Amorim, a nova chef
pâtissier que criou a pirâmide de chocolate
com crocante de gergelim: preocupação
com a apresentação dos pratos |
Fotos Arthur Cavaliere/Strana
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Fotos
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| Daniel
Pereira, com apenas 23 anos, chefia a confeitaria
do Garcia & Rodrigues: criador da torta oxalá,
com chocolate, coco, creme de abacaxi e frutas tropicais
temperadas por uma pitada de pimenta |
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Colaborou Tina Vieira
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