| |

Adriana
Falcão
Ramsés
Terceiro
O nome dele era Ramsés Terceiro Gonçalves de
Souza, mas, quando o povo chamava "Zé", ele vinha na
hora. É que lá em São Miguel dos Milagres
não havia quem decorasse nome tão qualificado,
"Ramsés de quê, menino?".
Cresceu
subindo no coqueiro e escutando conversa de turista: isto
aqui sim é o paraíso. Achava uma grande besteira.
Qualquer lugar é o paraíso com essa loirinha
de lado, moço, me desculpe.
Parou
de estudar na quinta, ou foi na sexta, mesmo assim ainda lembrava
o nome da capital de cada Estado brasileiro, de Mato Grosso
do Sul inclusive.
Um
belo dia irritou-se, saiu de São Miguel e foi pra Maceió,
ele mais seu primo Neílson. Desse, nunca mais ouviu
falar; se não morreu, esqueceu-se dele. Vai ver foi
isso.
O problema
de Maceió é que lá era grande, mas era
pequeno, portanto veio morar no Rio.
Foi em
1994, não havia de esquecer, no dia em que o Brasil
ganhou o título. O italiano lá errou o gol,
ele tomou mais uma, comprou a passagem e quando acordou já
estava naquele Itapemirim amarelo assim, "MaceióRio
de Janeiro".
No que
chegou, ligou logo para a mãe, "adivinha onde é
que eu tou?", ela não havia de adivinhar era nunca.
"Só não me diga que é no manicômio",
ô mulher pessimista, dona Maria do Socorro.
Arranjou
um bico aqui, outro ali, acabou ajudante de pedreiro num prédio
enorme de tão grande, emprego certo que durou vários
meses. De lá pra cá não parou mais. Foi
porteiro, eletricista, camelô, ladrão de carro,
motoboy, evangélico e balconista de loja, só
não lembra em que ordem exatamente. Mandava dinheiro
para casa quando dava e ainda conseguiu juntar 950.
Quando
ia completar 29 anos, tempos atrás, resolveu passar
o aniversário em casa, era saudade da família.
Foi pra São Miguel sem avisar, mas quem levou o susto
foi ele.
Descobriu
que não tinha 29, tinha 34, e que seu aniversário
não era aquele.
Dona
Socorro contou tudinho com a maior sinceridade. Esqueceu de
registrar o menino, passaram-se anos, mais cinco nasceram,
e ela acabou perdendo a lembrança do dia exato do seu
nascimento. "Acho que foi lá pro fim do mês,
só não me lembro de qual mês", disse.
"Se não me engano, você é filho de seu
Tabosa da venda, e como eu fiquei com ele por três anos,
de 64 a 67, portanto você nasceu em 65." "Em 70 não
era melhor não, mãe?", pelo menos era o ano
da Copa, mas como dona Socorro já tinha tomado oito
cervejas, não adiantava perguntar mais nada. Conformou-se.
Desde
então procura seu horóscopo em todos os signos
e naquele que parecer mais ele acredita. Muitas vezes dá
Sagitário, geralmente. No dia em que leu "clima propício
para o amor", conheceu uma moreninha no CentralRodoviária
que despertou seu interesse, parece até mentira.
Montaram
casa, compraram colchão, mesa, cadeira, e até
almoço ela fazia. Era amor pra 200 anos, ele dizia.
Engano seu. Oito meses depois ela foi-se.
Rodou
foi tudo procurando a peste, de casa em casa, de bar em bar,
não é que ela já estava com outro? Encontrou
os dois na parada de ônibus.
Não
tinha a intenção de agredir ninguém,
o miserável é que veio pra cima dele.
Fugiu
com a idéia concentrada apenas em não ficar
louco, coisa que se tornava cada vez mais difícil com
aquele inferno na lembrança, a cabeça do miserável
na pedra, o sangue correndo e uma velha gritando "Meu Pai
Nosso Senhor!", pra que tanta gritaria?
Esse
negócio de complexo de culpa é um negócio
complicado mesmo, realmente. Ela é que arranjou outro,
o outro é que partiu pra cima dele, e quem se arrependeu
foi ele próprio, vê se pode, porque o tal miserável
ficou um pouco abaixo do juízo depois de todo o acontecido.
Desse
dia pra cá não encontrou mais nenhum dos dois
graças a Deus. Parece que depois ela conheceu um gringo
e hoje está pros lados da Alemanha ou coisa parecida,
isso é problema lá dela.
Nunca
mais ligou pra mãe, nem arrumou emprego certo, nem
quis saber de mulher fixa. Em compensação passou
a comemorar seu aniversário todos os dias do ano de
segunda a domingo.
Tomava
conta de um carro aqui, arranjava uma coisa ali, vendia lá,
deixou o cabelo crescer, voltou a fumar e a beber, tinha um
batimento cardíaco triste, até que deu pra conversar
com cachorro vira-lata, conversa besta. Não é
que o infeliz do cachorro era tão sem esperança
que chegou a convencê-lo de que a vida não prestava?
Atualmente,
Zé tem a impressão de que está com 37
anos completos. Desde abril está no manicômio.
Toda noite reza pra São Miguel dos Milagres. Está
só esperando.
Quando
fala que seu nome é Ramsés Terceiro, comentam
que ele é doido.
|