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Casa imperial, briga paroquial
Sumiço
de louças e jóias do Palácio
Grão-Pará traz à tona desavenças
entre os herdeiros de dom Pedro II
Patrícia
Malavez*
Fernando Lemos/Strana
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Carlos Wrede/AJB
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| Pedro
Carlos (à esq.): 28 000 reais para recomprar louças
vendidas por Pedro Tiago (à dir.) |
A história
começa como nos contos de fadas. Era uma vez dois irmãos,
um príncipe e uma princesa, que viviam em um belo palácio
cercado por uma linda floresta e recheado de objetos valiosos,
de um império que existira havia muitos anos. Mas,
em vez do esperado final feliz, ela se transforma em um romance
policial de má qualidade. A princesa que não
troca uma palavra com o irmão há anos vai à
polícia pedir que seja investigado o furto de peças
louças, jóias, bibelôs de
sua herança. As suspeitas recaem sobre seu sobrinho,
um belo e atlético príncipe de 22 anos, fã
de esportes radicais e primogênito de seu irmão,
o que o qualifica como terceiro nome na linha de sucessão
do império, caso um dia a monarquia fosse restaurada.
O imbróglio não se desenrola em um reino distante,
como nos contos de fadas. Tem como cenário Petrópolis,
a cidade onde o imperador dom Pedro II costumava passar seus
verões. Como personagens, seus herdeiros.
Boatos
sobre brigas e disputas em torno de bens entre descendentes
do imperador já haviam ultrapassado as paredes do Palácio
Grão-Pará, residência oficial da família,
e circulavam pela cidade imperial. O que se cochichava nos
salões ganhou tons oficiais na quinta-feira, 17 de
outubro, quando a princesa Cristina Maria de Bourbon de Orleans
e Bragança, 51 anos, tetraneta de dom Pedro II, filha
de dom Pedro Gastão e prima do rei Juan Carlos da Espanha,
pediu a abertura de um inquérito policial para investigar
o furto de louças e outros objetos do palácio.
Na lista que entregou aos policiais, cita 100 peças
de um aparelho de jantar que pertencera à rainha Amélia,
última rainha de Portugal um conjunto de louças
brancas, com a coroa real estampada em vermelho e dourado,
datado de 1838 e dado de presente a dona Esperanza, mãe
de Cristina. Afirma também ter dado falta de um conjunto
de colar e brincos de esmeralda e diamante, outros dois brincos
de esmeralda em forma de gota com fecho de brilhantes, um
bibelô de prata com formato de cachorro, três
bandejas de prata e um serviço de chá com banho
de prata.
Oscar Cabral
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| Cristina
e as louças da rainha Amélia:
queixa de sumiço registrada na delegacia de Petrópolis |
Há
pouco mais de um mês, 68 peças do aparelho de
jantar foram localizadas em um antiquário em São
Paulo e jogaram mais lenha na fogueira imperial. Pratos, baixelas,
travessas, sopeiras e fruteiras do serviço Dona Amélia
estavam fazia mais de um ano à venda na loja do comerciante
Luiz Mello, no Morumbi, por 35.000
reais. "Eu não fazia segredo porque não tinha
a menor idéia de que a louça era roubada, tanto
que tenho o recibo", diz o antiquário, apresentando
um documento, sem data, que dá conta de que ele pagou
17.000 dólares (o equivalente,
na época, a 27.000 reais)
a Agnelo de Oliveira, conhecido antiquário de Petrópolis.
Agnelo, por sua vez, também guarda um recibo. Nele,
a assinatura de Pedro Tiago de Orleans e Bragança,
22 anos, filho de Pedro Carlos, o irmão mais velho
da princesa Cristina, avaliza a venda de 47 peças do
aparelho por 8.900 reais. Entre
o que o príncipe vendeu e o que foi comprado pelo antiquário
paulista há uma diferença de 21 peças.
Delas, não se conhece a origem. O filho de Agnelo,
o também antiquário Rodrigo, dá uma explicação
que não faz sentido. "O Luiz Mello contou as peças
separadamente. Por exemplo, ele computou um pires e uma xícara
como duas peças, mas meu pai conta como uma, já
que formam um conjunto. Daí a diferença", diz.
O problema é que na relação de peças
que o príncipe Pedro Tiago vendeu para o antiquário
de Petrópolis, anexada ao recibo, não constam
xícaras, pires, cremeiras nem manteigueiras. E entre
as 68 peças que Luiz Mello comprou há xícaras,
pires, cremeiras e manteigueiras do aparelho da rainha Amélia.
"E eu comprei tudo dele (Agnelo)", diz o antiquário
paulista, recibo em punho.
A descoberta
do recibo assinado por Pedro Tiago caiu como uma bomba no
Palácio Grão-Pará e deixou desolado o
príncipe Pedro Carlos, 56 anos. Na remota hipótese
de uma volta à monarquia, Pedro Carlos seria nosso
príncipe Charles. Filho mais velho de dona Esperanza
e dom Pedro Gastão o herdeiro presuntivo do
trono brasileiro , Pedro Carlos sucederia ao pai no
uso da coroa, embora uma disputa entre dois ramos da família
indique outro sucessor (veja quadro
). Ecologista de carteirinha, com mestrado em recursos
naturais feito na Inglaterra, dom Pedro Carlos dirige a Ecotema,
uma organização não governamental preservacionista.
É muito estimado na cidade imperial. De boa paz, poucas
vezes se irrita. Numa delas, há coisa de quatro anos,
expulsou do Palácio Grão-Pará o segundo
marido da irmã Cristina, José Carlos Calmon
Junior, 45 anos. Calmon e Cristina vivem há dezoito
anos entre tapas e beijos. Contam-se na cidade várias
histórias sobre noitadas do casal que, invariavelmente,
terminam em brigas memoráveis. Em 1996 a princesa procurou
a polícia e denunciou o marido por ameaças de
morte e de seqüestro das duas filhas do primeiro casamento,
as princesas Anna Theresa e Paola. Pouco depois reataram.
Numa das idas e vindas, Pedro Carlos irritou-se e proibiu
a entrada do cunhado no palácio. Desde então,
Cristina recusa-se a falar com o irmão e sua família
a mulher, Patrícia, e os filhos Pedro Tiago
e Felipe.
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Trechos
do pedido de abertura do inquérito e o recibo de
venda assinado por Pedro Tiago: Cristina se diz surpresa
com a devolução feita pelo irmão,
Pedro Carlos |
A decisão de Cristina provocou uma situação
surrealista no casarão construído em meados
do século XIX. As duas famílias ocupam áreas
diferentes do Grão-Pará, que tem dois andares,
nove quartos, um salão, quatro salas, escritório
e jardim. De um lado, Pedro Carlos e família; do outro,
durante a semana, Cristina e as duas filhas a princesa
passa os fins de semana em outro endereço na cidade,
com o marido. Se por acaso os dois irmãos se cruzam
nos longos corredores, não se falam. Situado nos fundos
do Museu Imperial, o palácio tem duas entradas e, desde
a briga, cada ramo da família usa a sua. Uma reforma
feita na antiga cocheira criou duas cozinhas uma para
cada família. A residência, que pertence oficialmente
a dom Pedro Gastão, pai de Cristina, Pedro Carlos e
outros quatro filhos, abriga tesouros dos tempos da monarquia.
Por seus salões se espalham móveis, pinturas
a óleo, esculturas, fotografias, gravuras, louças,
cristais, porcelanas e outros objetos que fariam a alegria
de qualquer antiquário (veja quadro).
O acervo
é mais um motivo de discórdia entre os irmãos.
Pessoas próximas à família imperial contam
que Cristina é favorável à venda das
peças, enquanto Pedro Carlos quer preservá-las.
Por isso, há cerca de dois anos, cedeu cerca de 60.000
documentos dos arquivos do Palácio Grão-Pará
ao Museu Imperial em regime de comodato empréstimo
gratuito, que pode ser encerrado por decisão de quem
cedeu. O temor era que as peças desaparecessem do palácio
e reaparecessem nas mãos de colecionadores. Cristina
discordou da decisão. As brigas entre os irmãos
foram tantas que, desgastados, seus pais, dom Pedro Gastão
e dona Esperanza, abandonaram o Grão-Pará e
mudaram-se para a propriedade de uma das filhas, Maria da
Glória, em Sevilha, na Espanha. "São objetos
de muito valor e importantíssimos para a história
do Brasil", diz a diretora do Museu Imperial, Maria de Lourdes
Parreiras Horta.
Selmy Yassuda

Paola,
filha de Cristina: confusão com o primo Pedro Tiago
tirou a princesa, que é modelo e usa piercing no
umbigo, do centro das atenções da família
imperial
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Por isso o recibo em nome de Pedro Tiago deixou Pedro Carlos
arrasado. "Ele sabia que objetos vinham sendo vendidos, mas
não esperava que o filho também fizesse isso",
diz um historiador amigo da família. O príncipe
sempre se preocupou muito com seu filho mais velho. A mãe
de Pedro Tiago, Rony, morreu dois dias após seu nascimento.
Em 1992, quando tinha 13 anos, o rapaz foi seqüestrado.
Passou uma semana em cativeiro e foi resgatado após
tiroteio que terminou com quatro seqüestradores mortos.
Estudante do 6º período de arquitetura na Universidade
Estácio de Sá, Pedro Tiago está inscrito
em um concurso público para o cargo de inspetor de
polícia. No início de outubro, Pedro Carlos
soube que as peças vendidas pelo filho haviam sido
encontradas no antiquário de São Paulo. Colocou
na mala de seu Toyota um presente dado pelos pais, um aparelho
de jantar que havia pertencido à princesa Isabel e
ao conde d'Eu, e rumou para lá. Procurou Luiz Mello
e propôs a troca: daria seu aparelho de jantar e levaria
de volta as peças da irmã. Mello não
quis a troca, mas aceitou vender as peças por 28.000
reais. "Ele voltou aqui e me deu dois cheques em troca das
68 peças", conta Mello.
No dia
11 de outubro, de volta a Petrópolis, Pedro Carlos
procurou a irmã para devolver a louça recomprada.
Foi ao antiquário que pertence à irmã,
o Portobello Móveis. Não a encontrou. O funcionário
que estava no local não quis receber as peças.
O príncipe encaminhou-se então à imobiliária
que a família imperial tem em Petrópolis e buscou
um de seus funcionários para que testemunhasse a entrega
dos objetos. No pedido de abertura de inquérito que
apresentou à polícia, Cristina afirma que "surpreendentemente"
recebeu a informação de que 68 peças,
"também objeto do furto", foram devolvidas "por Pedro
Carlos de Orleans e Bragança, seu irmão".
Apesar
de ter sido convidado pela polícia a prestar esclarecimentos
em três datas diferentes, em 19, 22 e 23 de outubro,
Pedro Tiago ainda não se apresentou. Na terça-feira,
uma intimação formal foi entregue no Palácio
Grão-Pará. Pedro Carlos e seu filho não
querem comentar o assunto. Encerrada no Grão-Pará
desde que procurou a polícia, Cristina mandou dizer
por um intermediário que está muito deprimida
e que chora todos os dias. "Estão todos contra mim.
Ninguém imagina quanto me custou fazer esse tipo de
denúncia", afirmou. Pelo andar da carruagem, esta história
ainda está longe de encontrar um final feliz.
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Um
enorme baú de preciosidades
Raymond Reuter
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André Nazareth/Strana
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| Esperanza
e Pedro Gastão: briga dos filhos fez casal
trocar Grão-Pará por Sevilha |
O
Palácio Grão-Pará, erguido entre
1845 e 1846 para acomodar empregados da realeza, guarda
um acervo majestoso. São quadros a óleo,
alguns assinados pelo pintor alemão Rugendas
(1802-1858); um álbum de aquarelas feitas pelo
médico Herman Wendroth durante uma viagem ao
sul do Brasil em 1852; 400 gravuras; louças,
entre elas as xícaras com a bandeira do Brasil
pintada que eram usadas na Ilha Fiscal; porcelanas;
cristais; e uma enorme coleção de documentos
da coroa brasileira. O mobiliário do século
XIX espalhado pelos salões do Grão-Pará
é outro de seus tesouros em um dos cômodos
está a cama em que dormia a princesa Isabel.
Há ainda cerca de 4 000 fotos. O palácio
virou residência do príncipe dom Pedro
Gastão e de sua mulher, Esperanza, em 1943, quando
a casa de verão da realeza foi transformada no
Museu Imperial. A maior parte dos valiosos pertences
do período monárquico foi doada, em 1948,
ao acervo da instituição, mas a família
ainda ficou com várias peças. Há
dois anos, dom Pedro Carlos cedeu ao museu, em regime
de comodato, o arquivo Grão-Pará. São
cerca de 60.000 documentos.
Toda a parte de texto, que inclui correspondências,
mapas, manuscritos e até livros de contabilidade
da família nos tempos da monarquia, já
foi entregue. O material iconográfico ainda está
no Grão-Pará. O inventário do fabuloso
baú do Brasil imperial levará pelo menos
um ano para ser concluído.
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Em
busca do trono perdido
Raymond
Reuter
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Reprodução/Oscar
Cabral
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Diego Goldberg
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| Luiz
Gastão (à esq.) e Pedro Gastão
(à dir.): herdeiros da princesa Isabel
(ao centro com a mãe, Teresa Cristina,
e os três filhos) disputam um trono inexistente
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Caso
a monarquia fosse restituída hoje no Brasil,
haveria um grande embate pelo trono entre os próprios
Orleans e Bragança. O príncipe dom Pedro
Gastão, 88 anos, bisneto de dom Pedro II, do
clã de Petrópolis, tecnicamente seria
o primeiro na linha sucessória. O problema é
que o ramo da família em Vassouras também
reclama o direito ao trono do império. Nesse
lado dos descendentes da família imperial, o
título de imperador do Brasil caberia ao príncipe
Luiz Gastão, 63 anos. A briga pela coroa, inexistente
desde a proclamação da República,
em 1889, remete ao dia 14 de novembro de 1908. Nessa
data, na França, o príncipe dom Pedro
de Alcântara, pai de dom Pedro Gastão e
filho mais velho da princesa Isabel e do conde d'Eu,
renunciou a uma hipotética sucessão para
se casar com Elizabeth Dobrezenski, uma condessa checa.
Com isso, a sucessão caberia ao príncipe
Luiz Maria Felipe, segundo dos três filhos da
princesa Isabel, e a seus descendentes o príncipe
Luiz Gastão é o mais velho de seus netos.
Os Orleans e Bragança da serra argumentam que
a renúncia de seu patriarca não tem validade
porque naquela época o príncipe estava
exilado e a monarquia extinta. Na falta de um trono
real, sobra uma longa e infindável discussão.
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*
Colaborou Sofia Cerqueira
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