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31 de agosto de 2005

REPORTAGEM DE CAPA
OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Ora, o amor

Manoel Carlos


Existem temas que não se esgotam nunca. A beleza é um deles, por causa, principalmente, da sua subjetividade. Eu me lembro de uma namoradinha que tive quando era rapaz, que um dia, diante de uma modesta e provinciana fonte luminosa, num bairro paulistano, me disse placidamente:

– Olho pra essa fonte, as luzes azuis e vermelhas refletidas na água, e não sei dizer se ela é bonita ou feia.

E desde esse dia, mesmo diante da Fontana di Trevi, as fontes – luminosas ou não – me deixam em dúvida, desafiando meu entendimento do que é bonito e do que é feio. Assim também a beleza do ser humano, homem ou mulher, que, sob qualquer forma de análise e julgamento, nos deixa inseguros. Vale lembrar os versos de Manuel Bandeira, já neste espaço mencionados uma vez, que tratam magistralmente do tema:

"O que eu adoro em ti

não é a tua beleza.

A beleza, é em nós que ela existe,

a beleza é um conceito

e a beleza é triste.

Não é triste em si,

mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza."

A mesma sensação temos diante do amor, que nos desconcerta e nos desorienta. Quantas vezes ficamos paralisados diante desse sentimento, sem saber que caminho tomar, o que fazer. Augusto dos Anjos, no belíssimo soneto Idealismo, exclama: "O amor! Quando virei por fim a amá-lo?" Me parece que está aí a possibilidade de acerto: amar o amor. Ou como nos ensina Drummond em sua antologia: amar se aprende amando.

Quem já não se viu indagando de si mesmo: amo pouco, amo demais, não amo? E ainda mais crucial, com a dúvida: será que o que sinto é amor, amor de verdade? Ou vai passar, como outros passaram?

Tenho uma amiga, Selma, repórter, que cada vez que me encontra anuncia um novo amor. Ainda ontem, quando eu saía da TV Globo, ela me pegou na garagem:

– Estou amando outra vez!

– Parabéns.

E já desliguei o motor, porque os encontros com Selma são sempre demorados. Ela continuou, com a corda toda:

– Quer dizer: outra vez, não, porque desta vez é pra valer! Agora que eu vejo como estava enganada com o Luiz e com os outros todos! Não era amor o que eu sentia! Aliás, percebo que nunca amei, a não ser agora. O que eu sentia por eles era... era outra coisa, que eu não sei definir. Só sei que não era amor! Este agora mexe mesmo comigo, me deixa zonza, muitas vezes me tira a paz, mas também me faz rir. Olha: hoje eu sei que rir é fundamental no amor. E que não se deve amar homem carrancudo, mal-humorado, nem mesmo chegar perto, porque esses defeitos são doenças, doenças terrivelmente contagiosas. E, quando nos damos conta, estamos também de mal com a vida. Lembra do Ricardo, do Sérgio, do Rodrigo? Com eles eu vivia pra baixo e chorava por qualquer coisa! Agora eu aprendi a rir, a ser feliz!

E antes que eu dissesse qualquer coisa:

– Tenho uma foto dele aqui pra te mostrar. Olha só. Tiramos em Búzios, domingo passado. Não olha pra mim, que eu estou gorda! Olha pra ele. Não é uma gracinha? Se chama Mauro. Ele é tudo que eu podia desejar. Agora, tem uma coisa importante: não apresento pra amiga nenhuma. Não mostro nem a foto, porque o Edu, lembra do Edu? Que jogava tênis? O Edu era mais ou menos assim, como o Maurinho, alegre, solto, e acabei perdendo ele para uma amiga, a Neide, você conhece! Tremenda sacanagem! Mas aprendi: agora só apresento namorado pra amigo. E depende do amigo, porque você sabe como é: os homens hoje são todos bi. Saiu até matéria sobre isso nos jornais! Você viu?

– Não, acho que não – disse eu, já meio confuso.

E ela encerrou com chave de ouro:

– Olha: homem mesmo, como antigamente, como meu pai, está muito difícil de encontrar! Bem, tô indo pra rua, fazer uma matéria sobre o assunto. Bye! Vou te apresentar o Maurinho! Esse vai ser o meu amor pra sempre! Eterno! Vai me fazer casar de noiva e ter pelo menos dois filhos!

E lá se foi a Selma, vaporosa e linda como sempre. Enquanto ligava o carro e saía lentamente da garagem, pensei: eterno! Até quando? E sem querer, de modo algum, bombardear a felicidade da minha amiga, mas por uma involuntária armadilha da memória, eu me lembrei do final de um poema do mesmo Manuel Bandeira, citado no início desta crônica:

"Aquele pequenino anel que tu me deste,

– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou.

Assim também o eterno amor que prometeste,

Eterno! era bem pouco e cedo se acabou".

 

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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