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CRÔNICA
Ora, o amor Manoel
Carlos
Existem
temas que não se esgotam nunca. A beleza é um deles, por causa,
principalmente, da sua subjetividade. Eu me lembro de uma namoradinha que tive
quando era rapaz, que um dia, diante de uma modesta e provinciana fonte luminosa,
num bairro paulistano, me disse placidamente:
Olho pra essa fonte, as luzes azuis e vermelhas refletidas na água, e não
sei dizer se ela é bonita ou feia. E
desde esse dia, mesmo diante da Fontana di Trevi, as fontes luminosas ou
não me deixam em dúvida, desafiando meu entendimento do que
é bonito e do que é feio. Assim também a beleza do ser humano,
homem ou mulher, que, sob qualquer forma de análise e julgamento, nos deixa
inseguros. Vale lembrar os versos de Manuel Bandeira, já neste espaço
mencionados uma vez, que tratam magistralmente do tema:
"O que eu adoro em
ti
não
é a tua beleza.
A
beleza, é em nós que ela existe,
a
beleza é um conceito
e
a beleza é triste.
Não
é triste em si, mas
pelo que há nela de fragilidade e de incerteza."
A
mesma sensação temos diante do amor, que nos desconcerta e nos desorienta.
Quantas vezes ficamos paralisados diante desse sentimento, sem saber que caminho
tomar, o que fazer. Augusto dos Anjos, no belíssimo soneto Idealismo,
exclama: "O amor! Quando virei por fim a amá-lo?" Me parece que está
aí a possibilidade de acerto: amar o amor. Ou como nos ensina Drummond
em sua antologia: amar se aprende amando. Quem
já não se viu indagando de si mesmo: amo pouco, amo demais, não
amo? E ainda mais crucial, com a dúvida: será que o que sinto é
amor, amor de verdade? Ou vai passar, como outros passaram?
Tenho uma amiga, Selma,
repórter, que cada vez que me encontra anuncia um novo amor. Ainda ontem,
quando eu saía da TV Globo, ela me pegou na garagem:
Estou amando
outra vez!
Parabéns. E
já desliguei o motor, porque os encontros com Selma são sempre demorados.
Ela continuou, com a corda toda:
Quer dizer: outra vez, não, porque desta vez é pra valer! Agora
que eu vejo como estava enganada com o Luiz e com os outros todos! Não
era amor o que eu sentia! Aliás, percebo que nunca amei, a não ser
agora. O que eu sentia por eles era... era outra coisa, que eu não sei
definir. Só sei que não era amor! Este agora mexe mesmo comigo,
me deixa zonza, muitas vezes me tira a paz, mas também me faz rir. Olha:
hoje eu sei que rir é fundamental no amor. E que não se deve amar
homem carrancudo, mal-humorado, nem mesmo chegar perto, porque esses defeitos
são doenças, doenças terrivelmente contagiosas. E, quando
nos damos conta, estamos também de mal com a vida. Lembra do Ricardo, do
Sérgio, do Rodrigo? Com eles eu vivia pra baixo e chorava por qualquer
coisa! Agora eu aprendi a rir, a ser feliz! E
antes que eu dissesse qualquer coisa:
Tenho uma foto dele aqui pra te mostrar. Olha só. Tiramos em Búzios,
domingo passado. Não olha pra mim, que eu estou gorda! Olha pra ele. Não
é uma gracinha? Se chama Mauro. Ele é tudo que eu podia desejar.
Agora, tem uma coisa importante: não apresento pra amiga nenhuma. Não
mostro nem a foto, porque o Edu, lembra do Edu? Que jogava tênis? O Edu
era mais ou menos assim, como o Maurinho, alegre, solto, e acabei perdendo ele
para uma amiga, a Neide, você conhece! Tremenda sacanagem! Mas aprendi:
agora só apresento namorado pra amigo. E depende do amigo, porque você
sabe como é: os homens hoje são todos bi. Saiu até matéria
sobre isso nos jornais! Você viu?
Não, acho que não disse eu, já meio confuso.
E
ela encerrou com chave de ouro:
Olha: homem mesmo, como antigamente, como meu pai, está muito difícil
de encontrar! Bem, tô indo pra rua, fazer uma matéria sobre o assunto.
Bye! Vou te apresentar o Maurinho! Esse vai ser o meu amor pra sempre! Eterno!
Vai me fazer casar de noiva e ter pelo menos dois filhos!
E lá se foi
a Selma, vaporosa e linda como sempre. Enquanto ligava o carro e saía lentamente
da garagem, pensei: eterno! Até quando? E sem querer, de modo algum, bombardear
a felicidade da minha amiga, mas por uma involuntária armadilha da memória,
eu me lembrei do final de um poema do mesmo Manuel Bandeira, citado no início
desta crônica: "Aquele
pequenino anel que tu me deste,
Ai de mim era vidro e logo se quebrou.
Assim
também o eterno amor que prometeste,
Eterno!
era bem pouco e cedo se acabou". E-mails
para o cronista:
almaviva@uninet.com.br |