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31 de maio de 2006

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Universidade pede socorro

Em greve, Uerj denuncia penúria e adia vestibular

Fátima Sá

 
Hipólito Pereira/Ag. O Globo
Protesto: estudantes foram às ruas cobrar realização das provas

O cenário é desanimador. Uma das maiores universidades do Brasil, com 55 anos de história e 26.000 alunos, a Uerj vive uma das piores crises desde sua fundação. Em março, o governo do estado anunciou corte de 25% em sua cota mensal. Voltou atrás depois que a direção da universidade mostrou que não poderia mais cortar despesas. O conflito vem desde o início do governo Rosinha. A direção da Uerj argumenta que os investimentos caem ano após ano. "Já fomos vistos pelos governantes como a jóia da Coroa. Hoje, não há investimento", lamenta o reitor, Nival Nunes de Almeida. O estado diz que os recursos aumentaram. "Apenas cinco municípios fluminenses têm orçamento maior do que a Uerj", diz o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Wanderley de Souza. Professores e funcionários entraram em greve em abril, deixando alunos sem aula e adiando, por tempo indeterminado, a primeira etapa do vestibular.

Inconformados, estudantes de colégios tradicionais da Zona Sul protestaram na porta do Palácio Guanabara na semana passada. No mesmo dia, Wanderley de Souza acionou a Procuradoria-Geral do Estado para cobrar explicações da Uerj sobre o vestibular e anunciou que cortará o ponto dos grevistas. A primeira etapa do vestibular, com 72.200 inscritos, seria em 25 de junho. "Fiz um plano de estudo contando com essa data e agora nem sei quando serão as provas", desabafa Laura Bastos Carvalho, 17 anos, aluna do Colégio Santo Inácio e candidata a uma vaga no conceituado curso de direito. "O que mais me preocupa é ver o patrimônio público nessa situação", analisa Manuela Andreoni, 17 anos, estudante do Santo Agostinho.

O secretário Wanderley de Souza diz que o estado investiu mais e que o orçamento executado pela universidade saltou de 466 milhões de reais em 2003 para 520 milhões em 2005. Não é bem assim. O Tesouro estadual repassa cada vez menos para a Uerj. Em 2003 foram 322 milhões de reais. No ano passado, 271 milhões. Para compensar, o estado usa outras fontes de recurso. Uma é o Fundo Estadual de Saúde, cujo dinheiro tem sido utilizado para cobrir as despesas do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Outra é a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio (Faperj). Juntos, o fundo e a verba de pesquisa foram responsáveis por 118,9 milhões de reais em 2005. É dinheiro com destino predeterminado, ao contrário dos recursos do Tesouro. "Isso fere a autonomia universitária", diz o reitor. "Entendo que ele queira flexibilidade, mas não se dá cheque em branco", rebate o secretário.

A Uerj também recebe pagamentos por projetos que desenvolve e repasses do governo federal, via SUS. O dinheiro é usado para as despesas fixas, e sobra pouco para reinvestir. Somente com pessoal são gastos 300 milhões de reais por ano. "A universidade não paga mais nem passagem para professor viajar para congresso", comenta o reitor. Wanderley de Souza afirma que questões de investimento são usadas como pretexto pelo movimento sindical. O cerne da briga, segundo ele, é salário. "Foi por isso que a greve foi decretada. Mas os professores da Uerj ganham até melhor que os da UFRJ. Mereciam ganhar mais, mas não há recursos no momento", diz Wanderley, que ameaça demitir quem não retornar ao trabalho. Enquanto segue o impasse, Gisele Camargo, 22 anos, aluna de geologia, recém-aprovada num concurso da Petrobras, vê o sonho de trabalhar na empresa escapar-lhe por entre os dedos. Às vésperas de receber o diploma, não consegue concluir o curso por causa da greve. Já pensa em recorrer à Justiça.

 

     
   

 

 
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