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CRÔNICA
Amor platônico Manoel
Carlos O
melhor do amor platônico é que ele pode ser confessado. Até
mesmo ao marido, no caso de a mulher ser casada. Só não sei se é
satisfatório, se é lisonjeiro ou se ela, ao saber desse sentimento
puro, não dirá: "Platônico por quê? Por acaso não
sou desejável?". É,
possíveis leitores. Insondável é o coração
de uma mulher. Nem os psicólogos, nem mesmo as cartomantes, nem o David
Copperfield, que tudo sabem, conseguem desvendá-lo. Que dirá os
cronistas! Tive
quatro amores platônicos. Tão platônicos que nunca me incomodei
em dividi-los com outros homens. Paixões impossíveis e inofensivas.
Simpatia, amizade, amor. Não são a mesma coisa, mas se parecem no
desinteresse pelo outro como objeto de toque e de desejo. Mais tarde cultivei
(e até hoje cultivo na memória) quatro afeições puras:
Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Hilda Hilst.
Com todas elas tive momentos de realização. Platônica, claro.
Cecília eu conheci numa noite de autógrafos, em São Paulo.
Balbuciei algumas palavras bobocas de admiração e saí com
meu livro autografado. Mas, pouco tempo depois, fiquei conhecendo a filha dela,
a admirável atriz e querida amiga Maria Fernanda, com quem tive a alegria
de trabalhar, na minha época de ator. Eu perguntava então, em meio
aos ensaios:
Fernanda, me fale de Cecília Meireles. Me conte: ela toma café,
almoça e janta como nós, pobres mortais? Tenho de lhe confessar:
eu amo a sua mãe! E
ríamos muito dessas brincadeiras. Linda e genial Cecília, poeta
maior da nossa língua: "Eu
digo aroma até nos meus espinhos.
Ao
longe o vento vai falando em mim.
E
por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é
que não tenho fim". Apesar
de ser a mais velha das quatro, Cecília não foi a primeira. Vieram
antes Lygia e Hilda. Conheci as duas. Eu tinha então meus 16 anos, era
freqüentador assíduo da Biblioteca Pública de São Paulo,
mais tarde batizada de Mário de Andrade. Lygia era a deusa da literatura
paulistana daquela época, como depois se tornou a deusa da literatura de
todo o Brasil. Desfilava elegantemente pelo saguão, onde se ergue até
hoje a estátua de Minerva. Ia quase que diariamente, pois era amiga de
Sérgio Milliet, então diretor da biblioteca. E eu e mais meia dúzia
de amigos ficávamos lá, esperando que ela entrasse, esperando que
ela saísse, babando literalmente de amor. Platônico. Bem mais tarde
conheci Lygia pessoalmente e lhe contei essa história de amor.
Hilda
é mais ou menos da mesma época, o que mostra que mesmo no amor platônico
somos inconstantes e infiéis. Hilda era simplesmente linda! De apaixonar
qualquer homem num raio de 100 quilômetros. E era loira, como são
todas as mulheres que amamos na adolescência. É uma espécie
de feitiço que elas exercem sobre os jovens. Era
a época do Clube de Poesia, no qual pontificavam, com muito talento, os
florescentes poetas paulistanos. As reuniões do Clube aconteciam num edifício
da Rua Barão de Itapetininga. Eles diziam seus poemas e brigavam entre
si, sendo que as brigas eram estimuladas debochadamente por Oswald de Andrade.
Pois nesse ambiente cultural, ao mesmo tempo subversivo e conservador, reinava
Hilda Hilst, a Divina. E eu lá, na platéia do Clube, enviando chispas
de amor platônico à loirinha de 20 anos. Conversamos algumas vezes.
Confesso que tremia na base quando ela se aproximava.
"Não saber
se se ausenta ou se te espera,
aflição
de te amar, se te comove.
E
sendo água, amor, querer ser terra." E,
por fim, Clarice, a que costurava por dentro, com linha invisível, tudo
que escrevia. Clarice alta-costura. Uma noite fui ao apartamento dela, se não
me engano no Leme, com o Flávio Rangel. Ela nos recebeu com uma caneca
de café. Sorria pouco e escondia as mãos queimadas por um incêndio.
Depois da segunda caneca, confessei minha admiração, sem coragem
de confessar meu amor, ainda que platônico. Ela sorriu pela primeira vez
e me ofereceu um exemplar de um dos seus livros. Na dedicatória colocou:
"Para o meu admirador, com a admiração da admirada Clarice".
Lygia
continua entre nós, graças a Deus, linda como na juventude. As outras
já se foram, levando com elas um pouco ou muito de mim. De mim daqueles
tempos, como diria Manuel Bandeira. E-mails
para o cronista: almaviva@uninet.com.br |