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REPORTAGEM DE CAPA
Força e delicadez no palco Histórias da companhia
que fez do balé clássico uma arte brasileira Débora
Ghivelder e Telma Alvarenga
Bruno Veiga/Strana
 | | O
corpo de baile em Quebra-Nozes:
excelência técnica
| Músculos
flexíveis, a leveza de saltos impossíveis, o sorriso no rosto. No
palco, o corpo de baile do Theatro Municipal prepara as sapatilhas para dar vida
a Coppélia, balé com trama simples e encantadora que estréia
na próxima quinta (veja em Teatro)
e dá início às celebrações do septuagésimo
aniversário da mais tradicional e melhor companhia de balé do país.
São setenta anos de beleza, personificada por estrelas como Bertha Rosanova,
Aldo Lotufo, Márcia Haydée, Roberta Marquez, Thiago Soares, entre
outros. São também setenta anos de lágrimas, ódios
e queixas. Problemas que desaparecem quando o grupo sobe ao palco. Criada oficialmente
em 1936, embora balés já fossem apresentados antes no Municipal,
a companhia vai homenagear justamente os grandes nomes que marcaram sua história.
Começando por Ana Botafogo e Dennis Gray. Morto no ano passado, Dennis
consagrou-se como grande intérprete de Coppelius, o artesão criador
da boneca por quem o aldeão polonês Franz se sente atraído
no enredo do balé. Ana Botafogo, que completa 25 anos de Municipal, estreou
como primeira-bailarina do teatro em 1981, no papel de Swanilda, a noiva de Franz.
A princípio, ela abriria a temporada ao lado de Marcelo Misailidis, partner
constante na última década e, há um mês, diretor do
balé. Uma pneumonia derrubou a estrela e inviabilizou a participação
da dupla. Problemas de saúde riscaram do elenco outro peso-pesado das sapatilhas:
Cecília Kerche. "É a maldição do Dennis. Ele detestava
homenagens", brinca Ana, que está licenciada do balé para estrear
como atriz na TV Globo. A
ausência das estrelas consagradas fez com que a primeira récita de
Coppélia representasse, também, a estréia de Karina Dias,
26 anos, em um grande papel. A seu lado estará Vitor Luiz, atualmente o
maior talento masculino do Municipal. A dupla demonstra a excelência do
teatro na formação de bailarinos.
André Nazareth/Strana
 | | Marcelo
Misailidis, nos ensaios de Coppélia: diretor querido pelo balé
| Hoje,
eles são oitenta dos 110 integrantes da companhia. Ensaiam, em média,
seis horas por dia no anexo do teatro, inaugurado em 1998. "Vitor é maravilhoso",
atesta a mestra ucraniana Eugenia Feodorova, 82 anos, coreógrafa que entrou
para o Municipal em 1958 como maître de balé. "Karina tem muita técnica",
ecoa Ana Botafogo. Karina ingressou aos 9 anos na Maria Olenewa, escola ligada
ao teatro e celeiro de bailarinos desde 1927. Em 1997, estreava no corpo de baile
e, agora, chega ao seleto rol de estrelas da companhia. A trajetória dela
foi a mesma percorrida por grandes nomes como Tamara Capeller, o próprio
Dennis Gray e a inesquecível Bertha Rosanova. Estrela de produções
memoráveis, Bertha brilhou em um marco do balé brasileiro, a montagem
de O Lago dos Cisnes. Foi em 1959, ano em que, pela primeira vez na América
Latina, a obra foi apresentada completa. Sob a direção de Eugenia
Feodorova, Bertha e Aldo Lotufo encantaram nos papéis de Odete/Odile e
do príncipe Siegfried. "Queriam convidar um casal estrangeiro, mas Eugenia
bateu pé. Disse que aqui tinha gente tão boa quanto lá fora",
rememora Bertha, 75 anos, única integrante do Balé do Theatro Municipal
a ostentar o título de "primeira-bailarina absoluta".
Eugenia Feodorova
desembarcou no Rio, trazida por Dalal Achcar, em agosto de 1954, precisamente
no dia do suicídio de Getúlio Vargas. "Odiei", lembra. "Chovia muito,
o povo estava apavorado. Tudo o que eu queria era ir embora." Para sorte do balé
brasileiro, Eugenia ficou. E, como consultora, continua no Municipal até
hoje. "Acho que vou sair neste ano", planeja, sem muita convicção.
Se sair, será em grande estilo. Ela foi convidada para remontar O Lago
dos Cisnes, no segundo semestre. Não é fácil despedir-se
de um palco onde dançaram mitos internacionais, como a inglesa Margot Fonteyn,
o russo Rudolf Nureyev e o americano Fernando Bujones, coreografados por nomes
como Leonid Massine, Mikhail Fokine, Maurice Béjart, William Dollar e Oscar
Araiz. Mas também não é fácil chegar até ele.
Se para os bailarinos o difícil é agüentar anos de aulas rigorosas
e ensaios mais ainda, em troca de um salário em torno de 2.000 reais, para
os estrangeiros que forjaram o amadurecimento do balé clássico no
Brasil a dificuldade foi se adaptar à cultura de um novo país.
André Valetim/Strana
 | Arquivo
Pessoal/Eugenia Feodorova
 | | Aldo
Lotufo hoje (acima) e em
cena, com Bertha | André
Nazareth/Strana
 | | Bertha
Rosanova: bailarina
absoluta | Tatiana
Leskova, francesa, de família russa, estreou no Municipal em 1942, aos
20 anos, como artista principal do Ballet Russe de Colonel de Basil. Voltou, com
o mesmo grupo, em 1944. Apaixonou-se por um brasileiro e não saiu mais
do país. Assumiu a direção do corpo de baile do teatro, pela
primeira vez, em 1950. Durante quase quarenta anos, foi e voltou várias
vezes. Viveu muitas glórias ali. Entre elas, a de montar Coppélia
pela primeira vez no Brasil, em 1952. Mas também, por causa de sua fama
de durona, tem lembranças amargas. "Foi muito difícil", admite.
"Eu não sou política, digo o que penso. Era conhecida como 'Chateana'",
diverte-se. "Alguns bailarinos gostam muito de mim, mas são poucos", admite.
A saída definitiva da direção, em 1989, foi traumática.
"Enfrentei um Tribunal de Nuremberg", exagera. Os bailarinos a rodearam e fizeram
um duro interrogatório. Tatiana respondeu às perguntas, deu as costas
e foi embora. Mas não ficou muito tempo longe do teatro. Voltou pouco depois,
como coreógrafa convidada. Após
tanto tempo ligadas ao corpo de baile, tanto Tatiana Leskova como Eugenia Feodorova
só lamentam a escassez de montagens. "Sempre houve, no Brasil, negligência
por parte do governo com as atividades culturais", diz Eugenia. Tatiana faz coro.
"A verba diminui cada vez mais. São apenas duas ou três montagens
por ano. Os bailarinos não dançam, e a nutrição do
artista é o palco." Roberta Marquez, que ficou dez anos no corpo de baile
do Municipal e, hoje, brilha no Royal Ballet de Londres, é mais incisiva.
"Há três anos, fazíamos apenas um grande espetáculo
por ano", conta. No Royal, só nesta temporada, iniciada em setembro, foi
escalada para estrelar sete grandes balés. "Estar no palco é o que
nos realiza, o que nos faz crescer como artistas", diz. Para este ano, no Municipal,
estão previstas outras três produções, além
de A Criação, já encenada. Pode ser pouco diante das
grandes companhias do mundo. Mas é fato que o Municipal formou bailarinos
excepcionais.
André Nazareth/Strana
 | | Thiago
Soares e Roberta Marquez: do Municipal para o Royal Ballet |
A
esplendorosa Márcia Haydée, 69 anos, dançou com o corpo de
baile no início da carreira. Logo ganhou o mundo. Passou vinte anos como
diretora do Ballet de Stuttgart e agora comanda o Ballet de Santiago, no Chile.
Voltou várias vezes para se apresentar e montar coreografias. Roberta Marquez
e Thiago Soares são exemplos mais recentes. Saíram do Municipal
para integrar o Royal Ballet, há um ano e meio. Alguns anos antes de alçar
vôo internacional, ganharam o concorrido concurso de Moscou. "É uma
honraria incrível", diz Dalal Achcar, que assumiu a direção
do balé em 1981. Encontrou o corpo de baile num mau momento. No mesmo ano,
montou Coppélia, com Ana Botafogo. Um sucesso. "Foi um renascimento,
deu novo ânimo ao balé e trouxe o público de volta." Entre
1991 e 1995, Dalal foi presidente da Fundação Theatro Municipal.
"Tivemos anos difíceis, por falta de verba", diz. Ela voltou à presidência
em 1999 e ficou até 2002. Foi nessa época que trouxe a poderosa
coreógrafa russa Natalia Makarova para montar La Bayadére
e O Lago dos Cisnes. As
duas montagens tiveram como estrelas principais Roberta Marquez e Thiago Soares.
La Bayadère foi a estréia de Roberta como primeira-bailarina.
"O Municipal é a minha casa, aprendi tudo o que sei ali", diz ela. Muitas
vezes, à custa de lágrimas. Roberta já estava no corpo de
baile em 1995, quando Jean-Yves Lormeau, grande estrela da Ópera de Paris,
chegou para dirigi-lo. "Era um diretor exigente e pouco flexível. Tinha
dias em que nos destruía. Sofri muito", conta. "Mas ele fez um excelente
trabalho", admite. Não há quem discorde. Dos veteraníssimos,
como Tatiana Leskova, aos veteranos, como Ana Botafogo. "Lormeau era antipático,
odiado. Briguei com ele, mas o admirava. Naquela época, ver o balé
era um orgulho", comenta Tatiana. Ana também foi vítima do gênio
explosivo de Lormeau. "Ele não entendia como as coisas funcionavam aqui.
Alguns choraram mais, outros menos. Mas ele foi fundamental", diz Ana. Uma das
montagens mais marcantes da passagem de Lormeau foi A Bela Adormecida,
em 1998, espetáculo que jamais havia sido apresentado completo naquele
palco. Bem
diferente de Lormeau, doce, simpático e querido pelos bailarinos, o atual
diretor do balé, Marcelo Misailidis, também deixará sua marca
num título inédito. Quer fechar o ano com O Corsário,
nunca encenado integralmente por aqui. Antes, os cariocas vão conferir
Coppélia, o mesmo balé dançado em 1981, com coreografia
do cubano Enrique Martinez. "A memória é nosso maior patrimônio",
diz Misailidis, que tem orgulho da companhia que dirige. "É a melhor do
continente. Não faz feio diante de nenhuma outra do mundo", aplaude. A
exigente Eugenia Feodorova assina embaixo. "É preciso guardá-la
como uma preciosidade."
Radiografia
do balé
80 bailarinos
Salário inicial de R$
2 000,00
Seis bailarinos principais: Ana Botafogo, Áurea Hammerli, Cecília
Kerche, Nora Esteves, Francisco Timbó e Paulo Rodrigues
23 bailarinos solistas, entre eles Karina Dias
e Vitor Luiz
Três novas produções previstas para este ano
Coppélia vai custar R$ 180 000,00
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Grandes
momentos A
história do corpo de baile do Theatro Municipal está ligada à
criação, por Maria Olenewa, da Escola Oficial de Dança Clássica,
em 1927. A escola funciona até hoje, com o nome de sua criadora. O balé
só foi oficialmente reconhecido em 1936. De lá para cá, a
companhia foi dirigida por pesos-pesados da dança, como Vaslav Veltchek,
Tatiana Leskova, Eugenia Feodorova, Dalal Achcar e Jean-Yves Lormeau, que contribuíram
para a excelência de suas produções. Ao longo dos últimos
setenta anos, o Municipal foi palco de montagens memoráveis, como
O Lago dos Cisnes
(1959), O Galo de Ouro (1963), O Descobrimento do Brasil (1961)
e A Bela Adormecida (1998).
Arquivo Pessoal/Eugenia Feodorova
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A
montagem de O Lago dos Cisnes, com seus quatro
atos, dirigida por Eugenia Feodorova, deu novo ímpeto ao Balé do
Municipal, que até então nunca dançara obras completas. A
produção do mais romântico e emblemático dos balés
clássicos marcou de tal forma a carreira de Bertha Rosanova que até
hoje a bailarina é lembrada, acima de tudo, pela interpretação
do duplo papel de Odete/Odile. Na foto, Bertha
aparece ao lado de Aldo Lotufo, no famoso pas
de deux de O Cisne Negro, na antológica montagem de 1959. Ali se
iniciava uma sólida e histórica parceria entre o casal de primeiros-bailarinos.
Bruno Veiga
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Entre
os coreógrafos consagrados que deixaram sua marca
no Municipal estava a russa Natalia
Makarova (à esq.). Trazida por Dalal Achcar, então
presidente da casa, ela encenou espetáculos inesquecíveis: La
Bayadère (2000) e O Lago dos Cisnes (2001). Em ambos, as estrelas
foram Roberta Marquez e Thiago Soares, hoje no Royal Ballet de Londres.
Arquivo Pessoal/Eugenia Feodorova
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A
ucraniana Eugenia Feodorova (na foto com os
bailarinos russos Tamara Toumanova e Vladimir Ouktonsky, em 1967) entrou para
o Theatro Municipal em 1958, como coreógrafa e maître de balé.
Foi sob sua direção que a companhia montou, pela primeira vez na
América Latina, O Lago dos Cisnes completo, em 1959, um marco na
história do balé. Aos 82 anos, Eugenia continua no teatro, como
consultora, e foi convidada para remontar O Lago, no segundo semestre.
Arquivo Pessoal/Ana Botafogo
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Ana
Botafogo estreou como primeira-bailarina do Theatro Municipal no
papel de Swanilda,
em Coppélia. O
ano era 1981, e Dalal Achcar procurava sacudir a companhia, que andava combalida.
Ana dançou com Dennis Grey, já um veterano do balé, que passou
à história como grande intérprete do artesão Coppelius.
A
foto capta Ana e Grey (agachado) juntos na montagem encenada há 25 anos,
que trazia, pela primeira vez, a versão coreográfica do cubano Henrique
Martinez para o Municipal. É essa versão, com os mesmos cenários
e figurinos assinados por José Varona, todos devidamente recuperados, que
o corpo de baile do teatro apresentará agora, na comemoração
de seus setenta anos.
Flávia Campuzano
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Ao
longo das últimas sete décadas, o Theatro Municipal foi cenário
de noites inesquecíveis, como a festa de despedida da esplendorosa Márcia
Haydée (foto)
dos palcos, em 1995. Com 69 anos, Márcia atualmente dirige o Ballet
de Santiago, no Chile, depois de passar vinte anos no comando do Ballet de Stuttgart.
No palco do teatro, berço de grandes estrelas, também deslizaram
suas sapatilhas mitos internacionais como Margot Fonteyn, Rudolf Nureyev e Fernando
Bujones. Grandes nomes do balé internacional foram convidados para dirigir
o corpo de baile, como o polêmico e rigoroso Jean-Yves Lormeau, que brilhou
na Ópera de Paris. Aqui, entre outros espetáculos célebres,
ele montou, pela primeira vez integralmente, A Bela Adormecida, em 1998.
Ricardo Fasanello/Strana
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Entre
as montagens mais marcantes do Theatro Municipal está La
Bayadère (foto), encenada, em 2000, pela poderosa Natalia Makarova.
Meses antes, a companhia havia montado A Floresta Amazônica, em que
Roberta Marquez fez seu primeiro papel principal. Depois de La Bayadère
e do Lago dos Cisnes, em 2001, a talentosa Roberta, de 29 anos, estava
definitivamente alçada ao posto de primeira-bailarina. A experiência
com Makarova é um divisor de águas na carreira da estrela, que hoje
brilha no Royal Ballet, ao lado de Thiago Soares, outra cria do Municipal, sem
dúvida o maior celeiro de talentos do balé clássico brasileiro.
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