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Há quanto tempo aquele seu distintíssimo vizinho do outro lado da rua não surta na varanda aos berros de "Meeeengooooo"? Só doente, no sentido mais grave que o normalmente empregado em diagnóstico de torcedor, para sair por aí anunciando-se tricolor de coração. O futebol não toma mais que três ou quatro minutos do tempo de uma roda de botequim, logo todos torcem o nariz para discussões a respeito. Não à toa, o carioca vem alimentando o bate-papo entre amigos com um cardápio variado de obsessões alternativas. Noite dessas, numa mesa do Nova Capela, na Lapa, alguém vibrava com o que comia: "Este cabrito com arroz de brócolis dá de dez a zero no risoto de camarão do Filé de Ouro!". Pra quê? Alguém ao lado considerou o resultado injusto com o restaurante do Jardim Botânico e, não fosse a turma do "deixa-disso", teria saído briga no salão. Detalhe: a exemplo do sujeito que cantava a vitória do cabrito, o que tomou as dores do camarão também era vascaíno. Acabou esse negócio de Fla-Flu, urubu, bacalhau, pó-de-arroz e o escambau. O grande clássico do próximo fim de semana no Rio de Janeiro será sem dúvida o disputadíssimo Festival Literário de Parati, que põe em campo um timaço de escritores: Verissimo, Eric Hobsbawm, Julian Barnes, Zuenir Ventura e Ana Maria Machado; Drauzio Varella, Millôr e Patrícia Mello; Chico Buarque, Ferreira Gullar e Adriana Falcão. Dá gosto torcer por coisas assim, ainda que seu interesse por literatura se satisfaça com o cachorro-quente da cafeteria da Livraria da Travessa de Ipanema. Show de bola! O cineminha do Instituto Moreira Salles já tem até torcida organizada na Gávea. No fim de semana passado, no fim de uma sessão do maravilhoso longa-metragem de animação Kiricu e a Feiticeira lenda africana co-produzida por França, Bélgica e Luxemburgo (nada a ver com o Wanderley) , pais e filhos se abraçavam de felicidade como nos tempos em que o Maracanã era um programão. A família agradece. O pior momento dos times do Rio de Janeiro em 33 anos de Brasileirão sugere bons passeios na hora dos jogos. Com um pouco de sorte a natureza também é uma caixinha de surpresas , é possível cruzar com a neocarioca Marília Gabriela embaixo de uma árvore do Parque da Cidade. Melhor que isso, só se fosse no Jardim Botânico. Ficar em casa com esse friozinho gostoso e a TV desligada também pode ser uma experiência inteiramente nova para quem passou a vida falando sozinho com Galvão Bueno nas tardes de domingo. Silêncio! Ouça o CD do grupo Tira Poeira (gravadora Biscoito Fino, à venda com certeza na Modern Sound) e entenda por que Cartola, Pixinguinha e Noel Rosa estão cada vez mais jovens no espírito da cidade. A rapaziada bate um bolão reinterpretando seus mestres. Enfim, o carioca vai aos poucos percebendo que não precisa do futebol para ser feliz. Se o sonho de ser campeão brasileiro em 2003 é tão distante quanto o das Olimpíadas de 2012, francamente, a gente tem mais o que fazer.
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