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30 de julho de 2003
REPORTAGEM DE CAPA
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Trocando as bolas

Tutty Vasques

A tragédia irremediável do futebol carioca neste campeonato brasileiro está incutindo no povo do Rio de Janeiro o saudável hábito de conversar sobre outras paixões no almoço de domingo. Com todo o respeito à torcida do Botafogo – já fui botafoguense, eu sei! –, boa fase na segunda divisão não chega a ser assunto que mereça o sacrifício de uma Kaiser. Resultado: só se fala de outra coisa na cidade.

Há quanto tempo aquele seu distintíssimo vizinho do outro lado da rua não surta na varanda aos berros de "Meeeengooooo"? Só doente, no sentido mais grave que o normalmente empregado em diagnóstico de torcedor, para sair por aí anunciando-se tricolor de coração. O futebol não toma mais que três ou quatro minutos do tempo de uma roda de botequim, logo todos torcem o nariz para discussões a respeito.

Não à toa, o carioca vem alimentando o bate-papo entre amigos com um cardápio variado de obsessões alternativas. Noite dessas, numa mesa do Nova Capela, na Lapa, alguém vibrava com o que comia: "Este cabrito com arroz de brócolis dá de dez a zero no risoto de camarão do Filé de Ouro!". Pra quê? Alguém ao lado considerou o resultado injusto com o restaurante do Jardim Botânico e, não fosse a turma do "deixa-disso", teria saído briga no salão. Detalhe: a exemplo do sujeito que cantava a vitória do cabrito, o que tomou as dores do camarão também era vascaíno.

Acabou esse negócio de Fla-Flu, urubu, bacalhau, pó-de-arroz e o escambau. O grande clássico do próximo fim de semana no Rio de Janeiro será sem dúvida o disputadíssimo Festival Literário de Parati, que põe em campo um timaço de escritores: Verissimo, Eric Hobsbawm, Julian Barnes, Zuenir Ventura e Ana Maria Machado; Drauzio Varella, Millôr e Patrícia Mello; Chico Buarque, Ferreira Gullar e Adriana Falcão. Dá gosto torcer por coisas assim, ainda que seu interesse por literatura se satisfaça com o cachorro-quente da cafeteria da Livraria da Travessa de Ipanema. Show de bola!

O cineminha do Instituto Moreira Salles já tem até torcida organizada na Gávea. No fim de semana passado, no fim de uma sessão do maravilhoso longa-metragem de animação Kiricu e a Feiticeira – lenda africana co-produzida por França, Bélgica e Luxemburgo (nada a ver com o Wanderley) –, pais e filhos se abraçavam de felicidade como nos tempos em que o Maracanã era um programão.

A família agradece. O pior momento dos times do Rio de Janeiro em 33 anos de Brasileirão sugere bons passeios na hora dos jogos. Com um pouco de sorte – a natureza também é uma caixinha de surpresas –, é possível cruzar com a neocarioca Marília Gabriela embaixo de uma árvore do Parque da Cidade. Melhor que isso, só se fosse no Jardim Botânico.

Ficar em casa com esse friozinho gostoso e a TV desligada também pode ser uma experiência inteiramente nova para quem passou a vida falando sozinho com Galvão Bueno nas tardes de domingo. Silêncio! Ouça o CD do grupo Tira Poeira (gravadora Biscoito Fino, à venda com certeza na Modern Sound) e entenda por que Cartola, Pixinguinha e Noel Rosa estão cada vez mais jovens no espírito da cidade. A rapaziada bate um bolão reinterpretando seus mestres.

Enfim, o carioca vai aos poucos percebendo que não precisa do futebol para ser feliz. Se o sonho de ser campeão brasileiro em 2003 é tão distante quanto o das Olimpíadas de 2012, francamente, a gente tem mais o que fazer.

         
     
 
 
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