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30 de julho de 2003
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REPORTAGEM DE CAPA

Ginástica que faz a cabeça

Pilates e ioga seduzem o carioca
com malhação em estilo zen

Fátima Sá


Cláudia Martins/Strana
Boa postura, corpo flexível e músculos durinhos: ideal de beleza sem sofrimento


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Sabe aquela vizinha bonitona, de corpo esguio, que esbanja saúde? Você pode não acreditar, mas é bem possível que ela mantenha a forma sem freqüentar academia de ginástica, nem suar na esteira, nem erguer pesos numa sala de musculação. Preocupados com o corpo, mas avessos à malhação tradicional, cada vez mais cariocas estão descobrindo que beleza e saúde não precisam ser sinônimo de sofrimento e abnegação. São os adeptos de uma malhação mais zen. Gente que molda o corpo em aparelhos de pilates, posições de ioga, aulas que misturam tai chi chuan, dança e meditação. "As pessoas estão gostando porque são atividades que cuidam do corpo e também da cabeça, já que exigem concentração e aliviam o stress. Nunca vivemos sob tanta tensão quanto hoje em dia", resume Teresa Camarão, talvez o maior fenômeno dessa onda. Teresa descobriu o pilates em meados dos anos 90. Abriu seu primeiro estúdio em 1999. E hoje, menos de cinco anos depois, é dona de dez estúdios, espalhados na Zona Sul, Barra, Centro e Niterói. Tem 1 000 alunos, fabrica e vende aparelhos, forma professores e acaba de lançar uma fita de vídeo ensinando a usar os pitorescos apetrechos do pilates.


Cláudia Martins/Strana
Rainha do pilates: Teresa Camarão comanda dez estúdios da Zona Sul a Niterói


Teresa soube aproveitar a onda. De todos os modismos dos últimos anos, o pilates é, sem dúvida, a sensação. "Se eu quisesse ficar rica, só teria salas de pilates", afirma Marion Kelson, dona da Gestos, uma dessas academias alternativas que oferecem várias atividades misturando ginástica, terapia corporal e filosofia oriental. Marion é representante de uma das tribos mais comuns da malhação zen – a dos que não se adaptam às academias. Vivia entrando e saindo, sem muito entusiasmo. "É coisa de maluco. O professor gritando, a música alta, todo mundo se olhando no espelho o tempo todo, numa obsessão narcisista incrível", diz. A diferença de ambiente é mesmo marcante. Na Gestos, como na maioria dos espaços que oferecem aulas de pilates, ioga e afins, a música é suave – em geral jazz, bossa nova ou algo do gênero –, a decoração é clean e o espaço, perfumado. Mas que ninguém pense em sombra e água fresca. Quem já experimentou uma sessão de pilates, por exemplo, sabe bem: o corpo fica dolorido, a perna bamba. É malhação, sim, mas em clima de calmaria.



Cláudia Martins/Strana
Fontes de Luz: aulas de ioga para novatos, alunos experientes e até crianças

Inventado na década de 1920 pelo alemão Joseph Pilates, um sujeito cheio de problemas de saúde e de excelentes idéias, o pilates vem conquistando milhares de adeptos pelo mundo. Usando exercícios respiratórios e posturais em colchonetes ou em aparelhos feitos de molas, tiras de couro, roldanas e barras, o aluno melhora a postura, diminui a barriga, tonifica os músculos, ganha flexibilidade. E em poucos meses. O resultado explica parte do sucesso. A outra parte se deve, sem dúvida, à boa propaganda. Depois que beldades como Sharon Stone se declararam encantadas com o exercício, a procura explodiu. Um fenômeno semelhante ao que ocorreu com a ioga. A atividade, nascida há milênios na Índia, com o objetivo de aprimorar o espírito a partir de certos exercícios posturais e respiratórios, andava meio em baixa. Recentemente, conquistou uma enxurrada de fãs graças a versões mais moderninhas e agitadas, como a power ioga e a ashtanga, que modelam o corpo, melhoram a postura e aumentam a força e a flexibilidade. É claro que, depois que Madonna se declarou fã, a ioga ganhou um incremento e tanto. "Dia desses a Gisele Bündchen deu uma entrevista na televisão falando que faz ioga. Meia hora depois já tinha gente querendo informações sobre as aulas", lembra Luis Estellita Lins, sócio do Saraswati Studio de ioga. O lugar existe há dez anos no Leblon e atualmente vive apinhado de músicos, artistas plásticos, escritores e outros tipos que a gente jura que jamais estariam por ali, malhando. "Antigamente tínhamos 35 alunos. Hoje já são mais de 100", conta Luis.


Cláudia Martins/Strana
Ligia Azevedo: com o joelho lesionado após anos de aeróbica, hoje só faz exercícios de pilates

Na esteira de novidades desponta ainda o curioso gyrotonic – um sistema de exercícios cheios de ritmo, que unem princípios de tai chi chuan, ioga, natação e balé. Num mesmo movimento, o aluno contrai e alonga a musculatura, ganhando coordenação motora, boa postura, flexibilidade e músculos. Para ajudar no movimento, ele usa, como no pilates, aparelhos feitos de roldanas, cordas, tiras de couro e manivelas. Criado nos Estados Unidos pelo ex-bailarino, ginasta e acupunturista romeno Juliu Horvath, o gyrotonic encantou a também bailarina Rita Renha, que decidiu trazer o sistema para cá. Começou dando aulas num espaço anexo a uma academia de dança e hoje é dona do Welness Center ­ Gyrotonic Instituto Brasil, um centro em Ipanema freqüentado por cinqüenta alunos. "Uma das vantagens é que se trata de um exercício que não sobrecarrega as articulações", propagandeia Rita.

Cláudia Martins/Strana
Silvia Sobral: sete anos de ioga e meditação em Vargem Grande


Quem arrebentou o joelho com os saltitos frenéticos da aeróbica nos anos 80 sabe bem da importância de proteger o corpo. "Passei um tempo enorme parada, cheia de dores por causa de anos seguidos de pula-pula. Fiz muita antiginástica para me recuperar. Hoje, felizmente, as pessoas estão mais atentas", diz a empresária Lígia Azevedo, uma das entusiastas arrependidas da velha aeróbica, hoje praticante de pilates. As vantagens desses exercícios de baixo impacto são muitas, sem dúvida. Mas é preciso atenção. "O tripé básico da atividade física é força, flexibilidade e capacidade aeróbica. E a maioria desses exercícios é ótima para a flexibilidade e até ajuda a desenvolver a força. Mas quem quiser estar realmente em forma precisa caminhar, correr, pedalar", alerta o chefe do departamento de ginástica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Alex Pina. Por isso, para quem está mesmo precisando perder uns quilos, a simples posição de lótus, sozinha, não resolve. O jeito é suar a camisa ou fechar a boca. As atividades zen têm outro senão: o preço. Uma mensalidade de pilates, com aulas apenas uma vez por semana, custa em média 100 reais. O ideal é fazer duas vezes por semana. E aí o preço costuma duplicar.



Divulgação
Companhia Athletica: aula de body balance tem até velas acesas

Uma das maiores vantagens desses exercícios é mesmo a integração. Eles podem ser praticados por adultos, crianças e idosos. Em geral são mais procurados pelas pessoas com mais de 30 anos. Uma turma que já se cansou do ambiente jovem sarado que domina a maioria das grandes academias da cidade, não tem pressa para entrar em forma e está mais preocupada com saúde e bem-estar do que com curvas e músculos inflados. De olho nessa onda, o roteiro da beleza do carioca vem ganhando novos e curiosos endereços. "Quando eu comecei, não havia tantos espaços assim", comemora a professora de educação física Silvia Sobral. Há sete anos, ela abriu o espaço Grutas numa área dentro de sua casa, em Vargem Grande. Ali, Silvia dá aulas de ioga, meditação, natação e bioginástica. Mas também tem consultas de feng shui, cromoterapia e palestras sobre terapias alternativas. Como o novinho Fontes de Luz, no Jardim Botânico, que tem concorridas aulas de ashtanga, aulas de hataioga para crianças, além de cursos de ufologia. E as academias de ginástica? Absorveram e até aperfeiçoaram a tendência. Na Estação do Corpo da Lagoa, o chamado segmento "body & mind" tem pilates, ioga e tai chi chuan. E em breve vai aumentar de tamanho. A novíssima Companhia Athletica, na Barra, oferece aulas de body balance – uma mistura de ioga, pilates e tai chi chuan – num salão com direito a velinhas acesas. A Body Tech, em Copacabana, tem aulas de ioga lotadas e já criou sua versão de hidroioga, com os movimentos feitos dentro d'água. "As academias estão sempre atrás de novidades. E, no momento, esse segmento está fortíssimo", diz Pedro Aquino, presidente da Associação das Academias do Rio. Ponto para quem gosta de música tranqüila e malhação zen.

         
     
 
 
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