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30 de maio de 2007

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Relíquias de casa velha

Palco de encontros de artistas e intelectuais,
o Solar dos Abacaxis, do qual Machado de
Assis era vizinho, está à venda junto com
os tesouros de sua decoração

Sofia Cerqueira

Fotos André Nazareth/Strana
Solar dos Abacaxis, no Cosme Velho: a construção de 1843 (à esq.) tem um belo jardim com varanda em arcos e, nas sacadas (à dir.), frutas de ferro que deram nome ao casarão

Não há placas ou anúncios em jornais. Mas um valioso pedaço da história da cidade – 1 200 metros quadrados de área construída e 5 600 de terreno – está à venda. Erguido em 1843, o Solar dos Abacaxis, um imponente casarão na Rua Cosme Velho, é um dos mais importantes exemplares da arquitetura neoclássica do Rio. Por quase meio século, o endereço foi palco de festas e saraus que reuniam escritores, artistas, estudantes, intelectuais, políticos, diplomatas e empresários da elite carioca. O palacete, com abacaxis de ferro enfeitando as sacadas, foi residência do historiador e desportista Marcos Carneiro de Mendonça, primeiro goleiro da seleção brasileira (1914), e de sua mulher, a poetisa Anna Amelia, fundadora da Casa do Estudante do Brasil. "A casa vivia cheia, era muito democrática e virou uma referência da cultura na época", conta a crítica de teatro Bárbara Heliodora, 83 anos, a mais nova dos três filhos do casal. "Dói muito, mas a família optou pela venda por não ter condições de mantê-la." O tamanho monumental da propriedade, avaliada em torno de 3,5 milhões de reais, explica a decisão dos herdeiros. São dez quartos, cinco salas, biblioteca, clarabóia, sótão, porão, jardim e uma grande área verde nos fundos.

A mansão, hoje necessitando de obras, é assinada pelo arquiteto José Maria Jacinto Rabelo, o mesmo que projetou o Palácio do Itamaraty, no Centro. Seus relevos, que adornam o teto do salão principal do imóvel, tombado pelo estado, são iguais aos do Palácio Rio Negro, em Petrópolis. "Sem dúvida, é uma das construções neoclássicas mais relevantes da cidade", afirma Carlos Fernando Andrade, superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Valor arquitetônico e histórias não faltam à suntuosa residência, a poucos metros do Largo do Boticário e junto ao Túnel Rebouças. "Na abertura do túnel, Carlos Lacerda, que era amigo da família, veio aqui alertar sobre as explosões que poderiam danificar os pratos brasonados expostos na sala", lembra Helen Márcia Potter Pessoa, 51 anos, uma das três filhas de Bárbara Heliodora, que viveu ali na adolescência e está à frente da venda. Por sorte, nenhum prato ficou em pedaços. Em outra ocasião, o magnata da imprensa Assis Chateaubriand escolheu o palacete para dar uma grande recepção. "Comemorou lá a compra da primeira tela de Paul Cézanne para o Museu de Arte de São Paulo", recorda Bárbara. "Os salões também foram abertos para Vivien Leigh, quando ela veio ao Brasil, nos anos 60", relata Patrícia Bueno, outra filha de Bárbara, referindo-se à protagonista do filme ...E o Vento Levou.

Espaço e requinte: móveis e objetos do século XIX decoram o salão de jantar e a varanda

Grandes anfitriões, Marcos Carneiro de Mendonça e Anna Amelia também tinham uma bela história pessoal. Conhecido como um goleiro de grande técnica e elegância, com seu 1,94 metro, Marcos foi tricampeão carioca pelo Fluminense (1917-1919), clube do qual seria presidente. Historiador, tornou-se um reconhecido especialista em marquês de Pombal. Reuniu uma majestosa biblioteca com 11 000 volumes, hoje de posse da Academia Brasileira de Letras. Ainda trabalhou no escritório da Usina Esperança, a primeira siderúrgica a funcionar regularmente no país, que pertencia à família de Anna Amelia. Além de fundar a Casa do Estudante, ela militou pelo voto feminino. O casal colecionava obras de arte e era apaixonado por futebol. "Lembro do meu avô conversando horas com Nelson Rodrigues na varanda", diz Helen Márcia. Entre os muitos nomes que freqüentavam a mansão – cogitada para ser a sede do Casa Cor deste ano – estão Carlos Drummond de Andrade, Oswaldo Aranha, Eurico Gaspar Dutra, Austregésilo de Athayde e, nos últimos anos, Fernanda Montenegro e Paulo Autran. Ali perto morou Machado de Assis. Marcos dizia que, quando criança, costumava ver o escritor caminhando pela rua.

Ele e Anna Amelia mudaram-se para o Solar dos Abacaxis em 1944, depois de uma reforma que deu ao imóvel garagem, varanda e terraço. A residência original havia sido erguida 101 anos antes pelo comendador Borges da Costa, bisavô de Anna Amelia. Com a morte de Marcos, em 1988 (aos 94 anos), dezessete anos após a da mulher, o casarão foi ocupado por um parente, que só se mudou alguns meses atrás, por força de uma decisão judicial. Agora, além da propriedade, estão à venda tesouros da decoração original, como a mobília de jantar feita na Rússia czarista. "Sonho que a casa vire um centro cultural ou uma pousada e continue fazendo história", diz Bárbara Heliodora.

Fotos Divulgação
Os antigos donos: a poetisa Anna Amelia e o ex-goleiro e historiador Marcos Carneiro de Mendonça

         
     

 

 
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