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MEMÓRIA
Relíquias de casa velha
Palco de encontros de artistas
e intelectuais,
o Solar dos Abacaxis, do qual Machado de
Assis era vizinho, está à venda junto com
os tesouros de sua decoração
Sofia Cerqueira
Fotos André Nazareth/Strana
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| Solar dos Abacaxis, no Cosme
Velho: a construção de 1843 (à
esq.) tem um belo jardim com varanda em arcos e,
nas sacadas (à dir.), frutas de ferro que deram
nome ao casarão |
Não
há placas ou anúncios em jornais. Mas um valioso pedaço
da história da cidade 1 200 metros quadrados de área
construída e 5 600 de terreno está à
venda. Erguido em 1843, o Solar dos Abacaxis, um imponente casarão
na Rua Cosme Velho, é um dos mais importantes exemplares
da arquitetura neoclássica do Rio. Por quase meio século,
o endereço foi palco de festas e saraus que reuniam escritores,
artistas, estudantes, intelectuais, políticos, diplomatas
e empresários da elite carioca. O palacete, com abacaxis
de ferro enfeitando as sacadas, foi residência do historiador
e desportista Marcos Carneiro de Mendonça, primeiro goleiro
da seleção brasileira (1914), e de sua mulher, a poetisa
Anna Amelia, fundadora da Casa do Estudante do Brasil. "A casa vivia
cheia, era muito democrática e virou uma referência
da cultura na época", conta a crítica de teatro Bárbara
Heliodora, 83 anos, a mais nova dos três filhos do casal.
"Dói muito, mas a família optou pela venda por não
ter condições de mantê-la." O tamanho monumental
da propriedade, avaliada em torno de 3,5 milhões de reais,
explica a decisão dos herdeiros. São dez quartos,
cinco salas, biblioteca, clarabóia, sótão,
porão, jardim e uma grande área verde nos fundos.
A mansão, hoje necessitando
de obras, é assinada pelo arquiteto José Maria Jacinto
Rabelo, o mesmo que projetou o Palácio do Itamaraty, no Centro.
Seus relevos, que adornam o teto do salão principal do imóvel,
tombado pelo estado, são iguais aos do Palácio Rio
Negro, em Petrópolis. "Sem dúvida, é uma das
construções neoclássicas mais relevantes da
cidade", afirma Carlos Fernando Andrade, superintendente regional
do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan). Valor arquitetônico e histórias não
faltam à suntuosa residência, a poucos metros do Largo
do Boticário e junto ao Túnel Rebouças. "Na
abertura do túnel, Carlos Lacerda, que era amigo da família,
veio aqui alertar sobre as explosões que poderiam danificar
os pratos brasonados expostos na sala", lembra Helen Márcia
Potter Pessoa, 51 anos, uma das três filhas de Bárbara
Heliodora, que viveu ali na adolescência e está à
frente da venda. Por sorte, nenhum prato ficou em pedaços.
Em outra ocasião, o magnata da imprensa Assis Chateaubriand
escolheu o palacete para dar uma grande recepção.
"Comemorou lá a compra da primeira tela de Paul Cézanne
para o Museu de Arte de São Paulo", recorda Bárbara.
"Os salões também foram abertos para Vivien Leigh,
quando ela veio ao Brasil, nos anos 60", relata Patrícia
Bueno, outra filha de Bárbara, referindo-se à protagonista
do filme ...E o Vento Levou.
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| Espaço e requinte: móveis
e objetos do século XIX decoram o salão
de jantar e a varanda |
Grandes anfitriões, Marcos
Carneiro de Mendonça e Anna Amelia também tinham uma
bela história pessoal. Conhecido como um goleiro de grande
técnica e elegância, com seu 1,94 metro, Marcos foi
tricampeão carioca pelo Fluminense (1917-1919), clube do
qual seria presidente. Historiador, tornou-se um reconhecido especialista
em marquês de Pombal. Reuniu uma majestosa biblioteca com
11 000 volumes, hoje de posse da Academia Brasileira de Letras.
Ainda trabalhou no escritório da Usina Esperança,
a primeira siderúrgica a funcionar regularmente no país,
que pertencia à família de Anna Amelia. Além
de fundar a Casa do Estudante, ela militou pelo voto feminino. O
casal colecionava obras de arte e era apaixonado por futebol. "Lembro
do meu avô conversando horas com Nelson Rodrigues na varanda",
diz Helen Márcia. Entre os muitos nomes que freqüentavam
a mansão cogitada para ser a sede do Casa Cor deste
ano estão Carlos Drummond de Andrade, Oswaldo Aranha,
Eurico Gaspar Dutra, Austregésilo de Athayde e, nos últimos
anos, Fernanda Montenegro e Paulo Autran. Ali perto morou Machado
de Assis. Marcos dizia que, quando criança, costumava ver
o escritor caminhando pela rua.
Ele e Anna Amelia mudaram-se para o
Solar dos Abacaxis em 1944, depois de uma reforma que deu ao imóvel
garagem, varanda e terraço. A residência original havia
sido erguida 101 anos antes pelo comendador Borges da Costa, bisavô
de Anna Amelia. Com a morte de Marcos, em 1988 (aos 94 anos), dezessete
anos após a da mulher, o casarão foi ocupado por um
parente, que só se mudou alguns meses atrás, por força
de uma decisão judicial. Agora, além da propriedade,
estão à venda tesouros da decoração
original, como a mobília de jantar feita na Rússia
czarista. "Sonho que a casa vire um centro cultural ou uma pousada
e continue fazendo história", diz Bárbara Heliodora.
Fotos Divulgação
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| Os antigos donos: a poetisa Anna Amelia
e o ex-goleiro e historiador Marcos Carneiro de Mendonça |
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