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30 de maio de 2007

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CRÔNICA

Biografias

Manoel Carlos

Léo Martins


Diz a lenda que, quando Amália Rodrigues morreu, seus olhos se quedaram entreabertos para que todos vissem que nem mesmo a morte era capaz de lhes roubar o fulgor. Duas pequenas ameixas a boiar numa calda de lágrimas, as lágrimas do fado. Aquela que foi a maior cantora portuguesa de todos os tempos era, segundo um dos seus biógrafos, o heterônimo de Portugal. A Nossa Senhora do fado. Não morreu, foi-se por aquela porta, arrumando o xale sobre os ombros e dizendo que logo voltaria. Aos 79 anos, em 1999. Ainda hoje aguardamos seu regresso.

Estamos vivendo uma época de biografias. Só da Maysa saíram duas na mesma semana. A da Elis está reeditada e já se fala em esmiuçar a vida de Amelita Baltar, Susana Rinaldi e Françoise Hardy. Isso sem contar as sucessivas edições de livros sobre Piaf. Como vêem, ocupam-se apenas das mulheres, de quem se tem mais a contar. Ou menos a esconder. É pouco provável que uma mulher se importasse tanto com sua biografia não autorizada, como fez Roberto Carlos com a dele. São vaidosas sim, mas atiram-se mais, não temem tanto os fatos. Principalmente as mulheres cariocas. A propósito disso, no domingo passado, no calçadão do Leblon, uma senhora me cercou:

– Por que você nunca escreveu uma novela com uma paulista como protagonista? Afinal, você é de São Paulo.

Respondi que achava mais fácil inventar a vida de uma carioca do que de uma paulista. A boa senhora pareceu não gostar muito:

– Acha que nós, paulistas, somos complicadas, é?

– Mais difíceis de entender. Mais defensivas, menos confessionais, disse eu, um pouco assustado com o ímpeto da mulher bandeirante.

– Pois, olhe: se eu te conto a minha história, garanto que vira novela.

Sorri, meio gauche:

– Tenho certeza de que é uma linda história.

– Linda apenas, não. Forte. Sou uma mulher rara, que já botou dois maridos para correr e criou quatro filhos sozinha! Li sua última crônica sobre a chamada mulher de verdade. Tenho horror às Amélias. Sou Helena! Apanho, mas bato muito também. E sempre dou a volta por cima!

Eu estava surpreso com tanta objetividade e só não perdi o rumo porque a conversa foi interrompida por uma amiga da paulista, que a puxou para que retomassem a caminhada.

– Pense no assunto, me disse ela, já se afastando com um tchauzinho.

O que é verdade numa biografia? E mentira, o que é? Principalmente nas que contam uma vida de mulher? Maysa, Elis, Piaf... e muitas outras. Fui testemunha de tantos fatos que jamais vi narrados ou os vi tão diferentes de como foram vividos! Ficam valendo as versões mais bonitas, inclusive as que os próprios artistas narram de sua vida. Voltando à Amália, ela conta:

– Quando me emociono, quando canto de um modo tão intenso que chego a chorar, não tem nada a ver com o público ou com o meu estado de espírito. Nada tem a ver com estar apaixonada ou não. Uma vez, num barco, em Vila Franca, à noite, cantei com tanto sentimento que todas as pessoas se ajoelharam a meus pés.

Sem dúvida, um belo episódio, verdadeiro ou não.

Chegando em casa, vindo do calçadão, abri o Outlook para checar os e-mails. Entre eles, um mais longo, de um leitor (A.F.) que me viu na Fnac e hesitou em falar comigo. Tinha curiosidade de saber se o que eu conto é verdade, aconteceu mesmo, ou são histórias inventadas.

Penso nisso. A.F. não é o primeiro que se diz com essa dúvida sobre os fatos. Fatos? Prefiro falar em versões. E me vem à cabeça uma frase de Salústio, que viveu antes de Cristo, e que diz, a propósito do que está narrando: "Essas coisas não aconteceram nunca, mas existiram sempre".

Volto à Amália. Ela conta:

– Não sei o dia em que nasci. Nem eu, nem ninguém da minha família. Ligaram tão pouca importância ao meu nascimento, era uma família tão grande, que não sabem. Minha avó dizia que eu tinha nascido no tempo das cerejas, que vai de maio a julho. Então eu escolhi o dia 1º de julho para fazer anos.

Será que alguém acha realmente importante saber se esse episódio é verdadeiro ou se Amália enfeitou sua própria história?

e-mail: almaviva@uninet.com.br

         
     

 

 
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