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CRÔNICA
Biografias
Manoel Carlos
Léo Martins
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Diz a lenda que, quando Amália Rodrigues morreu, seus olhos
se quedaram entreabertos para que todos vissem que nem mesmo a morte
era capaz de lhes roubar o fulgor. Duas pequenas ameixas a boiar
numa calda de lágrimas, as lágrimas do fado. Aquela
que foi a maior cantora portuguesa de todos os tempos era, segundo
um dos seus biógrafos, o heterônimo de Portugal. A
Nossa Senhora do fado. Não morreu, foi-se por aquela porta,
arrumando o xale sobre os ombros e dizendo que logo voltaria. Aos
79 anos, em 1999. Ainda hoje aguardamos seu regresso.
Estamos vivendo uma época
de biografias. Só da Maysa saíram duas na mesma semana.
A da Elis está reeditada e já se fala em esmiuçar
a vida de Amelita Baltar, Susana Rinaldi e Françoise Hardy.
Isso sem contar as sucessivas edições de livros sobre
Piaf. Como vêem, ocupam-se apenas das mulheres, de quem se
tem mais a contar. Ou menos a esconder. É pouco provável
que uma mulher se importasse tanto com sua biografia não
autorizada, como fez Roberto Carlos com a dele. São vaidosas
sim, mas atiram-se mais, não temem tanto os fatos. Principalmente
as mulheres cariocas. A propósito disso, no domingo passado,
no calçadão do Leblon, uma senhora me cercou:
Por que você nunca
escreveu uma novela com uma paulista como protagonista? Afinal,
você é de São Paulo.
Respondi que achava mais fácil
inventar a vida de uma carioca do que de uma paulista. A boa senhora
pareceu não gostar muito:
Acha que nós, paulistas,
somos complicadas, é?
Mais difíceis de
entender. Mais defensivas, menos confessionais, disse eu, um pouco
assustado com o ímpeto da mulher bandeirante.
Pois, olhe: se eu te conto
a minha história, garanto que vira novela.
Sorri, meio gauche:
Tenho certeza de que é
uma linda história.
Linda apenas, não.
Forte. Sou uma mulher rara, que já botou dois maridos para
correr e criou quatro filhos sozinha! Li sua última crônica
sobre a chamada mulher de verdade. Tenho horror às Amélias.
Sou Helena! Apanho, mas bato muito também. E sempre dou a
volta por cima!
Eu estava surpreso com tanta
objetividade e só não perdi o rumo porque a conversa
foi interrompida por uma amiga da paulista, que a puxou para que
retomassem a caminhada.
Pense no assunto, me disse
ela, já se afastando com um tchauzinho.
O que é verdade numa biografia?
E mentira, o que é? Principalmente nas que contam uma vida
de mulher? Maysa, Elis, Piaf... e muitas outras. Fui testemunha
de tantos fatos que jamais vi narrados ou os vi tão diferentes
de como foram vividos! Ficam valendo as versões mais bonitas,
inclusive as que os próprios artistas narram de sua vida.
Voltando à Amália, ela conta:
Quando me emociono, quando
canto de um modo tão intenso que chego a chorar, não
tem nada a ver com o público ou com o meu estado de espírito.
Nada tem a ver com estar apaixonada ou não. Uma vez, num
barco, em Vila Franca, à noite, cantei com tanto sentimento
que todas as pessoas se ajoelharam a meus pés.
Sem dúvida, um belo episódio,
verdadeiro ou não.
Chegando em casa, vindo do calçadão,
abri o Outlook para checar os e-mails. Entre eles, um mais longo,
de um leitor (A.F.) que me viu na Fnac e hesitou em falar comigo.
Tinha curiosidade de saber se o que eu conto é verdade, aconteceu
mesmo, ou são histórias inventadas.
Penso nisso. A.F. não
é o primeiro que se diz com essa dúvida sobre os fatos.
Fatos? Prefiro falar em versões. E me vem à cabeça
uma frase de Salústio, que viveu antes de Cristo, e que diz,
a propósito do que está narrando: "Essas coisas não
aconteceram nunca, mas existiram sempre".
Volto à Amália.
Ela conta:
Não sei o dia em
que nasci. Nem eu, nem ninguém da minha família. Ligaram
tão pouca importância ao meu nascimento, era uma família
tão grande, que não sabem. Minha avó dizia
que eu tinha nascido no tempo das cerejas, que vai de maio a julho.
Então eu escolhi o dia 1º de julho para fazer anos.
Será que alguém
acha realmente importante saber se esse episódio é
verdadeiro ou se Amália enfeitou sua própria história?
e-mail: almaviva@uninet.com.br
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