| |
|
|
 |
|
PERFIL
Dom-Quixote
das uvas
O americano Jonathan Nossiter,
dublê de
cineasta e sommelier, ensina os
cariocas
a beber e a apreciar vinhos nacionais
pouco conhecidos e de qualidade
Lívia
de Almeida
Paula Prandini
 |
| Nossiter e os carioquinhas
Noah, Miranda e Capitu: "Tenho um vínculo
sagrado com o Rio" |
Há três anos, o cineasta
e sommelier Jonathan Nossiter levou para as telas uma discussão
até então restrita aos conhecedores de vinho. Com
o documentário Mondovino, que competiu no Festival
de Cannes em 2004, ele glorificou com algum exagero produtores tradicionais
da bebida e transformou um tanto injustamente estrelas como o enólogo
Michael Rolland e o crítico Robert Parker nos bichos-papões
das videiras. Americano de nascimento e francês de criação,
com longas temporadas passadas em países como a Itália,
a Grécia e a Índia, Nossiter é, desde 2005,
um carioca por opção. "Sou pai de três crianças
nascidas aqui. Isso é um vínculo sagrado com a cidade,
uma relação para a vida toda", proclama ele, que aos
45 anos acaba de dar entrada no pedido de naturalização
quer tornar-se brasileiro de direito. Mora no Horto, em uma
casa espaçosa, com a mulher, a fotógrafa Paula Prandini
(autora de várias fotos desta reportagem), três bebês
e Chet, um cachorro da raça golden retriever.
No intervalo de seus filmes,
alimenta objetivos nada modestos: fazer uma revolução.
Não está em seus planos usar tanques ou armamentos
pesados. A revolução que Nossiter imagina envolve
taças de cristal, saca-rolhas, garrafas e paladares sem idéias
preconcebidas. "O vinho se transformou em um agente do esnobismo
e uma vítima do marketing que derrama no mercado bebidas
super-alcoólicas, doces e com sabor de madeira", acredita
ele. Mais do que teorizar, Nossiter se tornou o defensor de pequenos
produtores de diferentes procedências ao preparar a carta
de vinhos de alguns dos mais prestigiosos restaurantes do Rio: Roberta
Sudbrack, Aprazível e 66 Bistrô. Sem falar em harmonizações
que organiza a pedido de confrarias gastronômicas. "É
meu guru", garante o jornalista Renato Machado, que apresenta o
programa Menu Confiança, com Claude Troisgros, na
GNT. "É um cruzado, um romântico que batalha pelas
pessoas que têm ligação com o terreno, e não
com o método industrial", completa, referindo-se à
globalização que atingiu o mundo do vinho nos últimos
anos.
Fotos Álbum de Família
 |
 |
| Em família: o casamento
com Paula, em Salvador, em 2005;
e no zoológico de Paris, com os irmãos e o pai,
correspondente do jornal Washington Post. Nossiter é
o segundo a partir da esquerda |
Não adianta procurar um
capítulo para as garrafas chilenas ou argentinas nas cartas
assinadas por Nossiter. "Para mim, 99% desses vinhos não
prestam", dispara ele, em um português carregado de expressões
em espanhol, francês e inglês. "Pode até ser
mais barato do que os europeus, mas não é vinho."
Em lugar dos caros, elogiados e saborosos Catena Zapatas e Almavivas,
ele colocou rótulos desconhecidos por aqui, como o gaúcho
Vallontano e o catarinense Cave Ouvidor. "São vinhos verdadeiros,
menos alcoólicos, mais adequados ao nosso clima. Eles me
emocionam", afirma. Radical? Sim, assumidamente. "É uma espécie
de dom-quixote da uva", define Fredy Schlesinger, representante
da vinícola Dal Pizzol no Rio. "Ele defende com radicalismo
suas convicções. Isso é muito bom", afirma
o enólogo Luiz Henrique Zanini, da vinícola Vallontano,
de Bento Gonçalves. "Porque o mundo do vinho é recheado
de vaidades e comportamentos mornos."
Mirian Fichtner/Pluf Fotografias
 |
|
Nossiter sabe defender
com radicalismo suas convicções. Isso é bom. O mundo dos vinhos
está recheado de vaidades e comportamentos mornos.
Luiz
Henrique Zanini, enólogo da vinícola Vallontano
|
A primeira carta preparada por Nossiter foi para Roberta Sudbrack,
a chef que fez fama cozinhando para o então presidente Fernando
Henrique Cardoso e que comanda um sofisticado restaurante no Jardim
Botânico. "Ele veio aqui, elogiou a comida, mas disse que
a carta estava toda errada e brigava com a cozinha", recorda-se
a chef, que havia acabado de ver seu documentário. "Roberta
faz uma cozinha leve e sutil. Era um absurdo ter vinhos assassinos
em sua carta", explica Nossiter. Apesar do risco de desagradar à
clientela, Roberta resolveu embarcar na proposta de Nossiter, que
incluía mais italianos e alemães e nenhum representante
do Cone Sul. "Na primeira semana, nós quase apanhamos. Na
segunda, também", diverte-se a chef quase dois anos depois.
Para o Aprazível, charmoso restaurante em Santa Teresa, a
proposta foi ainda mais radical. "Como fazemos uma comida brasileira
contemporânea, ele sugeriu uma carta em que 70% dos rótulos
são brasileiros", diz Pedro Hermeto, filho da chef Ana Castilho.
No 66, bistrô do chef Claude Troisgros no Jardim Botânico,
deu ênfase aos vinhos franceses, mas deixou um bom espaço
para os nacionais. "Foi meio radical, e o público estranhou",
admite Troisgros. Mesmo assim, ele está negociando com Nossiter
uma carta para seu quartel-general, o restaurante Olympe. "Pensamos
em ter duas cartas: uma do Claude e outra do Jonathan", explica
o chef. Críticos como o jornalista Marcelo Copello, da revista
Adega, olham para as sugestões de Nossiter com reservas.
"Por um lado, ele traz produtos muito interessantes; por outro,
penaliza quem deseja simplesmente tomar um vinho bom e barato e
não compartilha as mesmas opiniões dele", afirma Copello.
O sommelier Dionísio Chaves vai além. "Uma carta de
vinhos deve representar os interesses dos clientes, não os
do profissional", diz. "Ao abolir os vinhos chilenos e argentinos,
ele está indo contra o consumidor. Acho que isso tem mais
a ver com uma postura ideológica do que simplesmente com
o que está dentro da garrafa."
A paixão de Jonathan Nossiter
pelo Brasil, e pelo Rio em particular, começou há
mais de vinte anos, por causa da literatura. Quando ainda fazia
faculdade de Belas Artes, em São Francisco, na Califórnia,
encantou-se com Machado de Assis. "Dom Casmurro, Memórias
Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba
estão entre as maiores obras da literatura universal", diz.
"Além disso, são uma perfeita tradução
da ironia carioca." Tão grande é a paixão pelo
universo machadiano que ele não hesitou em sugerir a Paula,
quando iam para a maternidade, em abril de 2005, que escolhessem
o nome Capitu para um dos bebês prestes a nascer. "Eram gêmeos,
e ela estava convencida de que seriam dois meninos ou um casal.
Só por isso concordou", lembra-se. Vieram duas meninas: Miranda
e, é claro, Capitu. Um ano e um mês mais tarde, chegou
Noah. "Decidimos deixar Paris e vir para o Rio porque queríamos
que nossos filhos fossem criados aqui", conta Paula. "Francês
gosta mais de cachorro do que de criança", acrescenta Nossiter
no mesmo fôlego.
|
Álbum de Família

|
| Prestígio no cinema: indicado
para a Palma de Ouro de Cannes,
em 2004, por Mondovino (acima e à direita), e
para o Urso de Ouro em Berlim, em 2000, por Signs & Wonders,
com Charlotte Rampling (à direita) |
O casal havia se conhecido em
2003, na capital francesa, numa festa de aniversário de Paula,
apresentados pelo cineasta Karim Ainouz (de O Céu de Suely).
"Foi meu presente", brinca Paula, que ainda resistiu às investidas
por um tempo. "Eu me apaixonei quando ele me convidou para um almoço
em sua casa. Fiquei olhando aquele homem naquela cozinha americana",
diz ela. "E, ainda por cima, ele cozinha bem!" A essa altura, Nossiter
finalizava Mondovino, seu quarto longa. Trazia no currículo
um prêmio no Festival de Sundance em 1997, por Sunday,
seu primeiro filme, em uma carreira que começou como assistente
de direção de Adrian Lyne em Atração
Fatal. Paula trabalhara como fotógrafa em Central
do Brasil e Diários de Motocicleta, ambos de Walter
Salles, e igualmente adorava vinhos e boa comida. Há alguns
anos, antes de ir para a França, teve um restaurante ítalo-japonês
seja lá o que isso signifique em São
Paulo.
A curiosidade sobre os vinhos
brasileiros começou quando o casal se mudou para o Rio. "Jonathan
saiu experimentando tudo o que achava. Bebemos muito vinho ruim",
relata Paula. A situação mudou no segundo semestre
do ano passado, quando ele foi convidado a participar de uma avaliação
da safra 2006 no Rio Grande do Sul. "Os críticos falavam
maravilhas de tudo, e eu me levantei para dizer que estava muito
preocupado com os rumos da produção no Brasil", lembra.
Na platéia estava o enólogo Luiz Henrique Zanini,
da Vallontano. "Ele dizia coisas que eu pensava, como o respeito
pela identidade cultural e pela terra", conta Zanini. Foi o início
de uma bela amizade. Semanas depois, o cineasta recebia em casa
uma caixa com quinze garrafas. "Disse à Paula: 'Nossa, vai
ser uma semana difícil para o nosso paladar'. Mas me surpreendi
agradavelmente. Aquilo era uma coisa verdadeira, brasileira, diferente.
Foi emocionante." Nossiter reconhece que esses vinhos nem sempre
vão agradar a todos os paladares. "Como a obra de Pasolini
não agrada a todo mundo", compara, citando o polêmico
cineasta italiano. "Mas a história do cinema é melhor
porque existiu um Pasolini."
Paula Prandini
 |
|
"Ele tem um paladar
apurado e é uma das pessoas
mais sensíveis que eu conheço, capaz
de chorar diante de uma cavaquinha bem preparada.
Mas também adora o meu hambúrguer."
Roberta
Sudbrack, chef
|
Entre uma provocação
e outra, uma carta de vinhos aqui e outra ali, ele tem se mantido
ocupado na vida carioca. Escreveu um livro, O Gosto e o Poder,
que será lançado neste ano na França e em 2008
no Brasil. Gosta de cozinhar em casa para os amigos. Passeia com
as crianças no Jardim Botânico, na praia e em museus.
"Elas adoraram o Museu de Arte Moderna. Corriam para lá e
para cá", diz. "Jonathan é uma pessoa muito simples.
Apesar de conhecer o mundo todo, ele não tem nada de esnobe",
descreve o enólogo Zanini. "É emotivo, capaz de chorar
diante de uma cavaquinha bem-feita", afirma Roberta Sudbrack. A
chef, aliás, revela uma das particularidades do gosto do
amigo. "Como bom americano, quando ele vem ao meu restaurante não
dispensa o hambúrguer, nem quando traz alguém aqui
para uma degustação de vários pratos", entrega.
Ninguém é perfeito.
Kiko Cabrali
 |
|
"É um cruzado, um
romântico que batalha pelas pessoas que têm ligação
com o solo. Seu filme me fez desconstruir uma série
de idéias que eu tinha. É meu guru."
Renato
Machado, jornalista e apresentador do programa
Menu Confiança, do GNT
|
|
Sugestões para montar
uma adega básica
A pedido de Veja
Rio, Jonathan Nossiter
indica bons vinhos nacionais, com
preços entre 15 e 40 reais, e dá sua opinião
sobre cada um deles
Tintos
Vallontano Tannat 2004: muito persistente e potente.
Vai bem com carne vermelha e com feijoada.
Vallontano Merlot 2004: um dos melhores e mais sofisticados
do Brasil. Para pratos de carne e de massa mais refinados.
Cave Ouvidor Cabernet-Merlot 2004: muito energético,
combina com quase tudo.
Angheben
Barbera 2004: quase selvagem, tanto na textura quanto
nos sabores. Vai bem com massa ao molho de tomate.
Dal
Pizzol Ancellotta 2004: suculento, frutado, completo.
A mais recente inovação da Dal Pizzol.
Dal
Pizzol Tannat 2004: baixo teor alcoólico, alta
acidez. Combina com todas as carnes vermelhas e aves.
Quinta
Ribeira do Mattos Cabernet 2005: de uma nova e pequena
vinícola (3 hectares). Bem estruturado, sem a marca
de madeira nova.
Don
Abel Pinot Noir 2005: leve, frutado. Ideal para peixes
carnudos, como salmão e atum.
Brancos
Dal
Pizzol Gewurztraminer 2006: claro e seco, combina com
todos os peixes e frutos do mar.
Casa
Valduga Gewurztraminer 2006: com mais corpo e fruta do
que o Dal Pizzol.
Caminhos
de Pedra Peverella 2006: perfumado, de um tipo de uva
malvasia. Vai bem com moqueca ou prato picante.
Espumantes
Vallontano
Moscatel Espumante: para aperitivo ou sobremesa, de baixo
teor alcoólico. Também combina com pratos picantes.
Angheben
Espumante: persistente e equilibrado,
pode acompanhar a refeição.
Cava
Geisse Espumante: de peso médio, seco e mineral.
Ótimo com sushi.
Marson
Espumante: simples, agradavelmente frutado. Bom custo-benefício.
|
|
Quinze filmes para ver em
casa bebendo
um bom vinho, segundo Nossiter
Com tinto
Terra Estrangeira (Brasil/Portugal, 1996), de
Walter Salles e Daniella Thomas
Faces (Estados Unidos, 1968), de John Cassavetes
O
Pântano (Argentina, 2001), de Lucrecia Martel
O Evangelho Segundo São Mateus (Itália,
1965), de Pier Paolo Pasolini
Iracema (Brasil, 1976), de Jorge Bodansky e
Orlando Senna
Fotos Divulgação
 |
| Terra Estrangeira |
Com
espumante
Amor na Tarde (Estados Unidos, 1957), de Billy
Wilder
Casanova e a Revolução (França/Itália,
1982), de Ettore Scola
Como se Fosse a Primeira Vez (Estados Unidos,
2004), de Peter Segal. Com Adam Sandler
Como Era Gostoso o Meu Francês (Brasil,
1971), de Nelson Pereira dos Santos
Sabrina (Estados Unidos, 1954), de Billy Wilder
 |
| Como
se Fosse a Primeira Vez |
Com
branco
Memórias do Subdesenvolvimento (Cuba, 1968),
de Tomaz Alea Gutiérrez
Madame Satã (Brasil, 2002), de Karim Ainouz
8 e 1/2 (Itália, 1963), de Federico Fellini
A Vida de Brian (Grã-Bretanha, 1979),
de Terry Jones
Os Boas-Vidas (Itália, 1953), de Federico
Fellini
 |
| Madame Satã |
|
|