| |
| |  | |
CRÔNICA
Estrogonofe Manoel
Carlos
Nos
anos 60 era bastante comum convidar amigos não para jantar, mas explicitamente
para comer um estrogonofe. Dois, três convites por semana, de gente que
gostava de receber artistas em casa e que chamava parentes e amigos para a ocasião,
exibindo relações circunstanciais como se fossem estreitos laços
de amizade. Sabíamos dessa apropriação indébita
digamos assim da nossa intimidade, mas não nos importávamos,
já que eram noites divertidas, com muita gente bonita circulando e adorando
a presença de astros e estrelas, alguns consagrados, outros despontando.
Muitos romances começaram ao sabor de um estrogonofe, mas cenas de ciúme,
brigas de casais, assim como alguns sopapos, também rolavam. De todas as
maneiras, era um sucesso!
Você vai no estrogonofe da Silvinha, hoje?
Claro! Acha que vou perder?
Não esquece o violão. Léo
Martins
 |
Era
assim que muitas vezes acontecia, pelo menos em São Paulo, onde eu vivia.
O prato casava harmoniosa e inexplicavelmente com a bossa nova. E, na casa da
Silvinha ou em outra qualquer que se abrisse para nós, ficava-se até
de madrugada, de prato na mão e ouvidos bem abertos. Era um banquinho,
um violão e... estrogonofe! Além de estar na moda, por razões
que não vêm ao caso, o picadinho incrementado podia ser degustado
sem o auxílio da faca, o que era bastante prático nas reuniões
com muitos convidados, que jantavam de pé, espalhados pela sala. Quantas
vezes, depois de um programa que eu fazia na TV Excelsior, apresentado por Bibi
Ferreira, íamos em bando para esses jantares festivos: Vinicius, Tom Jobim,
Nara Leão, Chico Fim de Noite, Sérgio Ricardo, Lúcio Alves,
Caetano Zama, Carlinhos Lyra, Baden Powell, Alaíde Costa... para citar
apenas alguns. E haja estrogonofe! E haja bossa nova! Naqueles
tempos as mulheres comiam sem nenhuma preocupação excessiva com
o peso. Maneiravam apenas. E eu não me lembro de nenhuma especialmente
gorda. A não ser a Leny Eversong, claro, que, quando aparecia, estourava
todos os cristais da família com seu vozeirão. Essas
lembranças me levam a outra. Da minha mãe contando que na época
em que era mocinha, no início dos anos 20, as mulheres não comiam
na frente de namorados, noivos ou simplesmente de homens que lhes despertassem
algum interesse, por mais velado que fosse. Não comiam porque era feio,
deselegante, comportar-se à mesa com desenvoltura, servir-se sem ser parcimoniosamente.
Repetir, então, nem pensar! Comíamos, dizia minha mãe, como
um passarinho: uma colher de arroz, outra de feijão, um bife pequeno, uma
ou duas batatas. E só. Quantidade que encheria um pratinho de sobremesa,
não mais.
Só isso? perguntava o cavalheiro.
Ah, para mim é suficiente. Como muito pouco. Se
a mãe, a tia ou mesmo uma amiga dessa delicada donzela estivesse por perto,
acrescentava, tentando ajudar:
Essa menina é assim. Nem sei como se agüenta de pé.
E minha mãe
contava a história de uma prima, Aspásia, que tinha um noivo que
jantava todas as noites na casa em que ela morava com os pais. Saía do
trabalho às 18 horas, passava por lá para jantar e depois do café
rumava para casa. Era um rapaz franzino e cerimonioso, de olheiras fundas, contador
de profissão e poeta nas horas vagas. Recitava Álvares de Azevedo
de fazer as moças chorar de emoção: "Se
eu morresse amanhã, viria ao menos fechar
meus olhos minha triste irmã. Minha
mãe, de saudades morreria, se
eu morresse amanhã". Hilário
era o seu nome. Vai que uma noite, após o ritual de sempre, o jovem noivo
despediu-se e saiu. Depois de andar dois quarteirões, começou a
chover. Como ainda teria pela frente vinte minutos de boa caminhada, Hilário
não hesitou: voltou correndo à casa da noiva, em busca de um guarda-chuva.
Entrou pela cozinha, de onde havia saído minutos antes. E deparou com quê?
Com a prima Aspásia diante de um prato fundo de arroz, feijão, bife
e batata. Desses pratos de operário! Não havia o que dizer, como
justificar, nada.
E aí, mãe, o que aconteceu?
Noivado desfeito! Lágrimas abundantes! Vestido de noiva voltando para o
baú da família! E
a gente indagava:
Mas, mãe, as moças então eram muito magras!
Não. Existiam as gordinhas e até algumas gordonas.
Mas...
Sei lá! Acho que naquela época se acreditava que as gordas estavam
cheias de vento, não de comida! Resumindo: não era romântico
comer.
Mas, e depois que se casavam, como é que mantinham esse teatro, essa mentira?
Bem, prima
Aspásia, a partir daquele momento, traumatizada, nunca mais foi um bom
prato. Passou, efetivamente, a comer como um passarinho. E, por ironia do Destino,
casou-se com um glutão. As outras não sei. Acho que, depois de um
certo tempo, o romantismo dava lugar ao realismo. Pois
é. Bons tempos em que moças e rapazes conservavam ideais românticos
em suas relações. Bons tempos! Mas
voltemos ao estrogonofe, para encerrar. Foi de Juca Chaves, que esteve conosco
numa dessas noitadas em casas festivas da noite paulistana, nos anos 60, que eu
ouvi a referência mais espirituosa ao prato:
Estrogonofe é um picadinho de smoking! Bom
apetite para todos durante a semana. |