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29 de setembro de 2004
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CRÔNICA

Estrogonofe

Manoel Carlos


Nos anos 60 era bastante comum convidar amigos não para jantar, mas explicitamente para comer um estrogonofe. Dois, três convites por semana, de gente que gostava de receber artistas em casa e que chamava parentes e amigos para a ocasião, exibindo relações circunstanciais como se fossem estreitos laços de amizade. Sabíamos dessa apropriação indébita – digamos assim – da nossa intimidade, mas não nos importávamos, já que eram noites divertidas, com muita gente bonita circulando e adorando a presença de astros e estrelas, alguns consagrados, outros despontando. Muitos romances começaram ao sabor de um estrogonofe, mas cenas de ciúme, brigas de casais, assim como alguns sopapos, também rolavam. De todas as maneiras, era um sucesso!

– Você vai no estrogonofe da Silvinha, hoje?

– Claro! Acha que vou perder?

– Não esquece o violão.

 
Léo Martins

Era assim que muitas vezes acontecia, pelo menos em São Paulo, onde eu vivia. O prato casava harmoniosa e inexplicavelmente com a bossa nova. E, na casa da Silvinha ou em outra qualquer que se abrisse para nós, ficava-se até de madrugada, de prato na mão e ouvidos bem abertos. Era um banquinho, um violão e... estrogonofe! Além de estar na moda, por razões que não vêm ao caso, o picadinho incrementado podia ser degustado sem o auxílio da faca, o que era bastante prático nas reuniões com muitos convidados, que jantavam de pé, espalhados pela sala. Quantas vezes, depois de um programa que eu fazia na TV Excelsior, apresentado por Bibi Ferreira, íamos em bando para esses jantares festivos: Vinicius, Tom Jobim, Nara Leão, Chico Fim de Noite, Sérgio Ricardo, Lúcio Alves, Caetano Zama, Carlinhos Lyra, Baden Powell, Alaíde Costa... para citar apenas alguns. E haja estrogonofe! E haja bossa nova!

Naqueles tempos as mulheres comiam sem nenhuma preocupação excessiva com o peso. Maneiravam apenas. E eu não me lembro de nenhuma especialmente gorda. A não ser a Leny Eversong, claro, que, quando aparecia, estourava todos os cristais da família com seu vozeirão.

Essas lembranças me levam a outra. Da minha mãe contando que na época em que era mocinha, no início dos anos 20, as mulheres não comiam na frente de namorados, noivos ou simplesmente de homens que lhes despertassem algum interesse, por mais velado que fosse. Não comiam porque era feio, deselegante, comportar-se à mesa com desenvoltura, servir-se sem ser parcimoniosamente. Repetir, então, nem pensar! Comíamos, dizia minha mãe, como um passarinho: uma colher de arroz, outra de feijão, um bife pequeno, uma ou duas batatas. E só. Quantidade que encheria um pratinho de sobremesa, não mais.

– Só isso? – perguntava o cavalheiro.

– Ah, para mim é suficiente. Como muito pouco.

Se a mãe, a tia ou mesmo uma amiga dessa delicada donzela estivesse por perto, acrescentava, tentando ajudar:

– Essa menina é assim. Nem sei como se agüenta de pé.

E minha mãe contava a história de uma prima, Aspásia, que tinha um noivo que jantava todas as noites na casa em que ela morava com os pais. Saía do trabalho às 18 horas, passava por lá para jantar e depois do café rumava para casa. Era um rapaz franzino e cerimonioso, de olheiras fundas, contador de profissão e poeta nas horas vagas. Recitava Álvares de Azevedo de fazer as moças chorar de emoção:

"Se eu morresse amanhã, viria ao menos

fechar meus olhos minha triste irmã.

Minha mãe, de saudades morreria,

se eu morresse amanhã".

Hilário era o seu nome. Vai que uma noite, após o ritual de sempre, o jovem noivo despediu-se e saiu. Depois de andar dois quarteirões, começou a chover. Como ainda teria pela frente vinte minutos de boa caminhada, Hilário não hesitou: voltou correndo à casa da noiva, em busca de um guarda-chuva. Entrou pela cozinha, de onde havia saído minutos antes. E deparou com quê? Com a prima Aspásia diante de um prato fundo de arroz, feijão, bife e batata. Desses pratos de operário! Não havia o que dizer, como justificar, nada.

– E aí, mãe, o que aconteceu?

– Noivado desfeito! Lágrimas abundantes! Vestido de noiva voltando para o baú da família!

E a gente indagava:

– Mas, mãe, as moças então eram muito magras!

– Não. Existiam as gordinhas e até algumas gordonas.

– Mas...

– Sei lá! Acho que naquela época se acreditava que as gordas estavam cheias de vento, não de comida! Resumindo: não era romântico comer.

– Mas, e depois que se casavam, como é que mantinham esse teatro, essa mentira?

– Bem, prima Aspásia, a partir daquele momento, traumatizada, nunca mais foi um bom prato. Passou, efetivamente, a comer como um passarinho. E, por ironia do Destino, casou-se com um glutão. As outras não sei. Acho que, depois de um certo tempo, o romantismo dava lugar ao realismo.

Pois é. Bons tempos em que moças e rapazes conservavam ideais românticos em suas relações. Bons tempos!

Mas voltemos ao estrogonofe, para encerrar. Foi de Juca Chaves, que esteve conosco numa dessas noitadas em casas festivas da noite paulistana, nos anos 60, que eu ouvi a referência mais espirituosa ao prato:

– Estrogonofe é um picadinho de smoking!

Bom apetite para todos durante a semana.

     
   

 

 
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