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29 de março de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
VEJA RIO 15 ANOS
CRÔNICA
  

GUIA IMOBILIÁRIO

O crime desvaloriza São Conrado

Sem os bandidos das favelas próximas, os imóveis do bairro valeriam fortunas

 
Oscar Cabral

1. ROCINHA

Área total: 1,43 km2

Área urbanizada: 0,69 km2

Moradores: 56 338

Domicílios: 16 999 (12 376 casas e 3 611 apartamentos)

Escolas: 3 municipais

2. SÃO CONRADO

Área total: 6,48 km2

Área urbanizada: 2,04 km2

Moradores: 11 155

Domicílios: 3 513 (1 040 casas e 2 412 apartamentos)

Escolas: 1 municipal, 1 estadual e 3 particulares.

Avenida Niemeyer, 1 hora da manhã. A arquiteta e artista plástica Mônica Ridolfi voltava com o marido para casa, após uma festa na Zona Sul. Ao se aproximar do Hotel Sheraton, percebeu que a Niemeyer estava às escuras. No meio do breu, eles passaram por dois homens encapuzados e armados com fuzis que andavam pela lateral da pista. Por sorte, o carro do casal não foi abordado pelos bandidos. Trêmula, Mônica respirou aliviada ao chegar a seu apartamento em São Conrado. Infelizmente, não se trata de um episódio isolado. No bairro conhecido por seus prédios e residências de alto luxo, e que abriga a rua com o IPTU mais alto do Rio – a Avenida Prefeito Mendes de Moraes –, os moradores colecionam histórias de assaltos ou sustos. Sob tensão ainda maior estão os moradores das favelas da Rocinha e do Vidigal. Os confrontos gerados pelo tráfico de drogas local repercutem em todas as direções. Nos dois lados da fronteira dessa cidade partida prevalece a sensação de insegurança.

 
André Nazareth/Strana

Mônica: medo da violência foi um dos motivos da mudança

Mônica mudou-se com a família para Ipanema. Por várias razões, entre elas os engarrafamentos diários e a necessidade de usar o carro para tudo, preferiu sair de São Conrado. Mas admite que o medo da violência pesou muito na decisão. A família da fotógrafa Victa de Carvalho tem dois apartamentos num condomínio de luxo em São Conrado. Ela mora em um deles e teve grande dificuldade para alugar o segundo, que ficou mais de um ano fechado. "Demoramos para conseguir alugar. A imobiliária diz que a procura no bairro está menor", conta Victa. Para fechar o contrato, abriu uma exceção. "Sempre alugamos sem problemas. Dessa vez, tivemos de diminuir o preço", revela.

A sensação de insegurança em São Conrado se intensificou em 2004. Naquele ano, a guerra pelo controle do tráfico de drogas entre duas facções rivais na Rocinha se arrastou por meses a fio. Em abril, doze pessoas morreram, entre elas a mineira Telma Veloso, assassinada com um tiro de fuzil em uma falsa blitz feita por traficantes armados na Avenida Niemeyer. Desde então, São Conrado ficou sob o estigma de bairro marcado pela violência. No início, profissionais do mercado imobiliário hesitavam em admitir os efeitos do medo da população sobre as vendas. Hoje estima-se que a queda no valor dos imóveis esteja em torno de 30%. "São Conrado está sofrendo, as pessoas não querem comprar lá", admite Rogério Jonas Zylbersztajn, dono da RJZ. A sensação de insegurança é citada como o grande problema. "As pessoas estão com medo, o que é errado, porque é seguro morar lá", diz Rogério, que tem dois empreendimentos no bairro. A empresária Patrícia Mayer, uma das produtoras da Casa Cor, concorda com Rogério. "Adoro morar em São Conrado. O mar, a beleza, a tranqüilidade me encantam. Fico apreensiva quando volto tarde para casa, mas fico tensa em vários outros lugares da cidade", pondera. O corretor Marcus Cavalcanti, morador do bairro, critica o estigma que se criou em torno de São Conrado. "No último episódio, os bandidos chegaram ao Leblon. Toda a cidade está com problemas, não apenas São Conrado."

 

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