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CRÔNICA
Danuzear o que há de bom Tutty
Vasques Não
sei se atendendo a antigos preceitos éticos das empresas de comunicação
ou à falta de interesse do público de antigamente por fofocas, mas
houve, sim, um tempo em que banca de jornal não era lugar para bisbilhotar
a privacidade dos famosos. Hoje em dia, com o boom vivido pelas revistas de celebridades,
a vida particular dessa gente é um livro aberto. Tem artista que faz questão
de escancarar. A barriga de Isabeli Fontana ainda nem apareceu, mas todo mundo
sabe que ela e Henri Castelli recorreram ao tratamento de inseminação
artificial por uma razão muito simples: eles querem ter uma menina, entende?
Muito provavelmente para no futuro não enfrentar a concorrência do
filho de Angélica e Luciano Huck. O moleque é covardia. Joaquim
fez 1 ano dia desses num pool de reportagens de capa. Tudo nele tudo mesmo:
circuncisão, batizado ou uma pequena cirurgia para corrigir a quantidade
de líquido nos testículos é notícia.
Meninos,
eu vi! Qualquer um que der um pulinho na banca da esquina vai ver que a top-atriz
Letícia Birkheuer subiu na garupa do dentista Luiz Tepedino. Vi que Daniel
Filho e Dênis Carvalho voltaram a se beijar na boca em público. Vi
Suzana Vieira toda prosa passeando com seu novo gato em Búzios. Vi Roberto
Justus encantado com a idéia de virar genro da garota de Ipanema, Helô
Pinheiro. Adriana Esteves e Gabriela Duarte estão grávidas; Giovanna
Antonelli e Cristiana Oliveira arrumaram namorado novo; Cláudia Ohana continua
em busca de um marido. Lucélia Santos fez uma regressão de vidas
passadas e viu que foi uma indiana. No futuro, imagino, não haverá
nada que se possa dizer sobre a existência dessa gente que já não
tenha sido publicado. O casamento de Ronaldinho e Daniella Cicarelli, por exemplo,
é assunto encerrado, tamanha a evasão de privacidade em que transcorreu.
O que mais se pode dizer a respeito? O
amor perdeu o mistério, cabe em três páginas, se bobear numa
nota. E, assim, as biografias vão sendo atualizadas semanalmente, em geral
toda quarta-feira, nas bancas. Casou, viajou na maionese, separou, apanhou, engravidou,
comprou apartamento, deprimiu, pagou mico, traiu, bebeu, comeu... Não há
mais segredos nesse mundo de notáveis. Digo que nem sempre foi assim não
por impressão pessoal. É que acabo de ler dois livros Quase
Tudo, de Danuza Leão, e Um Homem Chamado Maria, de Joaquim Ferreira
dos Santos que, entre tantas histórias incríveis sobre o
Rio de Janeiro das décadas de 40, 50 e 60, me surpreenderam pela revelação
nua e crua do caso de amor e ódio protagonizado há 45 anos por Danuza
Leão e Antônio Maria, um escândalo que não teria o menor
cabimento desperdiçar em capas de revistas. O
amor como ele é, inexplicável, reencontra narrativa apropriada em
mais de quarenta páginas da autobiografia de Danuza e do perfil de Maria.
Estamos falando de dois personagens reluzentes da virada dos anos 50 para os 60.
Danuza era linda, inteligente, elegante, modelo de moça moderna, "uma mulher
à frente de seu tempo", como diz Joaquim Ferreira dos Santos. Não
era segredo que ela havia trocado Samuel Wainer, o todo-poderoso dono do Última
Hora, pelo cronista e compositor Antônio Maria, que tinha coluna no
jornal de seu marido, assinava a autoria de Ninguém Me Ama e de
outros dez sambas-canções de sucesso na época e era personagem
das noites cariocas, que o inspiravam no trabalho. Um homem feio pra cachorro,
gordo feito porco, "a deselegância em pessoa", porém charmosíssimo,
de conversa irresistível. A ponto de fazer Danuza se arriscar a perder
a guarda dos filhos, o que só não aconteceu porque Wainer era um
cavalheiro. Abandonado, demitiu Maria e foi cuidar da vida.
O que aconteceu a
partir daí Danuza guardou por quase meio século. Dureza! Não
à toa seu relato de agora sobre os fatos da época pinta um Maria
casca-grossa. Do sujeito de personalidade exuberante que trocava correspondência
com o coração das mulheres sobrou o cara possessivo, apaixonado
e infeliz, doente de amor. A ponto de:
Certa vez, estávamos abraçados, em pé, na sala, onde havia
um espelho. Não dava para Antônio Maria se ver nesse espelho, mas
ele viu a mim, de costas, abraçando um homem. A visão foi tão
insuportável que ele me empurrou para longe. Eu estava abraçando
um homem, e não importava se esse homem era ele. Comecei a sentir medo.
A
narrativa é seca, desabafo de alguém que levou décadas para
se livrar da culpa pelos infartos que enfim mataram Antônio Maria aos 43
anos, em outubro de 1964. Danuza já havia se mandado para Paris. Quando
ainda estavam juntos, ele a torturou com a idéia de sua responsabilidade
por tudo o que acontecia com o coração dele. Não me lembro
de ter lido antes algo tão dolorido sobre a paixão. Joaquim Ferreira
dos Santos diz na edição atualizada de Um Homem Chamado Maria
que quem conviveu com o casal nos quase quatro anos em que estiveram juntos "ficou
surpreso com as confissões de Danuza". O jornalista encerra essa "impressionante
história de amor" reabrindo o caso:
Maria não soube. Danuza também não contou em seu livro. Uma
semana depois de sair de casa, fugida em pânico, ela descobriu que estava
grávida de Antônio Maria. Histórias
assim a gente não encontra em bancas de jornal.
E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br |