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27 de dezembro de 2006

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CRÔNICA

Natal

Manoel Carlos


Recebi o cartão de Natal de uma leitora. Ela mandou para o endereço desta revista, que me encaminhou a mensagem. Até aqui, nada mais comum, já que estamos na semana natalina. Acontece, porém, que a Flávia (esse é o nome da leitora) me mandou o cartão porque se lembrava de uma crônica minha, de dezembro do ano passado, em que eu lamentava a ausência de cartões nesta época do ano, substituídos pelos e-mails, que reduzem todos os remetentes a uma massa sem rosto. Não estou criticando. Sei que é mais prático e que chega mais rápido ao destinatário. Eu mesmo já desisti dos votos de boas-festas escritos a mão num belo cartão de Natal e aderi ao correio eletrônico. Mas, voltando à Flávia, o que me tocou em sua mensagem foi o fato de ela se lembrar da minha crônica de um ano atrás e, por essa razão, me enviar um cartão num gesto consolador. Esse gesto é que me comoveu. Portanto, à Flávia e às pessoas que assinam o cartão com ela, Ricardo, Rafael e Marco Antônio, meu agradecimento por tamanha delicadeza e sensibilidade. A eles dedico a felicidade deste Natal, que quero extensiva aos demais leitores.

Para completar o espaço desta crônica, deixo com vocês cinco pequenos episódios, entre os muitos de que posso me lembrar, nos quais o Natal esteve presente.

      

Leo Martins


Meu amigo Armandinho, de 11 anos, morreu num dia 25 de dezembro. Um raio caiu no campo de futebol onde jogávamos bola. No velório ficamos todos impressionados. Ele, que era loirinho, loirinho, estava da cor de chumbo. Queimado. Dona Rosaura, abraçada à mãe do menino, me parecia inconformada com a data, mais do que com a morte dele, e dizia a todo instante, vaidosa da sua frase:

– Morrer no dia de Natal! Como pode? Natal é dia de nascer!

E Ondina, mulher do Oscar, caminhava atrás dela, repetindo também:

– Ele nasceu para a vida eterna, Rosaura.

      

Já passei muitos Natais em Nova York. Gosto de lá nesta época do ano. A neve cobrindo as ruas, as lojas ricamente decoradas, as canções natalinas onde quer que a gente vá: Sinatra, Nat King Cole, Bing Crosby, Tony Bennet, Johnny Mathis, Elvis Presley... e a eterna apresentação do musical Christmas Carol, de Charles Dickens, no Madison Square Garden. Sei que não é o Natal do meu país e que isso pode parecer um tolo deslumbramento, mas é tão-somente uma maneira que eu encontrei de passar a data na companhia de Cary Grant, James Stewart, Henry Fonda, Gary Cooper, Ava Gardner, Judy Garland, Mickey Rooney, Mirna Loy, Spencer Tracy, Katherine Hepburn, Liz Taylor e de muitos outros astros e estrelas de Hollywood, que encantaram a minha infância e adolescência com seus filmes natalinos. Andando por Nova York na semana do Natal, periga encontrá-los e assim matarmos saudades de nós mesmos.

      

O Natal de 1988 eu passei dentro de um Boeing, a caminho dos Estados Unidos. Estava muito triste, tinha perdido meu filho Rick em agosto e viajei porque não queria passar a data sem ele, aqui no Brasil. O avião decolou às dez e meia. Quando deu meia-noite, o comandante falou pelo microfone: "Meia-noite. Feliz Natal para todos". Duas comissárias sorridentes percorreram o avião, distribuindo taças de champanhe. Os passageiros abraçaram-se e beijaram-se. Eu era o único viajante desacompanhado, sozinho, não tendo a quem abraçar nem beijar. Olhei à minha volta e vi um bebezinho, dormindo a sono solto no colo da mãe, indiferente à data de significado universal. Pensei: esse é o meu companheiro de viagem. Fechei os olhos e embarquei num sono reparador, só acordando em Miami.

      

Meu tio Leopoldo era um homem prático, objetivo, que não tinha medo de nada. Nem de Deus. Cresci ouvindo dele:

– Peço a Deus, sempre, que não me leve na véspera de Natal. Não quero que as pessoas acompanhem o meu enterro dizendo: pôxa, esse sujeito podia ter escolhido um dia melhor para morrer. Estragou o meu Natal!

Tio Leopoldo morreu numa segunda-feira de Carnaval. Estragou a Terça-Feira Gorda de todo mundo.

      

Tive um vizinho, quando era criança, que se chamava Natalino, porque tinha nascido no dia 25 de dezembro. De família italiana, claro. A mãe, Filomena, tinha muito orgulho dessa coincidência e disse um dia, lá em casa, me lembro como se fosse hoje:

– Meu Natalino faz aniversário junto com Nosso Senhor Jesus Cristo.

E minha mãe, muito religiosa, respondeu:

– Amém.

      

Feliz Natal e feliz 2007.


E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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