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PERFIL
Arte
desconcertante
Livro
abriga a obra de Artur Barrio
Isabel
Butcher
Dilmar Cavalher/Strana
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| Artur
Barrio: livro que pereniza carreira dedicada à arte efêmera
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Não acredite na placidez que o sorriso e os cabelos brancos
da foto aí do lado transmitem. O homem é um perigo.
Artur Barrio, português de nascença, mudou-se com a
família para o Rio em 1955. Mora até hoje na mesma
rua, em Copacabana, mas esse é o mais singelo de seus hábitos
singulares. Aqui, tornou-se um rebelde, mas com causa: há
décadas dedica-se a romper com a forma tradicional de fazer
arte. Para tanto, cria obras como um livro de carne que se decompõe
à vista do público. Além da polêmica,
há o prestígio. Ajuda na compreensão de ambos
o livro Artur Barrio (Modo Edições; 275 páginas;
50 reais), que será lançado no Museu de Arte Moderna
na próxima quinta (28). A publicação, de papel
mesmo, traz textos críticos de, entre outros, Ligia Canongia
também organizadora do livro , do curador Fernando
Cocchiarale e do crítico espanhol radicado no Rio Adolfo
Montejo Naves. É ilustrada por obras do artista desde 1969,
quando disse a que veio, até este ano, com registros de sua
participação na Documenta de Kassel, na Alemanha,
uma das mais importantes exposições de arte contemporânea
do planeta. Artur Barrio, o livro, tem patrocínio
da Petrobras. Daí o precinho camarada para uma edição
tão bem trabalhada e rica.
Fotos divulgação
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A
estréia no MAM, em 1969: papel higiênico molhado, contestação
e lixo, muito lixo
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Livro-carne:
a obra que se decompõe diante do público esteve em Paris e na
Bienal de São Paulo |
O
mesmo MAM abriga, a partir de sexta (29), um trabalho do artista:
a obra-instalação Minha Cabeça Está
Vazia/Meus Olhos Estão Cheios, idealizada em 1982. A
peça é formada por círculos no chão
que, a cada nova montagem, são preenchidos com diferentes
materiais. No MAM vai ser óxido de ferro. Como se vê,
as criações de Barrio, 57 anos, não podem ser
guardadas em museus nem penduradas na parede. Ele faz arte conceitual.
Cria performances, ou, como prefere, "situações" que
resultam em obras feitas com materiais perecíveis. Ainda
bem que lembraram de fotografar. A preciosa edição
de Artur Barrio traz o primeiro trabalho do artista, feito
em 1969, no MAM. Foi uma bomba. Situação...Orhhhh...ou
5.000...T.E...em...NY...City...1969 começou com um punhado
de papel higiênico banhado na baía e culminou com Barrio
entre trouxas ensangüentadas e sacos cheios de coisas que nem
é bom saber.
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Minha
Cabeça Está Vazia, de 1982: peça ganha nova montagem no
MAM
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Já
na estréia, o artista despertou ira e admiração
na mesma medida. "Achavam que eu era niilista, que o trabalho era
horrível. É provocador, sim. Mas tenho consciência
e ele está aqui até hoje, mesmo sendo momentâneo.
É um efêmero de 33 anos", explica. O início
da carreira, é bom lembrar,do momentâneo.
É um efêmero de 33 anos", explica. O início
da carreira, é bom lembrar, coincidiu com um contexto histórico
bem propício. A ditadura militar recrudescia e a neutralidade
não era bem-vinda. Era-se contra ou a favor de qualquer coisa.
Barrio foi além da contestação que movia a
classe artística e intelectual. "Cheguei como um desconhecido,
uma pessoa fora de todos os circuitos, mas fui capaz de atirar a
pedra mais longe do que os outros", diz. Fez isso sem se misturar.
"Se você entra para um grupo, com idéias já
formadas, terá de se encaixar. Eu não me encaixo",
conta. De fato. Além de papel higiênico e das famosas
Trouxas Ensangüentadas, já recorreu a sacos transparentes
com materiais em decomposição, lixo e dejetos. "Gosto
de trabalhar com odores dos mais variados", provoca. As obras mais
recentes de Barrio têm cheirado melhor. O autor do Livro-carne,
que já foi exibido em Paris e na Bienal de São Paulo
de 1998, tem usado café, pão e outros materiais mais
amenos. Sua trajetória, da estréia estrondosa aos
dias de hoje, inspira um livro que faz jus ao artista. Uma surpresa
a cada página.
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