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CRÔNICA
Borogodó Manoel
Carlos
Não
é um fenômeno apenas brasileiro. E talvez nem possa ser chamado de
fenômeno. Será um modismo? Ou apenas uma coincidência? Sei
lá. Refiro-me ao grande número de jovens que namoram gente ligada
à música: cantores, guitarristas, bateristas... Não há
nenhum mal nisso, claro, mas me chamou a atenção. Só minha
filha tem, entre suas amigas, três apaixonadas por músicos. Elas
os seguem por toda parte, em shows pela cidade, aplaudindo, assobiando, gritando,
subindo em cima da mesa e exibindo admiração, carinho, amor. São
as devotas garotas da banda. É só dar uma olhada nas revistas da
semana e vamos encontrar essas demonstrações de afeto ocupando várias
páginas. Sim, temos os jogadores de futebol, que também vivem cercados
e cortejados publicamente. Neste caso, alguns craques exageram digamos
assim e acabam se envolvendo em múltiplas e simultâneas relações,
como nosso querido Romário, que vem padecendo com essa voracidade, diferente
de Júlio Cesar, que é parcimonioso e monogâmico. Assim também
o Ronaldo, que gosta das ligações estáveis, com anel de noivado,
visitas familiares, apresentações à sociedade, festas quase
públicas. Enfim: como no próprio futebol que eles praticam, cada
um tem seu estilo, que deve obedecer também à posição
em que jogam: defesa, ataque, armação. De qualquer maneira, mesmo
com esses exemplos, a música está levando vantagem, e a cada dia
vemos crescer o contingente dos afortunados. Assim como quem não quer,
fui fazendo as contas, anotando alguns nomes. Entre as atrizes, só entre
elas, me lembrei de momento, sem esforço, de Deborah Secco, Alessandra
Negrini, Debora Falabella e Paloma Duarte. As quatro, no momento, desfrutam um
amor ao som de boa música. Isso sem contar a nossa representante no cenário
internacional, a belíssima Luciana Gimenez, que, num lance de admiração
e ousadia, abiscoitou o líder dos Rolling Stones. Em
Mulheres Apaixonadas, Marina (Paloma Duarte) dizia que a mãe, Sílvia
(Natália do Vale), tinha borogodó, razão pela qual atraía
tantos olhares. Apresentada ao vocábulo, Sílvia credita ao borogodó
o interesse que sente por Caetano (Paulo Coronato), o motorista de táxi.
E Caetano balança entre o borogodó da patroa e o da empregada Shirley
(Renata Pitanga). Formava-se assim um círculo, uma cadeia, por onde transitavam
mulheres e homens de gerações e atividades diferentes e até
opostas. Na ocasião, algumas pessoas me perguntaram a origem dessa expressão,
se ela existia oficialmente, isto é, nos dicionários. E existe,
tanto no Aurélio como no Houaiss. Trata-se de um regionalismo
brasileiro e significa atrativo físico especial, irresistível, que
pelo visto os rapazes da música exibem por aí, entre
atrizes e demais mocinhas bonitas. Pode-se mesmo fazer uma brincadeira entre amigos,
listando alguns nomes, independentemente de idade. Por exemplo: Fernanda Montenegro
tem borogodó, assim como Marieta Severo. Como têm também Mel
Lisboa e Christiane Torloni. Pedindo a um grupo de garotas dois nomes masculinos,
de gerações diferentes, os escolhidos entre atores
foram, por unanimidade, José Mayer e Gianecchini. Mas o campeão,
o rei do borogodó entre homens em geral, na vida real e até na ficção,
mais do que esportistas e músicos, sem dúvida nenhuma é Chico
Buarque. Ele é o arrasa-quarteirão, o irresistível, o divino
e maravilhoso, cortejado e desejado por mulheres de todas as idades. Já
ouvi confissões sinceras e comoventes, como a de uma senhora casada, com
filhos e um neto a caminho, que revelou em alto e bom som que pelo Chico largaria
a família, jogaria tudo pro alto e enveredaria pelas alamedas e becos da
vida, se ele assim pedisse, se ele assim desejasse. Verdade. Em pesquisa realizada,
ele foi alçado à grande paixão nacional. Mesmo entre homens,
quando se fala em borogodó e o Chico é citado, todos concordam que
aí já é covardia. Chico é hors-concours. É
de tentar uma freira de pedra. Para
encerrar. Voltemos às atrizes, inspiradoras desta crônica semanal.
Estão também entre elas dois belos exemplos de que essas relações
com a música podem dar muito certo. Eu me refiro a Glória Pires
e Malu Mader, casadas, respectivamente, com o cantor Orlando Moraes e o músico
e escritor Tony Bellotto. Uniões que esbanjam contentamento e que se preservam,
mesmo expostas por dever da profissão que exercem. Malu e Glória
são discretas, e é nas ações e nos olhos que exibem
a felicidade que sentem, mais do que nas páginas de revistas e jornais.
Quanto aos dois invejados e felizardos maridos, que vivem ao lado de atrizes tão
bonitas e talentosas, sem que com isso se tornem arrogantes, o que dá para
concluir é que músico deve ser fera no amor, além
claro de possuir acentuado e irresistível borogodó. E, nesses
dois exemplos, para não apenas conquistar, mas para manter o amor de mulheres
como Glória e Malu, haja borogodó! |