Publicidade
 


 
 


27 de outubro de 2004
REPORTAGEM DE CAPA
MODA
EDUCAÇÃO
ESPETÁCULO
ARTE
BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Borogodó

Manoel Carlos


Não é um fenômeno apenas brasileiro. E talvez nem possa ser chamado de fenômeno. Será um modismo? Ou apenas uma coincidência? Sei lá. Refiro-me ao grande número de jovens que namoram gente ligada à música: cantores, guitarristas, bateristas... Não há nenhum mal nisso, claro, mas me chamou a atenção. Só minha filha tem, entre suas amigas, três apaixonadas por músicos. Elas os seguem por toda parte, em shows pela cidade, aplaudindo, assobiando, gritando, subindo em cima da mesa e exibindo admiração, carinho, amor. São as devotas garotas da banda. É só dar uma olhada nas revistas da semana e vamos encontrar essas demonstrações de afeto ocupando várias páginas. Sim, temos os jogadores de futebol, que também vivem cercados e cortejados publicamente. Neste caso, alguns craques exageram – digamos assim – e acabam se envolvendo em múltiplas e simultâneas relações, como nosso querido Romário, que vem padecendo com essa voracidade, diferente de Júlio Cesar, que é parcimonioso e monogâmico. Assim também o Ronaldo, que gosta das ligações estáveis, com anel de noivado, visitas familiares, apresentações à sociedade, festas quase públicas. Enfim: como no próprio futebol que eles praticam, cada um tem seu estilo, que deve obedecer também à posição em que jogam: defesa, ataque, armação. De qualquer maneira, mesmo com esses exemplos, a música está levando vantagem, e a cada dia vemos crescer o contingente dos afortunados. Assim como quem não quer, fui fazendo as contas, anotando alguns nomes. Entre as atrizes, só entre elas, me lembrei de momento, sem esforço, de Deborah Secco, Alessandra Negrini, Debora Falabella e Paloma Duarte. As quatro, no momento, desfrutam um amor ao som de boa música. Isso sem contar a nossa representante no cenário internacional, a belíssima Luciana Gimenez, que, num lance de admiração e ousadia, abiscoitou o líder dos Rolling Stones.

Em Mulheres Apaixonadas, Marina (Paloma Duarte) dizia que a mãe, Sílvia (Natália do Vale), tinha borogodó, razão pela qual atraía tantos olhares. Apresentada ao vocábulo, Sílvia credita ao borogodó o interesse que sente por Caetano (Paulo Coronato), o motorista de táxi. E Caetano balança entre o borogodó da patroa e o da empregada Shirley (Renata Pitanga). Formava-se assim um círculo, uma cadeia, por onde transitavam mulheres e homens de gerações e atividades diferentes e até opostas. Na ocasião, algumas pessoas me perguntaram a origem dessa expressão, se ela existia oficialmente, isto é, nos dicionários. E existe, tanto no Aurélio como no Houaiss. Trata-se de um regionalismo brasileiro e significa atrativo físico especial, irresistível, que – pelo visto – os rapazes da música exibem por aí, entre atrizes e demais mocinhas bonitas. Pode-se mesmo fazer uma brincadeira entre amigos, listando alguns nomes, independentemente de idade. Por exemplo: Fernanda Montenegro tem borogodó, assim como Marieta Severo. Como têm também Mel Lisboa e Christiane Torloni. Pedindo a um grupo de garotas dois nomes masculinos, de gerações diferentes, os escolhidos – entre atores – foram, por unanimidade, José Mayer e Gianecchini. Mas o campeão, o rei do borogodó entre homens em geral, na vida real e até na ficção, mais do que esportistas e músicos, sem dúvida nenhuma é Chico Buarque. Ele é o arrasa-quarteirão, o irresistível, o divino e maravilhoso, cortejado e desejado por mulheres de todas as idades. Já ouvi confissões sinceras e comoventes, como a de uma senhora casada, com filhos e um neto a caminho, que revelou em alto e bom som que pelo Chico largaria a família, jogaria tudo pro alto e enveredaria pelas alamedas e becos da vida, se ele assim pedisse, se ele assim desejasse. Verdade. Em pesquisa realizada, ele foi alçado à grande paixão nacional. Mesmo entre homens, quando se fala em borogodó e o Chico é citado, todos concordam que aí já é covardia. Chico é hors-concours. É de tentar uma freira de pedra.

Para encerrar. Voltemos às atrizes, inspiradoras desta crônica semanal. Estão também entre elas dois belos exemplos de que essas relações com a música podem dar muito certo. Eu me refiro a Glória Pires e Malu Mader, casadas, respectivamente, com o cantor Orlando Moraes e o músico e escritor Tony Bellotto. Uniões que esbanjam contentamento e que se preservam, mesmo expostas por dever da profissão que exercem. Malu e Glória são discretas, e é nas ações e nos olhos que exibem a felicidade que sentem, mais do que nas páginas de revistas e jornais. Quanto aos dois invejados e felizardos maridos, que vivem ao lado de atrizes tão bonitas e talentosas, sem que com isso se tornem arrogantes, o que dá para concluir é que músico deve ser fera no amor, além – claro – de possuir acentuado e irresistível borogodó. E, nesses dois exemplos, para não apenas conquistar, mas para manter o amor de mulheres como Glória e Malu, haja borogodó!

 

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio | VEJA Noite Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados